Aug 29 2009

Líderes devem se autoavaliar para contribuir com a inovação nas empresas

Inovação é um termo para descrever como as organizações em geral (privadas, públicas ou do terceiro setor) criam valor desenvolvendo conhecimento novo, transformando o já existente, mas de modos diferentes. É freqüentemente usado para descrever o desenvolvimento de novos produtos/serviços ou processos calçados na tecnologia. No entanto, as organizações podem também de destacar com inovações em técnicas de gestão ou modelos de negócio.

James March, prêmio Nobel em 1991, utiliza a perspectiva da aprendizagem organizacional para distinguir as inovações que provém de conhecimento inédito e as que buscam novas maneiras de explorar o conhecimento já existente. Para ele, as empresas com foco em novos conhecimentos de destacam, pois atendem aos mercados existentes ou ultrapassam as expectativas criando novos nichos, produtos e serviços.

Podemos afirmar que as organizações que se tornaram líderes, e continuam mantendo-se assim, optaram pela excelência não apenas nas dimensões custo e qualidade, mas especialmente, pela excelência na Gestão da Inovação.

E o que não faltam são exemplos, dentro e fora do Brasil como a Cia. Athlética, Fiat, Google, InBev, Michelin, Microsoft, Nestlé, Odebrecht, Pirelli, Rigesa e Souza Cruz, dentre outras. Vale dizer que estas líderes, como poucos no universo empresarial, aprendem continuamente a definir estratégias vencedoras para pessoas, processos, ambiente e tecnologia, ou seja, as quatro dimensões da inovação.

Frente a isto, devemos nos preocupar com o que é exigido daqueles que estão (ou pretendem estar) à frente de organizações que optaram por uma estratégia de inovação, pois o perfil e desempenho que deles se espera é, no mínimo, “especial”. Além disto, não devemos nos esquecer que há muito estamos em tempos marcados por fortíssima turbulência e por mudanças radicais em alta velocidade, e assim continuaremos.

Na medida em que os desafios da inovação aumentam de tamanho e tornam-se cada vez mais singulares, algumas importantes perguntas devem ser feitas e consideradas como parte da permanente auto-avaliação de empresários e empreendedores bem como daqueles profissionais em posições de liderança:

Tenho uma visão clara dos objetivos que minha empresa quer atingir por meio da inovação?

Estou pronto e apto (conceitualmente) para esta empreitada e sei como ajudar minha empresa a chegar lá?

Sei como lidar com a incerteza?

Sou tolerante ao estresse e tenho o vigor e a disposição necessários para atingir os referidos objetivos?

Sei o que devo fazer para ampliar minha capacidade de aprendizagem permanente?

Sou tolerante ao risco (inclui o aprendizado decorrente de erros) e sei fomentar isto em minha equipe?

Sei o que é ser flexível e fomento isto em minha equipe?

Sei o que é ser inovador e sei como fomentar o espírito inovador em minha equipe?

Sei como lidar com a diversidade? Sei como construir uma equipe cuja marca seja esta?

Sou um “agente de mudanças”? Sei como desenvolver criar gerentes especialistas que também sejam verdadeiros agentes de mudanças? Sei como criar agentes de mudanças na “base da pirâmide”?

Gestores interessados e saber mais sobre os processos de inovação e como aplicá-los podem contar também com literaturas sobre o tema: “Gestão da Inovação”, de J. Tidd, J. Bessant e K. Pavitt, Ed. Bookman e “Usina de Inovações”, de Valter Pieracciani, Ed. Canal Certo.

Agência IN por José Hernani Arrym Filho, 28/08/2009

Aug 27 2009

As pessoas são a chave mestra para se alcançar a inovação

Madri, 10 de Junho de 2008 – O engenheiro mecânico Jordi Jornet é pago para pensar. Ele trabalha em um dos grupos de inovação da Ficosa, empresa provedora de sistemas e componentes automotivos. São 7 mil funcionários espalhados por 19 países, embora toda a inovação da companhia esteja centralizada em um edifício situado em Mollet del Vallès ( Barcelona) onde trabalham 500 pessoas, das quais 400 são engenheiros de diversas especializações.

Esse grande grupo de criadores se dedica a explorar as necessidades do mercado , encontrar respostas, selecionar a melhor solução, desenvolvê-la e comercializá-la. São as etapas que se identificam dentro de qualquer processo de inovação: descobrir um problema, buscar soluções, desenvolver a melhor solução e, finalmente, implantá-la no mercado. “As empresas espanholas estão preparadas para as etapas finais, mas muito poucas para as duas primeiras, que têm a ver com o desenvolvimento da criatividade”, segundo Javier Dorrego, professor de técnicas e criatividade e inovação nas escolas especializadas em marketing Esic.

