Mar 27 2010

Tropeços no recrutamento

Crédito: Ilustrações Roberto Negreiros

Neste início de ano, o mercado de trabalho está aquecido e receber uma proposta de emprego voltou a ser frequente. “Em praticamente todas as áreas está ocorrendo uma retomada de planos de contratação”, diz Marcelo De Lucca, diretor executivo da Michael Page, empresa de recrutamento com sede em São Paulo. Nessa fase, um velho fantasma assombra os profissionais: a entrevista de emprego. Muita gente ainda comete deslizes durante o processo de seleção. Despreparo e ansiedade excessiva são as principais razões que levam as pessoas a desperdiçar a oportunidade de conquistar um emprego melhor.

Os recrutadores também falham. No final do ano passado, um grupo de 40 profissionais de diversos setores e de todas as partes do Brasil se reuniu pela internet e passou a trocar informações sobre as más experiências por que passaram durante a disputa por uma vaga. Das conversas, saiu uma lista de 13 hábitos que headhunters e áreas de seleção das empresas deveriam evitar. Em geral, os recrutadores sabem lidar com situações inusitadas e gafes dos candidatos. E avisam que só casos extremos realmente comprometem o entrevistado. O bom headhunter procura fazer uma avaliação profissional do candidato sem dar espaço para reações emocionais.

“Não cabe ao recrutador se envolver pessoalmente ou se irritar porque o profissional fala de determinada forma ou tem certa postura”, diz Juliana de Lacerda, sócia-diretora da consultoria Gnext, em São Paulo. De maneira geral, os casos graves tanto para um lado quanto para o outro são as exceções. Os recrutadores lembram ainda que um perfil de candidato pode ser ótimo para uma empresa e péssimo para outra. “O headhunter competente sempre busca atender às necessidades da companhia que o contratou”, explica Juliana.

FALHAS DO CANDIDATO

Um comportamento que elimina o candidato em uma entrevista de emprego é falar mal de ex-chefes. “Já aconteceu de um executivo criticar a própria empresa pela qual ele estava concorrendo à vaga”, diz Ana Paula Passarelli, headhunter da Passarelli Consultores, em São Paulo, que trabalha com posições de alto escalão. Sempre se pede ao candidato que não minta nas competências, como fluência em inglês, ou apresente falsas referências profissionais. Omitir questões importantes para a posição também não adianta: você será desmascarado mais cedo ou mais tarde. “Um candidato escondeu ter medo de avião durante uma seleção para uma vaga que previa muitas viagens”, conta Ana Paula. “Ele foi contratado e demitido logo depois.” Seja honesto. Se você for o candidato ideal, a empresa vai contratá-lo independentemente de um ponto fraco, que poderá ser trabalhado, depois, em treinamentos.

Um processo seletivo é coisa séria. Se você não pretende deixar seu emprego, não entre na disputa. Headhunters dizem que é comum encontrar gente que está interessada apenas em testar a empregabilidade ou saber se o salário está na média do mercado. “Ninguém quer perder tempo com leviandades. Há outros meios de conhecer a remuneração para sua função, como pesquisas de mercado ou mesmo sondagens com conhecidos do meio”, diz Carlos Eduardo Ribeiro Dias, sócio-gerente da Asap, divisão da Fesa, que recruta jovens gerentes. Mesmo para quem estásatisfeito na empresa atual, é praxe haver uma conversa pessoal. Para ir além desse ponto, avise o recrutador que a intenção de deixar o cargo atual é baixa, até porque, em muitos casos, o headhunter não pode dizer num primeiro momento qual é a empresa e o salário oferecido.

