O cliente é o melhor vendedor
O empresário Hiroshi Chibana, de 40 anos, sempre se considerou um bom vendedor. Dono de uma empresa de autopeças em São Paulo, ele começou a carreira ajudando o pai a vender verduras na feira, no bairro do Limão, zona norte da cidade, quando ainda era criança. Até que, em 1990, com apenas 15 anos, comprou, junto com o irmão, seu atual negócio, a Chibana Autopeças. Em apenas cinco anos, a empresa praticamente dobrou de tamanho graças, em grande parte, à habilidade do empresário à frente do balcão. Nos últimos meses, no entanto, Chibana tem tentado vender mais do que pastilhas de freio e correias dentadas. O empreendedor tem se dedicado a encontrar consumidores dispostos a comprar planos da Nextel, companhia americana que oferece serviços de rádio pelo celular no Brasil. Só nas últimas semanas, Chibana — ele próprio um comprador dos serviços da Nextel — indicou quatro novos usuários para a operadora entre clientes de sua própria empresa e amigos. Com isso conseguiu uma economia de cerca de 30% em sua fatura mensal. “Estou satisfeito com o serviço da empresa”, afirma Chibana. “E, se posso economizar ao indicá-la a amigos, por que não o faria?”
A história de Chibana oferece um dos exemplos mais contundentes de um expediente que se tornou comum na subsidiária brasileira da Nextel. Desde abril, seus mais de 1 000 vendedores mudaram a rotina de trabalho. Habituados a visitar apenas clientes corporativos e a esperar pelo contato de eventuais interessados em adquirir os serviços da empresa, eles agora partiram para uma espécie de guerrilha corpo a corpo, incentivando os próprios usuários a indicar novos clientes. Quase metade dos cerca de 250 000 novos clientes conquistados nos últimos meses chegou à Nextel por indicação de outros mais antigos. A captação de cada um deles custa, em média, 500 reais, cerca de cinco vezes o valor que as operadoras normalmente gastam para conquistar um novo usuário. Isso explica, em grande parte, por que clientes-vendedores, como Chibana, hoje são tão importantes para o negócio. Diante dos resultados alcançados no Brasil, a matriz americana já estuda exportar o modelo para outras filiais, como México, Argentina e Peru. “Esse modelo vai nos ajudar a manter o ritmo de crescimento de 40% ao ano”, afirma o mineiro Sérgio Chaia, presidente da operação brasileira da Nextel.
A utilização da base de clientes como uma espécie de equipe extraoficial de vendas surgiu da observação de um movimento espontâneo em grupos de usuários de alto poder aquisitivo da Nextel — clientela relativamente nova para a empresa, cuja base de consumidores até pouco tempo atrás era formada por motoristas de caminhão, motoboys e funcionários de chão de fábrica. Até a chegada de Chaia à presidência, em 2007, a operadora usava como principais argumentos de vendas a praticidade e o preço de seu produto — em geral, o custo de uma empresa para manter o rádio para um funcionário representa um terço do de um celular. Egresso da rede francesa de alimentação Sodexo, Chaia sofisticou os serviços e a oferta de aparelhos, que aumentou de quatro modelos em 2006 para os atuais 14. Em março, a fila para adquirir o novo BlackBerry chegou a dois meses — prova de que a companhia começou a ganhar usuários entre executivos, empresários e celebridades. A multiplicação dos clientes de alta renda ajudou a Nextel a aumentar sua receita média por usuário — hoje na casa dos 100 reais, quatro vezes a média das demais operadoras (e 27% maior que a própria média da Nextel há dois anos). Entre 2006 e 2008, sua rentabilidade passou de 21,4% para 27,8%, superior à das concorrentes TIM e Oi. “Ao contrário do que geralmente acontece com as operadoras de celular, a Nextel trabalhou conosco no desenvolvimento de novos produtos”, afirma Marco Arruda, diretor de marketing e vendas da Motorola para a tecnologia iDEN, utilizada pela Nextel. “Queríamos atender à maior gama possível de clientes.”
No início do ano passado, a empresa percebeu que o aumento no número desses novos perfis de clientes não acontecia apenas graças a contratos corporativos. Havia uma rede de indicações espontâneas dos usuários das empresas clientes para sua rede pessoal de relacionamentos. “O boca a boca acontecia à revelia da Nextel e a empresa não estava tirando proveito desse movimento”, afirma o publicitário Celso Loducca, um dos responsáveis por traçar a nova estratégia da companhia. Ao perceber o movimento, Chaia montou um plano de ação para incentivá-lo. “Busquei inspiração na lógica de funcionamento de redes sociais como Orkut e Facebook”, diz ele. A ideia era fazer com que os clientes criassem comunidades entre amigos e familiares fora do ambiente de trabalho, sem que a operadora precisasse intervir nesse processo.
O primeiro passo foi a identificação de clientes cuja fatura mensal se concentrasse principalmente em ligações para duas ou três pessoas — gente que estaria mais propensa a se beneficiar ao optar por um plano da Nextel. A partir daí, os vendedores começaram a entrar em contato diretamente com esses usuários para oferecer reduções na fatura de até 40% caso convencessem seus contatos a aderir à operadora. “Chaia conseguiu incutir nas pessoas a sensação de que é possível falar muito gastando pouco, mesmo que isso nem sempre seja verdade”, afirma um executivo próximo à empresa.
O avanço da Nextel tem gerado algum desconforto entre as empresas de telefonia móvel. Como dona de uma licença do tipo SME, a operadora só poderia oferecer seus serviços a empresas ou grupos de consumidores voltados para alguma atividade específica, como uma confraria de vinhos ou praticantes de determinado esporte. Algumas concorrentes, porém, apontam que a Nextel tem oferecido o serviço indiscriminadamente a todos os consumidores e estudam entrar com uma queixa na Anatel, agência que regula o setor, solicitando a suspensão da oferta. (A Anatel afirma não ter sido notificada formalmente sobre o assunto, mas se compromete a fiscalizar a atuação da empresa havendo qualquer indício de irregularidade.) “Pagamos três vezes mais por nossas licenças para ter acesso a um mercado mais amplo”, afirma um executivo de uma operadora concorrente. “A Nextel não precisa cumprir metas de cobertura como nós. A competição, nesse caso, é muito desigual.” Oficialmente, a Nextel diz que cumpre rigorosamente a regulamentação. Hoje, a empresa detém apenas 1,5% do mercado de telefonia móvel do país. Diferentemente do que ocorre com Vivo, Claro, TIM e Oi, a Nextel não tem cobertura nacional, algo fundamental para clientes do mercado corporativo, seu principal foco de atuação. Embora esteja no Brasil há mais de uma década, só agora a Nextel decidiu entrar na Região Nordeste, de longe a que mais cresce no país — e lá também pretende usar os próprios clientes para alavancar as vendas. “Nosso cliente é o melhor outdoor que temos”, diz Chaia.
Fonte: Portal Exame por Carolina Meyer, 04/08/2009