Segundo Dorrego, na Espanha são poucas as companhia que acreditam na inovação, pois “apenas algumas contam com um grupo multidisciplinar de criatividade formado entre 3 e 12 pessoas que se reúnem periodicamente para gerar idéias, em um ambiente longe da empresa para potencializar a criatividade.

Joan Ramis, diretor do departamento de Direção de Operações e Inovação da Esade, cita vários exemplos; Camper tem um centro dedicado a pensar em novas linhas de negócio e de produto situado no centro de Majorca, de onde saíram a idéia dos sapatos recicláveis Waby e a original iniciativa de abrir um hotel no bairro Arrabal de Barcelona, para fazer com que as pessoas se sintam em casa.

O restaurante El Bull, de Ferrán Adriá, em Roses (Girona), fecha para o público metade do ano para se dedicar ao estudo de novos pratos. As lojas Imaginarium que partiram do conceito de um jogo para toda a família, no momento abrem novas linhas de negócio no setor de viagens familiares.

Para Ramis, a crítica à reduzida criatividade e inovação na Espanha parte do erro de comparar a trama empresarial espanhola com a de países como EUA, Finlândia ou Japão, líderes em investimentos I+D ou Inovação e Desenvolvimento. “Temos uma trama industrial de pequenas e médias empresas onde predomina o setor de serviços, e nossa inovação corresponde a essas características que nos afastaram dos outros países. A mensuração da inovação é feita atendendo ao investimento em I+D realizado pelas empresas, e cujos dados mais recentes demonstram que apenas 29,5% das companhias espanholas são criativas e inovadoras, cifra que não corresponde à realidade. Não existe uma mensuração boa para a criatividade, e é muito raro que uma empresa não inove em algum momento ou sentido”, enfatizou.

Os empregados que desenvolvem sua atividade nessas unidades criativas são da casa. Não é comum contratar alguém para cobrir esse negócio. Jordi Jornet, por exemplo, estava há sete anos trabalhando como engenheiro na Ficosa quando foi transferido para o departamento de inovação e criação.

Para fazer parte desse grupo de visionários é preciso mais que um diploma em cálculo; é necessário contar com um claro perfil criativo. Javier Dorrego, especialista em inovação, possui uma lista com as características desse tipo de trabalhador, que pode ser resumida em uma pessoa de mentalidade aberta com capacidade para ouvir, espírito crítico e pouco conformista.

Quando o tamanho da empresa é maior, o conceito de inovação oferece diferentes formas. Companhias “made in Spain” como Zara, Mango e Banco Santander têm a característica comum de serem impulsionadas por um líder empreendedor que, segundo Ramis, determina que o espírito de renovação persista na organização, além da criação de uma unidade específica dedicada à criatividade.

Entretanto em outros casos, a necessidade de se adiantar às exigências de mercado, e seguindo o conceito de que a inovação é a chave do desenvolvimento empresarial, alavancou o nascimento de grupos de criação dentro da empresa , que cada vez se tornam mais imprescindíveis.

Cesar Díaz, diretor geral de desenvolvimento e inovação da Leche Pascual, explica essa estrutura em sua empresa. “Criamos uma célula de inovação formada por três pessoas para cada uma de nossas seis unidades básicas: água, leite, produtos funcionais, iogurtes, gerais e sucos. Essas células estão compostas por especialistas em marketing, tecnologia e I+D, aos quais se somam outros perfis específicos, segundo o tema tratado.”

Os membros dessas unidades estão integrados em diferentes postos da empresa e não têm uma dedicação exclusiva. “Necessitamos que sejam profissionais com um conhecimento do dia-a-dia do negócio e com uma idéia clara das necessidades reais da produção”, enfatizou Díaz.

Pedir auxílio a apoios externos em algum momento do processo de inovação é muito comum dentro da empresa espanhola, tanto na contratação de desenvolvimento de novas soluções tecnológicas como na identificação das necessidades dos consumidores, para o que se procura companhias especializadas em análise de mercado.

Gazeta Mercantil, Expansión, Vida Executiva 10/06/2008


Aug 20 2009

Patentes, Propriedade Intelectual e Inovação na Era Digital

A tecnologia digital tem invadido cada aspecto do nosso dia a dia. Adquirimos alguns hábitos típicos era da internet como: concordar com termos de serviço ou licença de uso sem ao menos ler os textos; disponibilizar e/ou compartilhar arquivos de música ou filme; instalar programas aplicativos em nossos computadores pessoais ou aparelhos celulares. Poderíamos nos perguntar se tais usos seriam, ou mesmo morais. Certamente, a grande maioria não tem certeza da resposta. O fato é que, se por um lado os sistemas sociais, politicos e econômicos, assim como a Lei, mudam lentamente, por outro lado, a tecnologia muda num piscar de olhos. Nós, usuários, ficamos ali na lacuna entre a velocidade da inovação tecnológica e a lentidão das mudanças sociais.