Os recrutadores percebem logo quando o profissional está tentando enrolar. Por isso, seja objetivo e evite ficar contando histórias longas. Fuja de perguntas que visam verificar uma determinada competência ou experiência. “Também recomendo tomar cuidado para não discutir detalhes sem importância da contratação, como a marca do celular que a empresa oferece”, diz Danielle Sarraf, diretora de RH do grupo de agências publicitárias PPR e ex-headhunter da Mariaca & Associates. É importante ser flexível e encontrar na agenda um horário para fazer as entrevistas inerentes ao processo. A contratação pode não ser definida apenas pelo headhunter — o mais comum, aliás, é que um gestor da empresa também converse com o candidato. “Em alguns casos eu já fiz as primeiras entrevistas, a companhia contratante quer conhecer o candidato e tem gente que fica propondo horários inviáveis ou remarcando inúmeras vezes”, diz Carlos Eduardo, da Asap. Obviamente, na cabeça da empresa e do caça-talentos, isso sinaliza pouco interesse do candidato. Se você já se decidiu por recusar um convite, diga o quanto antes aos envolvidos.

QUANDO O RECRUTADOR ERRA

Uma questão que irrita bastante os candidatos a um emprego é a falta de feedback dos recrutadores. A queixa é que os headhunters desaparecem após a entrevista, sem dizer por que o candidato não ficou com a vaga. “Com exceção de cargos altos, o que se pode fazer é dar retorno técnico, se ele foi bem ou não no inglês, por exemplo”, diz Fabiana Nakazone, gerente da DM Especialistas, divisão do grupo DMRH, responsável pela seleção de profissionais até cargos de média gerência para companhias como Unilever, Johnson & Johnson e Dow Chemical. “Mas recomendar que um candidato mude características da sua personalidade só porque uma empresa não gostou é colaborar para limitar a visão do profissional em relação a outras oportunidades.”

Pregar rótulos em candidatos é uma atitude errada, mas que ocorre. O engenheiro Carlos Reimer, de 33 anos, gerente de operações da companhia de calçados Kenner, em Campina Grande, na Paraíba, conta que foi difícil superar o estereótipo quando deixou uma empresa estatal de energia. “Era visto como o funcionário público que tem salário alto e produtividade baixa, o que, em tese, significaria falta de ambição”, explica Carlos. O candidato não precisa responder a perguntas que nada tem a ver com o cargo. “O foco na entrevista deve ser o lado profissional, mas já vi recrutador verificar a posição social do profissional”, diz a psicóloga Ana Fraiman. Num caso assim, questione que diferença isso faz. Perguntas constrangedoras também ocorrem e, dependendo do tom, o melhor a fazer é descartar a empresa rapidamente, como conta Márcia Hasche, da consultoria Valor Pessoal, especializada em clima organizacional.

“Um recrutador certa vez perguntou se eu tinha filhos e o que fazia para evitar”, lembra. Headhunters também têm problemas em otimizar a agenda. No ano passado, um caça-talentos pediu ao administrador de empresas Edson Salvio Jr., de 39 anos, atualmente desempregado, que adiantasse em uma hora o início da entrevista. “Quando ele ligou, faltava apenas uma hora e meia para o novo horário sugerido. Topei, mas avisei que poderia me atrasar uns 15 minutos. Chegando lá, ele fez a entrevista às pressas porque já havia outro candidato esperando”, diz Edson. “Pior que isso só quando um entrevistador marcou o encontro na praça de alimentação de um shopping em pleno horário de pico. E a conta ficou para eu pagar.”

CUIDADO COM FALSOS RECRUTADORES

O cientista da computação Samuel Vaz, de 30 anos, analista de tecnologia da Webfoundations, em São Paulo, caiu numa cilada conhecida no mercado. Foi convidado a participar de um processo mas, na hora da entrevista, descobriu que do outro lado não havia um headhunter. “Era uma empresa que oferece aconselhamento de carreira e assessoria de análise de currículo”, lembra. O serviço custaria 2 000 reais. “Ela até conseguia marcar entrevista com uma ou outra empresa, mas ficava sob minha responsabilidade convencê-la a me contratar. E só avisavam que o serviço seria cobrado no meio do terceiro encontro”, diz Samuel.

