Mudanças e Tendências do Mercado de Trabalho

Maria do Carmo de Souza Macena Francini

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


O Homem e o Trabalho

Ao se pesquisar o sentido da palavra trabalho, encontramos como definição a aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim. Qual seria esse fim ? Obter para si e seus dependentes, de forma digna, condições básicas de sobrevivência: alimento, habitação, vestuário, saúde, educação e lazer. Enfim, estar inserido no contexto social, como ser humano ativo, participante, produtivo, exercendo plenamente sua condição de cidadão.

Concebido na antigüidade clássica como um castigo, algo penoso, representa em nossos dias um bem de valor imensurável.

O Momento em que Vivemos

Vivemos um momento que se pode qualificar como ímpar na história do homem, não pelo fato de ocorrerem mudanças, por que elas fazem parte da dinâmica da vida e proporcionam ao ser humano sua evolução. O que se apresenta como singularidade é a velocidade com que essas transformações vem ocorrendo, atingindo a todos.

A economia nacional é absorvida pelo espaço global; a indústria está perdendo peso dia a dia em relação a novos eixos de atividades; as burguesias, no sentido tradicional de proprietários de meios de produção, estão sendo substituídas por tecnocratas racionais e implacáveis, quando não por especuladores completamente desgarrados das realidades prosaicas de produtores e consumidores. A classe trabalhadora se tornou um universo extremamente diversificado no quadro da nova complexidade social e a sua compreensão resiste cada vez mais às simplificações tradicionais. A socialização dos meios de produção mudou de rumo, o Estado está à procura de novas funções como articulador e não mais como substituto, das forças sociais.

Um Breve Histórico do Processo de Mudanças

As mudanças são decorrentes das necessidades do homem, que ocorrem de forma automática: satisfeita uma prioridade, logo surge uma nova necessidade, fruto da resolução da primeira.

O desenvolvimento da agricultura, por exemplo aconteceu quando populações outrora nômades, que se dedicavam primordialmente à caça e à coleta de frutos da natureza, perceberam a possibilidade de cultivar os vegetais e desenvolveram tecnologias para tanto, substituindo também a caça pela criação de animais, como na pecuária e no caso de animais domésticos. Na seqüência , a população pôde crescer a taxas mais rápidas, o que também foi o resultado de aprimoramento das condições de saúde, estas por sua vez trazidas também por descobertas científicas e tecnológicas.

Essa ampliação da população e da atividade econômica fez crescerem as oportunidades de trabalho. Posteriormente veio a Revolução Industrial, com o desenvolvimento de vários tipos de máquina até chegar aos motores movidos por combustível ou por eletricidade. Isso permitiu novos produtos industriais, como o automóvel, o avião e vários outros para os quais havia uma demanda potencial, mas não atendida. Seu atendimento propiciou grande desenvolvimento das atividades industriais e do emprego nesse setor.

O Mercado de Trabalho Também Mudou
 

Hoje estamos diante de uma nova revolução, ligada novamente a avanços tecnológicos e científicos, como a informática e as comunicações, aprimorando-se os diversos meios de comunicação e transporte, na seqüência dos quais veio a chamada globalização. Esta é uma expressão cunhada na esteira do conceito de "aldeia global", de Marshall McLuhan. Este percebeu o mundo como uma aldeia dessa natureza, possibilitada pelo avanço dos meios de comunicação, o qual trouxe também um maior desenvolvimento do comércio e das finanças internacionais, com as diversas economias abrindo-se, entrelaçando-se umas com as outras e cada vez mais expostas à competitividade.

Isso levou as empresas a uma busca quase que obsessiva por métodos de produção que propiciassem a redução dos custos, e o aumento da produtividade, o que em muitos casos , afetou o emprego de forma negativa.

"Para alcançar maior competitividade, as empresas passaram a adotar novos métodos de produção, administração e comercialização, buscando sempre mais eficiência produtiva, inovações e uma maior qualidade para seus produtos e serviços, com grandes aumentos de produtividade que, freqüentemente, geraram menores necessidades de mão - de ñ obra. O próprio relacionamento com os empregados também passou a sofrer alterações, com o objetivo de obter maior produtividade e de delegar autonomia de decisão, com isso proliferando métodos específicos como a terceirização, ou seja, a contratação externa de produção e de serviços antes realizados pelas próprias empresas. Houve também grandes mudanças nas qualificações exigidas dos trabalhadores, os quais passaram por programas de adaptação ou, desempregados, buscaram novas ocupações. Nesse processo, a indústria e a agricultura continuaram perdendo participação no volume da mão ñ de ñ obra empregada, crescendo, entretanto, a participação do setor de serviços, mas novamente impondo novas necessidades em termos de qualificações." Macedo(1998:137)

O Novo Paradigma

As mudanças no mercado de trabalho são tão profundas que na literatura especializada já se fala num novo paradigma , que rompe definitivamente com os conceitos até então estabelecidos com relação ao consumo, aos tipos de produto, à tecnologia, e às formas de organização e gestão das empresas.

