Jan 15 2010

A Natureza e a Evolução da Tecnologia

Embora cientes de que a tecnologia se faz cada vez mais presente na vida contemporânea, não raro nos deparamos com um sentimento dúbio. Foi devido a avanços tecnológicos que muitas vidas têm sido salvas quando em outras épocas teriam perecido, e certamente é a tecnologia que nos separa da Idade Média, e, naturalmente, da forma como vivíamos há 50 mil anos ou mais.

Hoje a tecnologia é parte integrante do nosso modus vivendi: ora nos traz divertimento, ora frustrações, ora deslumbramento com o que nós humanos criamos, e às vezes indagações sobre o que está fazendo de nossas vidas. Mais do que qualquer coisa, a tecnologia tem moldado o nosso mundo, pois tem sido fundamental na criação de riqueza, no desenvolvimento da economia e da própria interação social. Ainda assim permanece um profundo desconforto, e não é apenas devido ao receio de que a tecnologia cause novos problemas para cada problema que ela resolve. Depositamos confiança de que serão os avanços tecnológicos que farão nossas vidas melhorar, e que resolverão alguns de nossos problemas mais graves, de modo a nos livrar do sofrimento e a garantir o futuro das novas gerações. Não obstante, nossa confiança não está nessa esperança, mas na nossa verdadeira origem que é a natureza. É claro que diante da tecnologia utilizada na terapia regenerativa com células-tronco vem um sentimento de esperança, mas ao mesmo tempo surge um questionamento mais profundo: quão natural é essa tecnologia? Como diz W. Brian Arthur em seu mais novo livro “The Nature of Technology: What It Is and How It Evolves” (“A Natureza da Tecnologia: O Que É e Como Evolui”, Free Press, Agosto 2009), “somos apanhados no meio de duas enormes e inconscientes forças: nossas esperanças mais profundas como humanos residem na tecnologia, mas nossa mais profunda confiança repousa sobre a natureza. Essas forças são como placas tectônicas esfregando inexoravelmente uma contra a outra numa colisão longa e lenta.”

E essa colisão não seria nova, ao contrário, mais do que qualquer outra coisa ela estaria definindo nossa era. “A tecnologia está permanentemente criando as questões e as convulsões dominantes do nosso tempo. Estamos saindo de uma era na qual máquinas melhoravam o natural – aceleravam nossos movimentos, economizavam nosso suor, costuravam nossas roupas – para uma que traz tecnologias que se parecem com ou substituem o natural – engenharia genética, inteligência artificial, dispositivos médicos implantados em nosso corpo.” “À medida que aprendemos a usar essas tecnologias, estamos passando de usar a natureza para intervir diretamente na natureza. E portanto a estória desse século será sobre o choque entre o que a tecnologia oferece e aquilo com o qual nos sentimos confortáveis,” acrescenta Arthur.

Brian Arthur, engenheiro e economista, é um pensador influente em tecnologia, economia, e a chamada ciência da complexidade (a ciência do como padrões e estruturas se auto-organizam), tendo sido recipiente do prestigioso “Schumpeter Prize in Economics”, e do “Lagrange Prize in Complexity Science”. É mais conhecido por seu trabalho sobre o impacto dos retornos crescentes (em inglês, “increasing returns”) nas economias: a lei econômica que regula os negócios modernos baseados no conhecimento tal como o software. Arthur demonstrou como, particularmente nas indústrias orientadas a tecnologia, vantagens iniciais e eventos aleatórios podem levar a posições de monopólio. Sua pesquisa ganhou importância e influência na época do processo anti-truste movido nos anos 1990’s pelo Departamento de Justiça dos EUA contra a Microsoft.

Motivado pelo fato de que certas questões fundamentais sobre tecnologia ainda não dispõem de respostas satisfatórias, tais como ‘de onde vêm as novas tecnologias?’, ‘como funciona a invenção?’, ‘o que constitui inovação e como se chega até ela?’,  Arthur apresenta sua teoria sobre as origens e a evolução da tecnologia, oferecendo uma explicação de como as novas tecnologias transformadoras emergem e como a inovação realmente funciona. Segundo ele, a tecnologia evolui tal qual um recife de corais se forma a partir de atividades de pequenos organismos – criando-se a partir de si próprio –, e toda tecnologia é uma combinação de tecnologias anteriores. O recife é um sistema ecológico com muitas espécies, e a tecnologia no sentido mais amplo é uma estrutura em constante mudança feita de milhares de tecnologias discretas, elas próprias compostas de outras tecnologias.

