Oct 19 2009

Guru da auto-ajuda prevê nova onda da crise

Num momento em que economistas do mundo todo vislumbram mercados mais calmos nos próximos meses, com a superação da crise que abateu diversos países, e o otimismo faz a Bolsa de Valores de São Paulo voltar ao patamar de 60 mil pontos, o guru financeiro Robert Kiyosaki, autor do best seller global “Pai Rico, Pai Pobre”, vai contra a corrente.  “Acredito que o estado da economia norte-americana vai piorar novamente a partir de abril de 2010, porque teremos um repique da crise imobiliária”, afirma, em entrevista ao portal AE Investimentos, com a expertise de quem investe neste no setor de imóveis há décadas.

Pessimista ou realista, como ele prefere, Kiyosaki não acredita que os Estados Unidos sairão da crise tão rapidamente. “Até 2012, teremos muitos processos de falência. Isso é bom para mim, que sou investidor profissional que ganha com esses altos e baixos da economia”, diz Kiyosaki, aos 62 anos, que está pela primeira vez no Brasil, mas não pensa em investir por aqui.

Hoje, Kiyosaki fará duas palestras durante a feira de investimentos Expo Money em São Paulo, mas apenas quem comprou a nova edição brasileira de “Pai Rico, Pai Pobre”, já traduzido em 109 países, e 30 milhões de exemplares vendidos, sendo 2 milhões no País, terá acesso ao auditório. Mas a palestra poderá ser acompanhada de telões espalhados no pavilhão da feira.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista concedida ontem por Kiyosaki ao portal AE Investimentos:

Economia americana

“Não acredito que os Estados Unidos saiam rapidamente da crise. Acredito que até 2012 teremos muitos processos de falência. Isso é bom para mim, que sou investidor profissional que ganha com esses altos e baixos da economia. Se a economia piorar, eu ganho ainda mais, porque aparecem mais oportunidades de negócios. Eu acredito que a economia americana vai piorar novamente a partir de abril de 2010, porque teremos um repique da crise imobiliária.”

Repique da crise

“O que desencadeou essa crise, iniciada em 2007 foi o processo de refinanciamento de hipotecas imobiliárias e todos aqueles empacotamentos que o setor financeiro fez dessas dívidas. Foi isso que provocou a crise, mas isso ainda não foi inteiramente superado. As residências foram o primeiro momento da crise. Neste ano, tivemos um intervalo, mas no ano que vem teremos uma crise que envolverá imóveis comerciais, como shopping centers e coisas assim. Isso não acontecerá a menos que haja muito mais crédito disponível.”

Pessimismo ou realismo?

Ao ser indagado porque a maioria dos economistas não concorda com o repique da crise, Kiyosaki diz que economistas são economistas, não investidores. São caras espertos e professores, como Greenspan e Bernanke. “Eles não podem falar disso porque, se Bernanke falasse isso agora, o mundo todo entraria em colapso”, diz rindo em seguida. Ele nega que esteja sendo pessimista e diz que a crise é a oportunidade para que ele fique rico. Mas, como ele já é milionário, responde: “Eu sei, mas, quando a economia está mal, as chances são maiores”. Para quem é um investidor, não faz muita diferença como está a economia.

Distribuição de ativos

“A maioria dos ativos da minha carteira de investimentos vem de negócios que possuo, como minha editora, minha empresa de petróleo e meus negócios imobiliários. Então, controlo meus negócios. Não tenho praticamente ações na minha carteira. Tenho ações que são participações em minhas próprias empresas. Não confio em ações. São muito voláteis – sobem e descem o tempo todo. Eu apenas confio em fluxo de caixa, em quanto entra de recursos a cada mês.”

Investir em commodities

Kiyosaki já disse que não entra em negócios especulativos, mas investe em commodities, como ouro, prata e petróleo. Indagado se isso não seria um negócio especulativo, respondeu: “Faço isso porque sei que o Federal Reserve (o banco central norte-americano), e seu presidente Ben Bernanke, e [o presidente] Barack Obama estão imprimindo trilhões de dólares. Então, em vez de colocar o dinheiro no banco e receber zero de taxa de juros, coloco meu dinheiro em ouro e prata. Não estou especulando, estou apenas fazendo um hedge em relação à forte desvalorização dólar norte-americano. Eu definitivamente não confio no meu governo.

Investir em imóveis

“Investir em imóveis é diferente de investir em commodities ou ações. Hoje, investir em imóveis nos Estados Unidos é ter um passivo. Mas eu posso ter o passivo que quiser. O negócio com imóveis dependem de empregos. Não invisto em cidades como Detroit, porque os empregos lá estão sumindo. Invisto em cidades, como Oklahoma, Dallas e Houston, porque é onde está a indústria de petróleo. Imóveis dependem da existência de empregos e de crédito.”

Fundos imobiliários

“Eu não gosto de fundos imobiliários, porque são ativos em papel e eu sou um empreendedor. Eu não preciso comprar fundos de outras pessoas. Pensando em pequenos investidores, investir ou não nesse tipo de fundo depende do perfil de cada um. Se o investidor não tiver um conhecimento sofisticado do setor imobiliário, esses fundos podem ser uma boa alternativa.”

