Oct 19 2009

Empreender virou carreira

Ao concluir o curso de administração de empresas, em 2002, o paulista Ricardo Buckup tinha seu futuro praticamente assegurado. Recém-formado pela Fundação Getulio Vargas, fluente em cinco idiomas e com estágios profissionais no exterior, Buckup tinha garantida uma vaga na área de gestão estratégica da consultoria Roland Berger, onde havia estagiado por seis meses. Mas, aparentemente, a estrutura de uma grande empresa, um crachá de funcionário e o contracheque no final do mês não faziam parte de seus planos profissionais. Aos 24 anos de idade, Buckup juntou-se a um amigo de faculdade, Carlos Balma, para criar o próprio negócio. Assim nasceu a B2, consultoria de marketing e promoção de eventos voltada para o público jovem. Hoje, sete anos após a decisão tomada por Buckup, a B2 é um negócio de 40 milhões de reais de faturamento, 110 funcionários e clientes do porte de Banco Real, Chevrolet, Nivea, Pirelli, Smirnoff, Suzano e Telefônica. “Sempre achei o horizonte das grandes empresas um tanto quanto limitado”, diz Buckup, hoje com 31 anos.

Assim como Buckup e Balma, uma legião de jovens recém-saídos de algumas das melhores universidades brasileiras está trocando o crachá das corporações pelo cartão de visita de suas empresas. Em 2008, jovens profissionais de 18 a 34 anos estavam à frente de 6 milhões de novas empresas abertas no país — o equivalente a 61% do total desse tipo de negócio, segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que abrange 43 países. “Empreender virou uma opção legítima de carreira para os jovens”, afirma Paulo Alberto Bastos Júnior, pesquisador do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade, responsável pela GEM no país.

O  movimento do qual Buckup e Balma fazem parte é sinal de uma profunda alteração no perfil do empreendedorismo no Brasil. Na última década, começou a ganhar corpo a participação do chamado empreendedorismo por opção sobre o de necessidade. Isso significa que o volume de negócios abertos por pessoas interessadas em explorar novas oportunidades de negócio — e enriquecer com isso — começou a se sobrepor ao daquelas que foram forçadas a tirar seu sustento de atividades fora do mercado de trabalho formal. Os dados da GEM apontam que, em 2008, a proporção do empreendedorismo por opção foi de dois para um em relação ao por necessidade. Por trás dessa mudança estão principalmente os jovens na faixa etária de 18 a 24 anos. Enquanto em 2001 eles significavam 18% do total de empreendedores por opção, no ano passado foram 29%. Do ponto da educação formal, 25% desses jovens cursam ou já concluíram o ensino superior. O quadro brasileiro ainda não é comparável ao que acontece em países com forte vocação empreendedora como os Estados Unidos. Entre os americanos, a relação dos negócios abertos por opção e o empreendedorismo por necessidade é de seis para um. Mesmo assim, a evolução no perfil do empreendedor brasileiro não deixa de ser uma excelente notícia. “Por ser mais qualificados, esses jovens empreendedores contribuem para o progresso da economia como um todo”, afirma Afonso Cozzi, professor da Fundação Dom Cabral. “Os planos de negócios são mais bem estruturados e as chances de sucesso aumentam muito.” Empreendedorismo de qualidade, dinamismo econômico e inovação estão diretamente ligados. Foi esse espírito que, em boa medida, levou os Estados Unidos a ser a nação mais poderosa do mundo. É ele, também, a maior esperança de tirar o país da maior crise em 80 anos.