Conhecido como Fordismo ñ Taylorismo, o paradigma anterior se pautava por elementos introduzidos na produção através de dois grandes nomes na história da administração: Henry Ford( famoso empresário da indústria automobilística que trouxe imensas inovações industriais com a linha de montagem para produção em massa,) e Frederick Taylor (engenheiro conhecido pelas suas contribuições na esfera organizacional e administrativa, em particular o estudo do tempo necessário para a execução de cada tarefa, acoplado a incentivos para o trabalhador, aumentando sua produtividade nesse tempo).

O novo paradigma possui os seguintes traços em termos de trajetória organizacional das empresas: (a) utilização de tecnologias avançadas, com processo contínuo de aprendizagem profissional e contínua avaliação organizacional; (b) ênfase na qualidade, produtividade e flexibilidade de produtos, processos e trabalho como chave da competitividade; (c) busca de uma relação cooperativa e complementar, e não mais de oposição e substituição, entre tecnologia e trabalho; (d) valorização da qualificação e da requalificação do trabalhador, com ênfase no treinamento permanente, como base para a flexibilidade e polivalência ocupacional; (e) esforço para pensar a empresa global e integradamente, como um sistema aberto, interagindo com os atores externos, internos e com a sociedade em geral.

Trabalho e Qualificação nos Paradigmas ou Modelos Produtivos

 

Discriminação
Fordismo - Taylorismo
Novo Paradigma

Economia e Mercado

Expansão

Crise

Estabilidade

Instabilidade

Competição local

Competição mundial

"A empresa manda"

"O cliente é o rei"

Tipologia de Produto

Padronizado

Diversificado

Ciclo de vida longo

Ciclo de vida curto

Inovação por etapas

Inovação contínua

Fabricação em massa

Seriação média ou peq.

Quantidade

Qualidade

Processos e Tecnologia

Equipes obedientes

Equipes aplicadas

Equipes especiais

Equipes universais

Base eletromecânica

Base eletroeletrônica

Linhas de montagem

Células de fabricação

Organização e Gestão

Hierarquia

Participação

Vertical

Horizontal

Centralizada

Decentralizada

Controladora

Formadora

Punitiva

Orientadora

Características do Trabalho

Tarefas/Operações

Processos

Fracionado

Integrado

Prescritivo

Aleatório

Repetitivo

Flexível

Especializado

Polivalente

Heterocontrolado

Autocontrolado

Posto de trabalho

Equipe

Requisitos de Qualificação

Habilidade

Competência

Saber (fazer)

Aprender

Disciplina

Autocontrole

Obediência

Iniciativa

Acatamento de regras

Gestão do aleatório

Reação

Ação, pró-ação

Memorização

Raciocínio

Execução

Diagnóstico

Concentração

Atenção

Formação breve ou longa

Formação contínua

Individualismo

Coletivismo

Isolamento

Comunicação

Capital - Trabalho

O aumento da competitividade e a busca de maior eficiência levaram empresas a otimizarem seus resultados em todos os aspectos, principalmente no que diz respeito à mão- de- obra , reduzindo a oferta de empregos, com o conseqüente aumento da demanda de mão-de-obra. Diminuiu portanto, o poder de barganha dos já empregados e dos novos ingressantes no mercado, suas expectativas de ganho e exigindo deles mais qualificações e mais empenho na procura de oportunidades e manutenção do emprego.

As grandes empresas , tradicionalmente geradoras de empregos quase que vitalícios, já não apresentam esse perfil. As mudanças de emprego por parte dos empregados, anteriormente vistas de forma pejorativa, passaram a ser consideradas uma coisa normal, e o empregado passivo, executando uma única tarefa e obedecendo a comando, passou a ser desprezado em função daqueles mais dinâmicos e ambiciosos, flexíveis na realização de várias tarefas e capazes de oferecer novas idéias.