A intenção é estabelecer um arcabouço de uma teoria evolucionária da tecnologia que possa explicar por que certas regiões como Cambridge (Inglaterra) nos anos 1920’s e o Vale do Silício nos dias de hoje agem como viveiros da inovação. Arthur acredita que sem evolução, isto é, sem um sentido de relacionamento comum, tecnologias parecem nascer independentemente e melhorar independentemente. Cada uma delas deve vir de algum processo mental não explicado, alguma forma de “criatividade” ou “thinking outside the box” (expressão em inglês usada para se referir ao pensar diferente, de forma não convencional, ou a partir de uma nova perspectiva, normalmente no sentido de pensamento inteligente, criativo, novo) que a faz existir e a desenvolve separadamente. Por outro lado, com evolução (se nos for dada a chance de descobrir como funciona), as novas tecnologias nasceriam de uma forma precisa a partir de tecnologias anteriores, mesmo que com a ajuda de uma considerável “parteira mental”, e se desenvolveriam através de um certo processo de adaptação bem entendido. Assim, se pudéssemos entender a evolução, poderíamos entender aquele que é o mais misterioso dos processos: inovação.

A busca por uma teoria abrangente da inovação levou a conclusões pouco convencionais, como por exemplo, a de que o relacionamento entre ciência e tecnologia é mais simbiótico do que normalmente se acredita. A visão que prevalece é a de que a tecnologia é a serva da ciência – menos pura, mais comercial – porém Arthur defende que ciência e tecnologia andam juntas numa espécie de co-evolução. Como lembra John Markoff em matéria recente no New York Times (“Rethinking What Leads the Way: Science, or New Technology?”, 19/10/09), considere qual seria o estado da ciência sem o microscópio, o telescópio, ou sem os avanços mais recentes como o seqüenciamento automatizado de DNA. Ainda assim haveria ciência, enraizada na percepção e na razão humanas, mas seria bem menos potente que a ciência moderna, que expandiu tecnologicamente os sentidos através de instrumentos de medição altamente sensíveis, e o intelecto por meio de computadores.

Segundo Arthur, as tecnologias evoluem baseadas na constante e caótica recombinação de tecnologias já existentes. Nessa visão, todas as descobertas tecnológicas surgem como novas combinações de componentes tecnológicos existentes, eles próprios tendo surgido da mesma forma. O progresso científico, assim como o tecnológico, é guiado por humanos buscando por um meio para um fim que já tinham definido. Nesse sentido, o argumento de Arthur se assemelha ao de Thomas Kuhn no clássico e controverso “The Structure of Scientific Revolutions” (“A Estrutura das Revoluções Científicas”, University of Chicago Press, 1962) que explora a idéia das “mudanças de paradigma” para explicar o progresso científico. Segundo Kuhn, as teorias científicas acumulariam gradualmente anomalias à medida em que uma nova evidência se desenvolvesse, até que uma crise levasse a um novo paradigma ou modelo teórico. Kuhn defendia que o avanço científico não é evolucionário, mas sim “uma série de interlúdios pacíficos pontuados por revoluções intelectualmente violentas”, e nessas revoluções “uma visão conceitual do mundo é substituída por outra”. No caso do progresso tecnológico, o mercado faz o papel do árbitro na emergência de novas tecnologias, segundo Arthur.

Trata-se de uma visão profundamente social da inovação: o “inventor solitário” é, na verdade, uma invenção, parte da mitologia econômica americana. O gênio aparentemente é sempre alguém que tem um profundo conhecimento das tecnologias existentes e tem a inspiração de combiná-las de novas maneiras. Por essa razão a economia de alta tecnologia é muito mais sobre o “juntar as peças” do que sobre o refinamento de operações fixadas. A economia está se tornando generativa, conclui Arthur. Seu foco está se deslocando de otimizar operações fixadas para criar novas combinações, novas ofertas configuráveis.

O fato é que a tecnologia representativa de hoje não é mais uma máquina com arquitetura fixa realizando uma função fixa. Ao contrário, é um sistema, uma rede de functionalidades – um metabolismo de coisas-executando-coisas que pode sentir seu ambiente e reconfigurar suas ações para executar apropriadamente: trata-se de uma mudança em direção a sistemas “inteligentes”. No futuro tais sistemas não apenas serão auto-configuráveis, auto-otimizadores, e cognitivos, mas também serão auto-montadores, auto-curadores, e auto-protetores. Arthur chama à atenção para o fato de que no passado esses termos não seriam associados à tecnologia, pois trata-se de termos da biologia. O que acontece é que à medida que a tecnologia se torna mais sofisticada, ela também se torna biológica.