Boa parte desse ímpeto dos jovens em abrir o próprio negócio advém da dificuldade das grandes empresas em absorver e lidar com novos talentos. A chamada geração Y — jovens nascidos entre os anos 80 e 90 — foi talhada para contestar muitos dos velhos valores corporativos. São indivíduos criados sob a égide do mundo digital, com um repertório de informação incomparavelmente maior que as gerações anteriores e com um traço de personalidade marcadamente impaciente, volúvel e insubordinado. “Os jovens não querem mais administrar projetos com os quais não se identificam”, afirma André Alfaya, sócio da Robert Wong, consultoria de gestão de carreiras. A única maneira de as empresas conseguirem atrair esses novos talentos é transformá-los em empreendedores internos — mas são raríssimas as que realmente chegam a isso. O resultado é que cada vez mais os jovens simplesmente desconsideram a possibilidade de trabalhar em uma grande companhia. Foi o caso de Renato Shirakashi, de 25 anos, que, junto com um amigo de infância, criou seu primeiro negócio em 2004, quando ainda cursava ciências da computação na Universidade de São Paulo. A Via6, rede social para contatos profissionais com 500 000 usuários, deve faturar 1 milhão de reais neste ano. “Eu simplesmente não vejo nenhuma empresa capaz de me oferecer um desafio como esse.”

Se existe uma fonte de inspiração para os jovens empreendedores brasileiros, são os gênios milionários do mundo digital, como Chad Hurley, do YouTube, Mark Zuckerberg, do Facebook, ou Sergei Brin e Larry Page, do Google. Nesses modelos, o que mais importa não é a capacidade de transformar rapidamente ideias em empresas bilionárias — coisa um tanto quanto distante da realidade brasileira. O que atrai os novos empreendedores brasileiros é a possibilidade de fazer o que gostam do jeito que gostam. “Os jovens querem ser empresários de calça jeans e camiseta”, afirma Tales Andreassi, coordenador do Núcleo de Empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Atentas aos modelos globais de empresas iniciadas numa garagem ou mesmo nos dormitórios universitários, as faculdades de administração brasileiras passaram a ministrar cursos específicos sobre o assunto já na graduação — há pouco mais de uma década esse tipo de disciplina se restringia aos currículos de pós-graduação. “Hoje, o aluno é incentivado a pensar como um empresário logo nos primeiros semestres do curso”, diz Andreassi.

Foi esse estímulo que levou Jaques Weltman a procurar boas oportunidades de negócio após se formar em administração de empresas. E acabou encontrando-a em São Carlos, cidade a 250 quilômetros da capital paulista e um dos principais polos de tecnologia do estado. Lá, Weltman identificou um grupo de professores que produzia robôs para ser utilizados nos cursos de engenharia. Ele percebeu que ali estava uma ideia com grande potencial e se ofereceu para ampliar a empresa e expandir o negócio. O plano era vender os kits para escolas de ensino fundamental e médio, como parte de um programa educativo na área de robótica. De gestor do negócio, Weltman se tornou o principal sócio da empresa, a Pete. Com contratos firmados com 60 escolas, a Pete deve fechar o ano com um faturamento de 5 milhões de reais. “Na era da internet e do videogame, a lousa e o giz não atraem mais essas crianças”, diz Weltman.

Sair dos bancos universitários direto para a cadeira de presidente traz um desafio óbvio: a falta de experiência prática de gestão. Embora a maioria conte com uma boa formação teórica, pouquíssimos jovens conseguem acumular alguma vivência administrativa antes de assumir o leme da própria empresa. Uma pesquisa da escola de negócios HEC Montreal com jovens empreendedores canadenses joga luzes nessa questão. Na faixa etária de 18 a 24 anos, os entrevistados simplesmente não tinham nenhuma experiência prévia em áreas como administração, marketing ou finanças. Inexperientes, os jovens gastam mais tempo na elaboração do plano de negócios que os empreendedores mais velhos, e demoram mais para fechar a primeira venda. “Muitos jovens querem abrir negócios, mas simplesmente ignoram regras básicas como a dinâmica do mercado onde atuarão”, diz Cândido Borges, professor da Universidade Federal de Goiás e um dos autores da pesquisa realizada pela escola canadense.