O departamento de pessoal (que antes era voltado para a função simplesmente operacional de contratar mão-de-obra, cadastrar empregados, administrar salários e benefícios, dar treinamento generalizado aos funcionários, executar serviços de rotina, como arquivo, definição de salários, cálculo de custos), especialmente nas grandes empresas, está dando lugar ao departamento de recursos humanos.

O chefe de pessoal virou um consultor de Recursos Humanos ñ área conhecida como R.H., com funções bem mais sofisticadas. Participar no desenvolvimento das estratégias da empresa, recrutar e selecionar pessoal, implantar e difundir a cultura da empresa e acompanhar as tendências internacionais na gestão desses recursos fazem parte hoje do dia-a-dia desse departamento. Os arquivos viraram bancos de dados , os salários são tratados como pacotes de compensações, ao lado do custo dos empregados, examina-se também o valor que eles adicionam às empresas e qual o retorno que ela vai ter com a contratação e treinamento deles. O empregado é tratado como colaborador, deve ter uma visão global da empresa e o seu treinamento passa a ser individualizado.

Para adaptar-se a nova realidade, com as inovações nos processos produtivos e utilização do trabalho, surgem novas práticas na relação capital-trabalho, especialmente nos países ricos, onde o novo paradigma já atua perto da plenitude.

A fim de permitir a reorganização do trabalho, inúmeras regras, normas governamentais e legislativas tem sido relaxadas, propiciando um quadro mais favorável ás adaptações necessárias.

Dentro das empresas também ocorre esse aumento de flexibilidade com a descentralização, fazendo com que as decisões passem a depender das esferas diretamente ligadas à identificação do problema, estimulando o potencial criativo dos trabalhadores, agilizando o processo, aumentando também o grau de participação dos trabalhadores em todos os níveis da organização.

O lado patronal por sua vez vem atuando individualmente como o principal agente das estratégias e decisões relativas às relações trabalhistas, fortalecendo os administradores como introdutores de modificações de qualquer espécie nas relações de emprego.

Cresce a importância do desenvolvimento dos recursos humanos, uma vez que a qualidade do trabalho reflete uma maior produtividade, propiciando competitividade às empresas. Alteram-se portanto as formas de remuneração, buscando premiar o desempenho e flexibilidade. O trabalho teceirizado ou por tarefas também ganha seu espaço.

Por fim, as reformulações na produção e nos empregos, as mudanças na forma de ocupação, o aumento da participação dos trabalhadores na gestão das empresas e a diminuição do seu tamanho, gerou o enfraquecimento dos sindicatos, que hoje redobram seus esforços com o objetivo de adaptar-se às novas regra, angariar novos filiados e superar as dificuldades quanto a obtenção de recursos para financiar suas atividades.

"Em síntese, pressionadas por seu mercado e pela crescente competitividade, as empresas responderam aprimorando seus processo produtivos e de administração, com vistas ao alcance de maior eficiência. Isso, por sua vez, exigia um novo relacionamento empresa-empregado e um novo perfil deste último. Assim, surge um novo jogo que, inegavelmente, , oferece maiores riscos, tanto para a empresa como para o empregado." Macedo (1998:143).

Tendências do Mercado de Trabalho

Globalização e tecnologia da informação, em meio à vertiginosa aceleração dos fatos econômicos, estão criando novas profissões e tornando outras tantas obsoletas, alterando rpofunda e rapidamente o perfil das atividades profissionais. Dentro de 15 a 30 anos, pelo menos metade das profissões, tal como conhecemos hoje, terão desaparecido. Consultorias de negócio apontam que, no ano 2010, a composição de 70% do PIB de um país como o Japão virão de produtos ainda inexistentes, gerando ocupações e necessidades completamente novas. Poderá não ser a realidade de países menos desenvolvidos, como o Brasil, pois prevalece a tendência de aumento do fosso que separa ricos e pobres, países ou pessoas. Consistentes movimentos políticos , éticos we econômicos, em pleno desenvolvimento podem mudar essa tend6encia.

Mais do que novos produtos, os avanços na segurança e na qualidade da Internet viabilizarão a internacionalização da economia e criarão novo paradigma gerencial destinado a mudar completamente o ambiente de trabalho e de produção.

A redução de custos de hardware e a sofisticação dos softwares, viabilizarão redes neurais de computadores sustentando decisões probabilísticas, ou seja, confiáveis projeções das margens de acerto e erro da opção gerencial.