AS 13 MAIORES MANCADAS DOS CANDIDATOS, NA OPINIÃO DOS RECRUTADORES

1 Omitir fatores que são requisitos importantes para a posição, como a impossibilidade de mudar de cidade ou de viajar com frequência.

2 Discursar autoelogios, usando adjetivos batidos como “dinâmico”, “criativo”, “inovador”, e tudo na primeira pessoa: “eu fiz”, “eu consegui”.

3 Perder a linha de raciocínio contando “causos”, ou se justificar em excesso, fazendo papel de vítima.

4 Questionar detalhes pouco importantes em uma primeira entrevista, como qual modelo de celular a empresa oferece.

5 Faltar ao encontro e não avisar com antecedência, ou cancelar e remarcar várias vezes.

6 Não ser transparente ao explicar o motivo do desligamento das empresas em que trabalhou.

7 Não dar bola a uma sondagem por estar bem empregado ou por considerar- se muito competente.

8 Dar sequência a um processo seletivo apenas para testar a empregabilidade, ou para saber se o salário está na média e desistir depois.

9 Fazer leilão do tipo “quem paga mais” entre as ofertas da nova empresa e as contrapropostas da empresa atual.

10 Manter o celular ligado durante a conversa. Pior ainda quando resolve atender

11 Exceder na ansiedade e ficar perguntando todos os dias sobre o andamento do processo 12 Insistir para que o entrevistador revele o pacote de remuneração, ou a empresa contratante, antes da hora.

13 Falar de forma negativa ou revelar informações confidenciais sobre as empresas em que atuou e sobre os profissionais com quem trabalhou.

AS 13 MAIORES MANCADAS DOS RECRUTADORES, NA OPINIÃO DOS CANDIDATOS

1 Não dar feedback: se o currículo chegou, se a vaga foi fechada, se o candidato já foi excluído…

2 Não estudar com antecedência o currículo do candidato e fazer uma leitura dinâmica instantes antes ou mesmo durante a entrevista.

3 Marcar encontros em lugares inadequados e barulhentos, como shoppings e cafés

4 Fazer perguntas que invadem a privacidade do entrevistado, como o desejo de ter filhos, ou se é casado de papel passado.

5 Rotular o profissional tomando por base o perfil de alguma empresa em que trabalhou.

6 Confidenciar “estou trabalhando esta vaga por fora da empresa que represento”

7 Chamar para entrevista usando uma determinada vaga como isca, mas entrevistar para outra, cuja função e salário não são condizentes.

8 Chamar para entrevista apresentando uma oportunidade e, no meio da conversa, revelar: “Queria apenas conhecê-lo”.

9 Entrevistar dois candidatos simultaneamente para “ganhar tempo” ou fazer a entrevista às pressas porque o candidato seguinte já chegou.

10 Durante a entrevista, permitir ser interrompido por terceiros, atender ao celular, sair da sala, ler e-mails…

11 Dizer que vai passar o candidato para a próxima fase e sumir sem dar nenhuma satisfação.

12 Medir visualmente o candidato de cima a baixo, antes mesmo da conversa ser iniciada.

13 Fazer perguntas ou insinuar brincadeiras preconceituosas relacionadas à religião, cor da pele, preferência sexual e aparência física.

Fonte: Você S/A por Bruno Vieira Feijó, 16/03/2010


Aug 19 2009

Processo seletivo exige atenção e postura por parte do candidato

Profissional de marketing, Marina Medeiros Mussi esta à procura de uma recolocação profissional. Ela tem participando de diversos processos seletivos e afirma que, no momento, sua carreira passa por uma transição. É que por oito anos ela trabalhou em multinacionais do mercado esportivo, até que, em 2007, decidiu migrar para o setor das agências de comunicação, onde atuou por pouco mais do que um ano, em duas empresas diferentes. Mas, na metade do ano passado, ela resolveu voltar para o mundo das grandes corporações.