Fonte: Portal Exame por Ruy José Guerra Barretto de Queiroz, 27/10/2009


Aug 20 2009

Tecnologia para estabilidade econômica e geração de empregos

A instabilidade econômica gerada pela crise mundial financeira é, sem dúvidas, o principal motivo para as dores de cabeça de muitas pessoas. As versões sobre a crise são as mais variadas: há quem acredite que se trata de pura especulação, outros que dizem que a crise foi criada pelo temor de que algo pior aconteça no futuro. Um fato não pode ser negado: muita coisa mudou desde meados de 2008. Um levantamento realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) denominado Panorama Laboral, revelou que 2,4 milhões de empregos deixarão de existir na América Latina. Acordos de redução salarial e de jornada de trabalho já são realidade na região. No que diz respeito a crescimento econômico a desaceleração também será inevitável segundo a OIT: passará de 4,6% no final de 2008 para 1,9% este ano.

Mas diante de todos esses fatos, há uma estratégia que possa minimizar esses efeitos da recessão econômica em nações latinas ou fortificar os países de uma forma a reduzir os efeitos da crise? Resultados de estudos realizados nos Estados Unidos comprovam que investir em tecnologia de informação e comunicação – nas frentes: pequenas e médias empresas, desenvolvimento de banda larga e tecnologia aplicada à educação – durante estes períodos podem ser um caminho de saída da crise. Estes estímulos ajudam não apenas as nações a não caírem profundamente na recessão como também impulsiona os países a emergirem da crise mais forte do que entraram.

Atualmente cerca de 30 países possuem programas de estimulo em todo o mundo objetivando a estabilidade econômica e a criação ou manutenção de empregos, investindo principalmente em pequenas e médias empresas, redução de impostos, infra-estrutura (estradas, banda larga e tecnologia), estímulo para o consumo e educação, num total investido de US$ 2.9T.

Com o objetivo de se posicionarem como nações avançadas em tecnologia digital e atrair investimentos e negócios, diversos países já adotaram investimentos em banda larga e outros anunciaram planos de internet de alta velocidade separados de qualquer outro plano do governo, como é o caso dos Estados Unidos, Alemanha, Austrália, França, Hungria, Irlanda, Japão e Coréia do Sul.

Algumas pesquisas desenvolvidas por institutos americanos estabelecem uma forte relação entre banda larga e a geração de empregos, das quais se pode citar “Effects of Broadband Deployment on Output and Employment” (Efeitos do Desenvolvimento da Banda Larga na Produção e na Geração de Empregos, realizada pelo Instituto Brooglings) e “The Economic Impact of Stimulating Broadband Nationally” (O Impacto Econômico sobre o Estímulo para a Nacionalização da Banda Larga, desenvolvida pela ONG Connected Nations). Os estudos realizados mostraram uma correlação de até 0,3% de empregos gerados para cada 1% de crescimento na penetração de banda larga. 7% de crescimento na penetração de banda larga traz um impacto econômico positivo de US$ 134 M, além da criação ou manutenção de 2.4 milhões de empregos (impacto econômico de US$ 92 M por ano) e a redução de US$ 662 milhões nos custos de saúde. Os estudos também concluem que em quatro anos os empregos gerados excedem 43% dos investimentos em banda larga.

Todos esses investimentos e resultados impactam também na estrutura empresarial da região. Segundo o estudo “Upgrading to Compete” (Melhorando para competir) de C. Pietrobelli e R. Rabellotti publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento em 2006, pequenas e médias empresas representam 95% das 17 milhões de companhias existentes na América Latina e, juntas geram cerca de 50% dos empregos na região. Ou seja, uma área vital para investir não só para manter os empregos como também viabilizar seu contínuo crescimento.

Alguns exemplos mundiais apontam o sucesso de iniciativas do Governo em prol de PMEs. Na Austrália o governo anunciou recentemente que estas empresas nacionais terão reembolso de impostos cobrados sobre um computador para sua compra ou instalação (também foi anunciado o estímulo para computadores voltados para educação). Já o governo do Vietnam reduziu impostos (de 10 para 5%) e eliminou as taxas para todos os produtos de T.I. Subsídios foram adotados para empréstimos, mantendo os juros a 4% para empréstimos com a finalidade de negócios (liquidez, produção e investimentos em infra-estrutura).