Essas decisões, no entanto, serão tomadas em escritórios virtuais, em que a informação estará dosponível em todos os níveis da empresa. O compartilhamento deve transformar a tradicional hierarquia em apenas ordenamento da seqüência das atividades operacionais, com responsabilidades interdependentes. Informação, espírito de equipe, flexibilidade e extrema criatividade serão o diferencial que se exigirá do profissional que pretenda integrar essa cadeia.

A criatividade, no caso, está intimamente relacionada com intuição, que assim como as demais qualidades citadas, estariam mais presentes no psiquismo feminino. Fator que, somado à evolução social, está abrindo mais espaço para o trabalho das mulheres nesse novo ambiente.

Está em alta o "generalista", o empreendedor que sabe opinar sobre todas as áreas da empresa, com qualidade. Essa linha de trabalho, hoje adotada pelas melhores empresas da área de recursos humanos, também valoriza a inteligência emocional e reitera a conclusão de que as pessoas só fazem bem feito aquilo que gosta de fazer.

Vivemos um paradoxo: em meio à falta de milhões de empregos, nunca foi tão alta e premente a demanda por pessoal qualificado. O emprego de carteira assinada diminui e crescem oportunidades de ganhar dinheiro em novas atividades, desde arrumar armários por R$30 a R$50 por dia ou usar o curso de educação ëfísica para se transformar em personal trainer, ou estudar moda e ser um consultor de estilo.

Nunca foi tão grande a procura por cabeças privilegiadas nas escolas superiores de prestígio. Empresas e headhunters pesquisam os melhores alunos e analisam teses de mestrado e doutorado para "caçar" talentos que lhes possam ser úteis. Ainda que alterando o rumo da vida profissional desses alunos. Ou seja, retreinando um físico para atuar na área de marketing pela Internet, ou um matemático para análise de banco de dados.

Novas Profissões & Profissões do Futuro

 Profissões em alta

  • Atividades ligadas à informática - a criação de três milhões de sites a cada 24 horas provoca falta de pessoal especializado em planejar, criar, desenhar e executar páginas eficientes e velozes. A expectativa é de que plos próximos 3 anos, a demanda por profissionais dessa área e correlatas se intensifique. Nesse período deve consolidar-se também o E-commerce. setor que implicará na valorização dos profissionais voltados à segurança nas operações em rede, operadores de negócios e publicitários especializados;
  • Site aquisitor - encarregados com negociações com empresas, condomínios e organizações para montagem de antenas de telefonia celular;
  • Help desk - é especialista em assintência aos usuários de rede de computador ;
  • Turismo, hotelaria e culinária - a internacionalização crescente promove o crescimento do "turismo de negócios";
  • Pacificadores, conciliadores de conflitos e árbitros - Cresce no mundo o interesse pelos estudos sobre a paz. Organismos internacionais e organizações não governamentais estão demandando pela contratação de peacekeppers , ou pacificadores, uma profissão que exige profundos e extensos conhecimentos;
  • Design
  • Operador de Máquinas polivalentes ou CDC/CNC - um único profissional (pode ser um engenheiro), substitui torneiros mecânicos, fresadores, retificadores ou mandriladores;
  • Tradução técnica;
  • Arquitetura de ambiente;
  • Peão e rodeio;
  • Administração contábil;
  • Segurança do trabalho;
  • Administração de viagens;
  • Administrador de novos produtos;
  • Gestão ambiental;
  • Moda;
  • Direito tributário e internacional;
  • Finanças;
  • Geriatria;
  • Administrador.

Profissões em baixa (em extinção ou perda de importância)

  • Metalúrgicos e operadores de máquinas;
  • Inspetor de qualidade;
  • Tecelão;
  • Tecelão;
  • Gráficos;
  • Taquigrafia e estenografia;
  • Datilógrafo, digitador e operador de microcomputador;
  • Telefonista;
  • Secretárias, apoio administrativo e limpeza;
  • Bancário;
  • Intermediários (vendedores, corretores, despachantes, carteiros...);
  • Alfaiates, costureiras, chapeleiros, sapateiros...;
  • Cobradores de ônibus;
  • Mecânicos, funileiros, eletrotécnicos...;
  • Especialidades (dentistas, engenheiros, desenhistas técnicos)

O Mercado de Trabalho no Brasil

Não de pode falar em mercado de trabalho sem antes analisarmos o aspecto econômico, uma vez que o desenvolvimento propicia ao mercado uma maior oferta de trabalho, e oferece ao trabalhador melhores condições de tornar-se apto a estar inserido nesse contexto, satisfazendo as exigências quanto ao preparo e treinamento.