Formado em direito pela Universidade de Mogi das Cruzes, em 2000, Leandro Japequino, de 31 anos, chegou a trabalhar como advogado por três anos, mas desistiu da profissão. Em 2004, decidiu abrir uma academia de ginástica. Não ficou satisfeito com os resultados. Decidiu então dar um novo rumo ao negócio. Ao pesquisar na internet, encontrou informações sobre uma rede de academias chamada My Gym, com sede em Los Angeles e especializada em atividades para crianças de 6 semanas a 13 anos de idade. Animado com a ideia, Japequino entrou em contato com a empresa, foi para os Estados Unidos e se tornou máster-franqueado da rede no Brasil. Diferentemente do que fez com a primeira academia, passou todo o ano de 2008 estruturando o negócio. O investimento inicial foi de 2 milhões de reais, que dividiu com um sócio investidor. A primeira unidade foi aberta em março deste ano, no bairro paulistano de Moema. Outras duas unidades — as primeiras franquias vendidas por Japequino no Brasil — devem ser inauguradas até o final do ano. A meta é atingir 30 academias em três anos. “Sem uma ideia matadora e um plano bem estruturado é muito difícil para alguém que está começando agora conseguir ir além da mera sobrevivência”, diz Japequino.

Vencer a própria inexperiência não é a única tarefa árdua dos novatos. Outro desafio tão ou mais difícil é convencer os investidores a aplicar recursos em seu projeto. A família e os amigos ainda são os principais financiadores dos jovens, mas, cada vez mais, eles buscam ajuda em meios mais profissionais de financiamento, como os fundos de capital de risco. Na Confrapar, gestora especializada em apoiar projetos em fase de startup, 75% dos interessados em obter recursos são empreendedores com menos de 34 anos. Apenas uma de cada 100 propostas analisadas pela gestora recebe aporte de capital. “O quesito que mais derruba os projetos é o grau de inovação. Para nós, o negócio tem de ser realmente inédito”, diz Carlos Eduardo Guillaume, diretor da Confrapar. Mas mesmo modelos de negócio arrojados encontram dificuldades. Quando decidiu fundar a NetMovies, em 2004, Daniel Topel, de 34 anos, estava trazendo ao país uma ideia pioneira de locação de vídeos pela internet. O modelo era inspirado na americana Netflix, que contava na época com 1,5 milhão de assinantes. Topel conseguiu o apoio de um investidor-anjo, que aplicou o suficiente para iniciar o projeto. Mas ele só contou com recursos para dar um salto de escala em 2006, quando a Ideiasnet, um fundo de participação em negócios de tecnologia, decidiu investir na empresa. “Conseguir dinheiro é sempre difícil no Brasil”, afirma Topel. E vencer essa etapa é crucial para que a atual onda de empreendedores não morra na praia.

Fonte: Portal exame por Márcio Juliboni, 22/09/2009.


Aug 19 2009

Coaching é atrativo para jovens talentos

Encontrar jovens com formação de primeira linha e alto potencial de desenvolvimento profissional não é tarefa simples para nenhuma empresa. Para se diferenciar e atrair os melhores talentos, algumas companhias já oferecem coaching e mentoring durante seus programas de trainee. Isso é necessário porque a crescente oferta de processos de treinamento está tornando acirrada a disputa por profissionais. O aspirante a trainee tem, hoje, mais opções de escolha e pode analisar profundamente os benefícios antes de optar por uma empresa. Além de um bom salário, ações voltadas para o desenvolvimento profissional e pessoal contam na hora da decisão.

“Hoje, conhecendo a importância do coaching, o vejo como um diferencial importante”, diz Marcela Pereira, que desde abril do ano passado participa do trainee da Klabin, empresa que oferece coaching durante o programa. “Sendo sincera, eu não sabia o quando seria positivo na carreira”, afirma. “Trata-se de uma ferramenta extremamente importante, que te permite enxergar para onde você quer seguir, quais são seus pontos fortes e quais você precisa reforçar. Sem ela é mais difícil alcançar as metas individuais de carreira”, completa ela, que tem 26 anos e é formada em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP).