Não obstante, com tantos benefícios à sociedade trazidos pelos avanços tecnológicos, é impossível não reconhecer a importância do conhecimento e da disseminação da informação na sociedade contemporânea. Inovações tecnológicas estão cada vez mais presentes no cotidiano, desde novos medicamentos ou equipamentos médicos mais sofisticados, a novos e “espertos” aparelhos celulares, invariavelmente produtos de novas descobertas científicas e invenções. Surge naturalmente o dilema: como incentivar a invenção e a descoberta de novos conhecimentos e, ao mesmo tempo, garantir sua ampla disseminação e aplicação? No início da era industrial nasce o conceito de proteção à invenção e à descoberta científica sob forma de patentes e propriedade intelectual. Segundo a Constituição americana, o objetivo da lei de patentes é “promover o progresso da ciência e artes úteis.” Por sua vez, a Lei brasileira 9.729/96 prevê que “a proteção dos direitos relativos à propriedade industrial, considerado o seu interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País, efetua-se mediante a concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade.”

Há duzentos anos, exatamente no dia 04/07/1809, encerrava-se o segundo período à frente da Presidência dos Estados Unidos de um dos pioneiros da lei de patentes norte-americana, e, sobretudo alguém que defendia que o conhecimento e o acesso ao conhecimento eram essenciais à preservação de uma democracia. Para Thomas Jefferson, o principal autor da Declaração da Independência dos EUA (1776), e um dois mais influentes defensores dos ideais do republicanismo nos Estados Unidos, a busca pelo conhecimento e por sua disseminação eram componentes necessários para o desenvolvimento econômico e uma melhor qualidade de vida para todos os cidadãos. No entanto, segundo Jeffrey Matsuura (“Thomas Jefferson and the Evolution of a Populist Vision of Intellectual Property Rights and Democratic Values,” publicado no periódico Archipelago, Vol. 10-34, March 2007), Jefferson acreditava que os direitos à propriedade intelectual propiciavam uma ferramenta útil, mas não essencial, para o incentivo à invenção, pois reconhecia que tais direitos poderiam representar incentivos econômicos para que inventores desenvolvessem e compartilhassem suas inovações.

Porém, como lembra L. Gordon Crovitz em recente artigo de opinião no portal do Wall Street Journal (“Why Technologists Want Fewer Patents”, 15/06/09), até o advento da era digital, patentes eram tipicamente para novas máquinas ou melhoramentos em máquinas existentes. Ultimamente, no entanto, as cortes americanas têm confirmado patentes para novas idéias sobre como fazer coisas, pouco ou nada relacionadas a uma máquina a não ser um computador. Aí estão incluídas patentes para técnicas em finanças, contabilidade e seguros. Mês passado, no entanto, a Suprema Corte americana concordou em reconsiderar o que pode ser patenteado, e isso deverá envolver dezenas de milhares de patentes existentes e uma reflexão sobre o papel das patentes. O fato é que a própria idéia de propriedade intelectual, que dá fundamento às leis de patentes, marcas, direitos autorais e segredos industriais começa a ser questionado. Se por um lado as criações intelectuais se constituem em bens intangíveis porém com valor, por outro lado a lei as enxerga como uma forma de propriedade, à qual se aplicam os mesmo direitos, responsabilidades e proteção que se aplicam às propriedades físicas. Como diz Larry Downes (“IP Law Versus Moore’s Law”, CIO Insight, 02/05/07), “essa ficção funcionou bem no início do capitalismo, mas somente porque ‘roubar’ informação era difícil. Antes de Gutenberg inventar a prensa, o custo de copiar um manuscrito era muito alto, mas desde a Revolução Industrial, a tecnologia tem tornado mais rápida e mais barata a distribuição da informação.” Daí, a lei de patentes hoje mais se parece com uma placa tectônica entre a Era Industrial e a Era da Informação. Como em outras áreas da propriedade intelectual, as patentes estabelecem regras sobre como as invenções funcionam e como essas informações podem ser usadas e compartilhadas. O fato é que as maiores inovações hoje em dia são métodos melhores ao invés de novas máquinas. Crovitz cita um advogado do Vale do Silício que diz que “diferentemente da Revolução Industrial, muitas das invenções de hoje não nos provocariam nenhuma dor se nos caíssem em cima do pé.”