Marina diz que teve uma experiência válida nas agências. “Conheci os processos internos da comunicação e o que é viável e o que não é. Aprendi muito, mas descobri que o meu lugar é nas empresas”, afirma. Um dos motivos por trás do desejo de Marina de retornar ao universo corporativo é a segurança. “As empresas oferecem mais estabilidade. As equipes duram mais. Nas agências, a rotatividade é grande”, diz.

No momento, ela está participado de diversos processos seletivos. As oportunidades têm surgido de diversas formas: por meio da sua rede de contatos, pela Associação de Ex-alunos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) – onde ela se graduou em Publicidade e Propaganda em 2003 -, nas aulas do MBA e também por meio da empresa de recrutamento Robert Half. Sobre este fato, ela observa que é preciso cuidado na hora de escolher uma consultoria de recursos humanos. “A consultora que trabalha comigo na Robert Half é uma pessoa que entende de marketing. Isso não aconteceu com outras empresas que tive contato. Muitas buscam conhecer o perfil do candidato de um modo mecânico”, alerta.

Mariana já chegou à fase final de alguns dos processos de seleção. “Mas, por causa da atual crise financeira, várias posições foram modificadas ou até congeladas. Diversos processos foram temporariamente descontinuados. Mas, mesmo com essa turbulência, há posições que são necessárias. Então as seleções continuam”, afirma.

O comentário indica que a tendência é que os processos seletivos se tornem cada vez mais disputados, desafiadores. Para Mariana, é fundamental manter a transparência frente ao recrutador. “Não adianta criar um perfil, ser um ator, pois depois a verdade acaba se revelando. A naturalidade é muito importante”, aponta.

Desde agosto, quando começou a buscar uma nova posição profissional, ela tentou perceber o que precisava melhorar em sua performance durante as entrevista. “Fui acrescentando algumas coisas, principalmente em relação a ressaltar os meus pontos fortes”, diz.

Mente de entrevistador

Segundo o diretor geral da Trabalhando.com.br, Renato Grinberg, para se ter sucesso em uma entrevista, é preciso pensar como o entrevistador. “O candidato diz [ao recrutador] que quer a vaga porque a empresa é grande e oferece um bom salário, mas não pensa naquilo que ele pode oferecer à companhia”, diz. Ou seja, é comum que os candidatos não falem como eles podem contribuir ao assumir o cargo em aberto.

Para não cometer esse erro, Grinberg recomenda que o candidato comece por considerar a entrevista como um trabalho a ser realizado com seriedade. O segundo passo é fazer uma pesquisa sobre a empresa que está oferecendo a vaga. “Não é saber, simplesmente, o que ela faz e onde está localizada. É preciso entender quais são os pontos-chaves para a posição em questão e qual é a cultura da companhia” orienta. Para essa tarefa, uma boa idéia é vasculhar o site da empresa, além de jornais e revistas que possam conter reportagens sobre ela. “Em 90% dos casos o entrevistador vai perguntar ao candidato porque ele é bom para a vaga. Com preparo, é possível responder à questão com naturalidade.”

Na opinião de Grinberg, a melhor maneira de se entender a cultura de uma companhia e o que ela espera de profissionais é conversando com profissionais daquela empresa. “Para o entrevistador, isso significa pró-atividade. Nos Estados Unidos, isso é comum e até esperado. Aqui, não é habitual. Então é preciso ter a cautela de não procurar alguém que esteja relacionado à posição disputada”, comenta Grinberg.

Segundo ele, a adaptação à cultura da empresa é importante porque os demais itens de seleção – como experiências, cursos e competências – estão cada vez mais equilibrados entre os candidatos melhores preparados. Porém, antes de abordar algum executivo, é uma boa idéia ter uma lista de questões em mãos. Isso demonstra respeito pelo tempo da pessoa.

Gazeta Mercantil por João Paulo Freitas, 14/01/2009