Aplicações no Brasil

“Não tenho investimentos no Brasil, mas já investi no Peru e na Argentina.” Sobre o potencial de negócios com petróleo no Brasil, Kiyosaki, que atua no setor, responde que a exploração de pré-sal é em águas profundas, o que exige um grande investimento. “É um negócio para um gigante como a Petrobras, não é factível economicamente para uma empresa pequena. Minha companhia de petróleo explora regiões pequenas que não são alvo das grandes companhias.”

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Revisão de idéias

O livro “Pai Rico Pai Pobre” foi publicado há mais de dez anos. Indagado se revisou suas ideias já que o mundo mudou muito desde então, disse: “Não, eu não revisei. Eu invisto para ter um fluxo de caixa, não invisto em jogos de capital. Quando alguém me diz que minhas ações vão subir, ou minha casa vai subir ou alguma coisa vai subir, esse jogo de capital é especulação. Eu só invisto. Em  90% das vezes invisto para ter fluxo de caixa. Se o investimento não coloca dinheiro no meu bolso hoje, numa boa economia ou numa má economia, eu não o quero. Eu já fiz especulações e eu tive sucesso algumas vezes e fracasso em alguns vezes. Eu não me importo se a minha casa irá se valorizar, se meu carro irá se valorizar, se minhas ações irão se valorizar eu só quero um caixa para o momento atual e para o futuro.”

Começar cedo

É importante começar cedo? “Isto é verdade. Se não fosse pelo meu pai rico, eu seria um empregado do governo como meu pai pobre.” Mas ele pondera que sempre há tempo para mudar e começar.

Medo do risco

Sobre como sua esposa superou o medo de investir, Kiyosaki respondeu: “Acho que depende da pessoa. Eu recomendo para as pessoas: se você gosta de ações, comece a ter aula de ações e você se tornará um bom trader. A chave não é investir no mercado de imóveis, ou em ouro, mas como cercar-se do investimento. A coisa mais difícil para ela foi que seus pais não entenderam o que ela estava fazendo e falavam: ‘não faça isso, não compre imóveis’. Então, a coisa mais difícil não é tanto os ativos, as ações, mas quem são seus amigos.  É muito fácil para a gente se meus amigos são pessoas relacionadas, mas quando ela falou para o pai, a mãe ou as irmãs, ‘isso é tão arriscado’.”

Próximos 10 anos

“Será a mesma coisa. O mundo continuará com pessoas morando em casas, comendo, voando. Tudo o que eu faço é bem básico: gosto de petróleo, ouro, prata, imóveis e de educação. Eu não acho que isso vai mudar em 10, 20 ou 30 anos.”

Fonte: Portal Exame por Yolanda Fordelone e Rita Tavares, 17/09/2009


Aug 19 2009

Pró-ativo ou reativo? Eis a questão

Não sei se existe alguma fórmula infalível contra crises. Provavelmente não. Tudo na vida segue ciclos e, como diz o ditado popular, não há mal que sempre dure, não há bem que nunca acabe. Mas existe, sim, uma forma de enfrentar as crises e de superar as dificuldades que delas advém. E o caminho para isso é agir de maneira pró-ativa.

Pró-atividade é muito mais do que um sinônimo de iniciativa. No livro “Em Busca de Sentido”, o psiquiatra austríaco Victor Frankl descreve a pessoa pró-ativa como alguém que assume responsabilidade por sua própria vida em vez de se colocar à mercê das circunstâncias ou de outras pessoas. Muitas vezes sentimos que fazemos o que fazemos porque não temos escolha. Achamos que não podemos dar início às mudanças que gostaríamos de ver em nossas vidas porque as circunstâncias não permitem. Não podemos crescer como profissionais porque “o patrão não nos dá uma chance”. Não podemos seguir nossa vocação porque “precisamos desse emprego”. Não podemos perseguir nossos sonhos porque “temos que pagar as contas no fim do mês”. E assim uma longa lista de “não podemos” é que passa a controlar nossas vidas.

Não é nada fácil convencer uma pessoa que está presa ao “não posso” de que na verdade ela pode. Se lhe dissermos: “Mas por que você não procura outro trabalho? Por que não muda de emprego? Por que não procura meios de fazer o que gosta? Por que não encontra outro jeito de ganhar dinheiro?”, ela irá repetir as mesmas justificativas de sempre e pôr um fim à conversa dizendo: “Falar é fácil. Você não sabe o que é estar no meu lugar”. É quase como estar num transe hipnótico no qual a pessoa só consegue ver um modo de fazer as coisas, um modo de encarar a realidade, um modo de viver e esse modo é sempre o do “eu não posso”.

Há uma frase que diz “existem três tipos de pessoas: as que fazem as coisas acontecer, as que olham as coisas acontecerem e as que se perguntam o que está acontecendo”. As do primeiro tipo são pró-ativas – assumem a responsabilidade de agir e decidem como vão agir. Demonstram iniciativa, antecipam-se aos problemas e, é claro, são determinadas e persistentes. As do segundo e do terceiro tipos são o oposto disso. São pessoas reativas. O reativo, como o próprio nome indica, é aquele que reage em vez de agir. Ou seja, ele espera as coisas acontecerem e só toma uma atitude quando é forçado a isso – motivo pelo qual uma das frases preferidas dos reativos é: “eu não tive escolha”. Na verdade, ele não ficou sem escolhas. Elas apenas foram reduzidas porque ele só resolveu fazer alguma coisa quando já era tarde demais. Leve isso em consideração cada vez que você começar a pensar em formas de enfrentar a crise.

Gazeta Mercantil/ Vida Executiva/ Ricardo Bellino, 26/01/2009