Para se ter uma idéia do quão necessária se faz uma reforma no sistema de patentes, Crovitz lembra que a IBM, que há anos tem sido a maior produtora de patentes, agora diz que estão sendo concedidas patentes em demasia. A empresa também é a líder em patentes do tipo “métodos de negócios” que pode vir a ser invalidado pela Suprema Corte americana, risco que corre também o software, cuja patenteabilidade tem sido questionada por muitos juristas.

Em seu comentário, Crovitz também chama a atenção para os custos decorrentes das disputas sobre patentes. Algo como 500 milhões de solicitações de registro por ano são submetidas ao escritório de patentes do governo americano, levando os custos de litígio a um montante superior a US$10 bilhões por ano para que se defina quem tem direito a que. Além do mais, como escreveu o jurista Richard Posner, patentes para idéias criam o risco de “gerar enorme poder de monopólio (imagine se a primeira pessoa que pensou num leilão tivesse sido permitida patentear sua idéia!).” Estudos indicam que, com exceção das indústrias química e farmacêutica, o custo de litígio hoje ultrapassa os lucros que as empresas geram das patentes licenceadas.

Concretamente, quase todo fabricante de um novo produto tem que fazer um grande esforço para se certificar de que não está violando uma patente, o que parece ser a razão pela qual a própria IBM está levantando a voz, avalia Crovitz. “Na Era Industrial, inovação era sobretudo o resultado do trabalho de indivíduos ou de pequenos grupos dentro de uma empresa,” explica o advogado da IBM, David Kappos. “A natureza da inovação mudou. Hoje, nos beneficiamos de invenções que se tornaram possíveis através de tecnologias altamente colaborativas e interconectadas. Muitos dos produtos que os consumidores demandam são complexos e incluem contribuições de múltiplos inovadores que incorporam centenas, se não milhares, de invenções patenteadas.” Segundo Kappos, isso “aumenta a necessidade de que a determinação do escopo válido dos direitos à patente seja previsível e claro.” No atual estado de coisas, a imprecisão das leis de patente significa que “o tempo precioso de cientistas e engenheiros habilitados é muito frequentemente gasto se defendendo contra litígios custosos e que demandam tempo, ao invés de criar inovações e gerar crescimento econômico.” Em livro a ser lançado em Outubro de 2009 (“The Laws of Disruption: Harnessing the New Forces that Govern Life and Business in the Digital Age”, Basic Books), Larry Downes, especialista em questões legais em torno da inovação tecnológica, chama a atenção para os cuidados que inovadores têm que tomar para não serem surpreendidos com ações de violação de patente. É preciso se antecipar a desafios legais que possam vir a surgir em função da natureza do produto ou serviço inovador. Segundo Downes, crítico contumaz da natureza lenta da lei para se adaptar a novas tecnologias, especialmente tecnologias que são aplicadas rapidamente e ainda evoluem, os desafios não virão do governo, mas dos competidores, que usarão o sistema de leis para desacelerar ou parar o progresso de inovações que lhes desagradem. “Quanto mais radical for a inovação, mais provavelmente os competidores tradicionais usarão os tribunais para desacelerar ou parar seu progresso. Trata-se de uma conseqüência natural da crescente lacuna entre o potencial da tecnologia para mudar nossas vidas e nossa capacidade de nos adaptarmos rapidamente. O ritmo com que a inovação tecnológica muda as regras de uma indústria é invariavelmente mais rápido do que a indústria deseja mudar. A Lei é uma das principais armas de resistência.”

Um dos pontos principais do argumento de Downes é que a Lei é projetada para mudar lentamente, seja através da tradição da lei comum na qual juízes aplicam velhos precedentes a novos fatos, ou por meio do processo legislativo, que é feito para ser deliberativo num esforço para conter paixões e excesso de reação humanos. Trata-se de um tema que permeia seus escritos, desde o artigo ”When Software isn’t a Product” (CIO Insight, 10/07/08), que lida com a mudança do status do software de produto para serviço, e a conseqüente porém não inteiramente intencional mudança do corpo de leis que governa as transações de software, da lei de vendas à lei de licenças, até ”eBay and the Legal Problems with Online Marketplaces” (CIO Insight, 13/08/08), que analisa dois casos recentes de processo contra a empresa de leilão eletrônico eBay envolvendo sua responsabilização por permitir a comercialização de produtos falsificados. Tais casos seriam sinais de que estaríamos à beira de uma mudança de paradigma, e que uma mudança revolucionária estaria se aproximando em ritmo acelerado. Os incidentes de conflito com o sistema de leis antigo seriam mais alguns desses sinais de proximidade da revolução, que segundo Downes, é inevitável, mas não precisa ser violenta.

Fonte: Agência IN por Ruy José Guerra Barretto de Queiroz – Professor Associado, Centro de Informática da UFPE, 13/07/2009.