Por todos estes dados e resultados baseados em experiências anteriores é possível afirmar que aqueles que estão investindo neste momento conseguirão, estrategicamente, sair da crise mais fortes do que estavam quando nela entraram.

Fonte: Agência IN por Cássio Tietê – Diretor de Expansão de Negócios da Intel no Brasil, 07/07/2009


Aug 19 2009

Escravização eletrônica versus qualidade de vida

Computador de mesa, celular, notebook, blackberry… As ferramentas tecnológicas mudaram, em poucos anos, a forma como nos relacionamos profissional e socialmente, criando um ambiente de alta disponibilidade no qual todos são facilmente acessados em qualquer lugar e a qualquer momento. A informação que circula neste meio é veloz a ponto de aproximar empresas, clientes e pessoas como se estivessem cara a cara. Conhecidos como Nômades Digitais, o grupo está cada vez maior. Porém, cada vez mais estressado.

A mobilidade é a palavra do momento para todos os nichos de usuários de tecnologia, sejam estudantes que precisam se manter informados o tempo todo para realizar suas pesquisas acadêmicas; executivos que precisam gerenciar empresas e equipes, mesmo estando a milhares de quilômetros da sede da companhia; ou simplesmente cidadãos que querem ou necessitam estar conectados 24 horas por dia.

Este novo panorama, que se sustenta em internet móvel, Wi-Fi, serviços diversificados via celular e outros dispositivos, mostra que é cada vez mais fácil se conectar ao mundo e trabalhar de qualquer lugar.

Indiscutivelmente, esta realidade é um grande avanço para a sociedade e seus sistemas mercadológicos. Porém, o mau uso destes recursos tem causado outros problemas de ordem social, gerando “escravos do mundo virtual”, pessoas que não conseguem se desconectar e se sentem obrigadas a estar disponíveis para chefes e clientes 100% do tempo.

Poder realizar diversas tarefas simultâneas agiliza a rotina dos profissionais, que estão produzindo ainda mais para seus empregadores. No entanto, esta geração está enfrentando o desafio de separar a rotina de trabalho da vida pessoal, de modo que a qualidade de vida permaneça como um item importante na relação de prioridades.

Saber lidar com esta amplitude de opções tecnológicas é o grande desafio dos Nômades Digitais para a próxima década. Ou aprendem a desligar o blackberry na sessão de cinema, ou serão pessoas cada vez mais sozinhas, sem personalidade e conteúdo.

Definitivamente, as empresas não querem workaholics disponíveis 24 horas ao dia. Elas precisam de profissionais focados, criativos e organizados (principalmente com a distribuição do seu próprio tempo), capazes de gerar resultados de alta qualidade dentro do prazo esperado e aproveitar o tempo livre com atividades que os deixem com as cabeças arejadas para voltar ao trabalho no outro dia, com o mesmo empenho.

A tecnologia bem administrada será sempre benéfica para a sociedade, servindo como um facilitador. Contudo, outro ponto relevante nesta discussão é o contato pessoal, que ainda é necessário. Não há nada que substitua uma boa conversa, frente a frente, na qual há espaço e aproximação suficiente para a troca de idéias e argumentações.

Profissionais e empresas não podem simplesmente substituir os escritórios por home-offices sem que a interação interpessoal seja resgatada e estimulada com certa frequência, e que limites sejam impostos à tecnologia em prol de uma boa qualidade de vida.

Para alcançar este equilíbrio entre o pessoal e o profissional, virtual e real, é essencial ser capaz de identificar os momentos certos para dizer não aos dispositivos tecnológicos, como na hora de dormir, fazer as refeições ou até tomar banho, no convívio familiar e durante os períodos de lazer. O bom profissional sabe quando sua disponibilidade é realmente necessária, e não precisa estar o tempo todo conectado para ter seu trabalho e esforço reconhecidos.

É preciso ter claro que a tecnologia não é uma forma de escravização eletrônica, assim como as redes sociais e ferramentas online (como Facebook, Orkut e MSN) não são as únicas formas de interação e diálogo. O aparato hightech disponível hoje no mercado é uma tentação à hiperconectividade, mas uma boa reflexão sobre o papel de cada um destes aparelhos pode nortear o uso racional e saudável da tecnologia, sem fazer dela a grande vilã do mundo moderno.

kicker: “Ou desligam o blackberry na sessão do cinema, ou serão pessoas cada vez mais sozinhas, sem personalidade e conteúdo”

Gazeta Mercantil por Raymundo Peixoto, 05/01/2009