As empresas usam o coaching com o objetivo de apoiar, questionar e elaborar pontos específicos do atual momento profissional da carreira do jovem. O objetivo é ajudá-lo a refletir sobre conflitos interpessoais, dificuldades de adaptação ao ambiente corporativo e as ambigüidades entre ser aprendiz e ter que atingir resultados em um curto período de tempo. A ambivalência entre esses pontos causa, muitas vezes, sentimento de ansiedade, falta de clareza e apoio do programa e mesmo frustração com o próprio papel e, claro, com a empresa.

Além do coaching, o mentoring também tem sido adotado. Durante seu trainee, que dura um ano, a Whirlpool escolhe, para cada participante do programa, um gerente geral, que será o mentor. A intenção é que essa pessoa ajude o treinando a lidar com as ansiedades e também o esclareça em relação aos assuntos ligados à carreira na empresa.

Segundo a gerente de desenvolvimento organizacional da companhia, Ursula Angeli, é importante que os trainees tenham contato com alguém mais experiente, uma pessoa que possa oferecer a eles aspectos reais sobre a vida da empresa. Nesse sentido, o mentoring é benéfico por permitir que o trainee tenha contato com diferentes tipos de lideranças. Quem está em treinamento na área de marketing, por exemplo, terá, além do gestor da própria área, o acompanhamento de um gerente geral como mentor, que costuma ser de outra área.

Outro diferencial da Whirlpool é o que a empresa chama de “pós-trainee”. Basicamente, trata-se de um acompanhamento que a companhia realiza durante o segundo ano dos jovens profissionais na empresa. Durante o período, a cada trimestre, ocorre uma semana de desenvolvimento na qual, entre outras atividades, há a realização de uma sessão de coaching individual, com cerca de uma hora e meia de duração. É a oportunidade do profissional falar de suas expectativas e dificuldade sobre a carreira. “Coaching é individual e visa entender quais são as ansiedades da pessoa, além de ajudá-la a desenvolver suas características positivas. Auxilia na particularidade de cada indivíduo. O mentoring foca mais na empresa e nas possibilidades do indivíduo dentro da empresa. É algo voltado mais para o negócio, não tanto para o indivíduo”, observa Ursula. “O fato de termos o pós-trainee é um diferencial. Vários participantes nos dizem que colocam essa oferta na balança. É comum que esses jovens participem de mais de um programa”, assegura.

Dificuldade com hierarquia

Para a consultora de recursos humanos da empresa de desenvolvimento organizacional Across, Cristiane Oliveira, as questões de carreira não incomodam só quem tem maturidade profissional. “O que percebo com os jovens é que eles têm um incômodo com suas escolhas e em como devem se posicionar na carreira. Eles têm dificuldade para lidar com hierarquia e com políticas internas”, observa.

Segundo Cristiane, nos últimos três anos os programas de trainee têm se diversificado. As empresas estão recorrendo ao coaching e ao mentoring durante os programas de trainees porque é grande o investimento que elas fazem – tanto conceitual como financeiros – para encontrar jovens capacitados e transmitir a eles a visão e a cultura da companhia, já que a intenção dos processos de treinamento é realizar um acelerado desenvolvimento na carreira dos participantes.

“Tentamos ver como o participante do trainee lida com conflitos na área. Às vezes, falta a ele jogo de cintura e visão analítica”, observa Cristiane. “O coaching procura fazer o profissional se sentir melhor com a carreira, tanto no que diz respeito à própria profissão quando ao que ele entrega à organização. Ou seja, trata de orientá-lo para que ele tenha resultados mais consistentes, se relacione melhor com os colegas e que ele desenvolva consciência do caminho que está seguindo”, completa.

Gazeta Mercantil/ Vida Executiva/ João Paulo Freitas, 28/01/2009