Segundo Roberto Macedo, em seu livro "Seu diploma, sua prancha", os economistas costumam distinguir a macroeconomia da microeconomia, duas formas de ver a realidade econômica. A primeira vê a economia de um país, como o Brasil, como um todo. À macroeconomia não interessam as quantidades, preços e outras variáveis regionais, setoriais ou dentro desses setores. Tampouco observa as variáveis individuais, de consumidores ou de empresas. Tudo é agregado. Assim, agregando-se todos os produtos e serviços gerados pela economia, temos o PIB ou Produto Interno Bruto, que hoje alcança a cifra de R$650 bilhões. Os preços individuais são também agregados, nesse caso sob a forma de índices, e um dos mais conhecidos é o IGP ñ Índice Geral de Preços, que mede a variação do conjunto de preços da economia, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro.

O governo pode estimular o crescimento do produto ampliando seus gastos, ou pode esfriar a economia, aumentando a tributação. A economia pode crescer através de incentivos ao setor privado, criando um clima favorável ao desenvolvimento da atividade econômica.

"Atuando de várias formas, ou seja, com seus gastos e impostos, com sua política de estímulos ao setor privado, por meio de suas próprias empresas, ou mediante prestação de serviços típicos de sua esfera de ação, por muitos anos o governo deu uma contribuição bastante positiva à economia. O PIB do Brasil chegou a crescer em média 7% ao ano, por longos períodos, em alguns deles ultrapassando até essas taxas. Para não ir muito longe na história, podemos mencionar o s períodos cobertos pelo governo Kubitschek (1956 - 1790) e pelos primeiros governos (1968 - 1973) do ciclo militar." Macedo (1998:149)

Esses períodos propiciaram um quadro extremamente favorável ao mercado de trabalho, dando ocupação aos recém-formados, melhores oportunidades aos nele já se encontravam, e até mesmo a mão-de-obra não qualificada. Em situações como essas, o investimento, a produção, o salário e outros rendimentos crescem mais rápido que a população, crescendo também o PIB e o PIB per capita.

Até bem pouco tempo, o governo atuou como empresário produtor de bens e serviços, e não apenas serviços públicos, como eletricidade e telecomunicações, mas estendendo-se a outras atividades, como aço, petróleo e mineração. Ao longo do tempo, essas empresas vieram a se mostrar ineficazes, fruto da ingerência política, do corporativismo, nepotismo, interesses políticos de seus funcionários, etc. Deu-se início então o processo de desestatização de parte dessas empresas, que saíram das mãos do Estado e passaram para o setor privado.

Sob os efeitos da globalização, o Brasil se viu obrigado a importar os novos paradigmas, que associados a políticas internas criaram um quadro de apreensão, face ao desemprego gerado. Uma política econômica mais preocupada em resolver seus problemas com credores externos, do que com uma política de desenvolvimento para o país, a falta de investimentos tanto do setor público, quanto privado, as privatizações, a estagnação da economia, tudo isso provocou e está provocando alterações profundas no mercado de trabalho brasileiro.

A despeito da baixa inflação, continuamos tendo problemas econômicos e temos que levar em conta que o governo não consegue atender a contento as áreas de sua competência, quais sejam, a saúde, educação e segurança.

Analisando mais detidamente o aspecto da educação, vemos aí outro fator de preocupação dos governos e empresas, com relação aos empregos. Os novos paradigmas exigem trabalhadores mais preparados, qualificados profissionalmente.

A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, promoveu há dois anos, o seminário "Brasil 2020 - Visões Estratégicas para um Cenário Desejável". Concluiu que o país precisa gerar 30 milhões de empregos nos próximos 20 anos e para atingir esse objetivo e diminuir a concentração de renda, será necessária melhoria significativa no ensino profissionalizante e universitário e revisão da estratégia de ocupação territorial que integre melhor o país.

A geração de empregos é um dos grandes desafios e só será vencido aumentando o "capital humano" , ou seja, o acesso ao conhecimento. A autonomia atribuída às universidades pela Constituição de 1988, complementada pela Lei das Diretrizes e Bases, de 1996, são positivas no sentido de dar às instituições de ensino superior competência para criar e extinguir cursos e remanejar o número de vagas. A flexibilidade legal e normativa favorece uma resposta mais rápida, ao atendimento da demanda de massa por ensino superior.

As universidades, com mais agilidade por parte das particulares, podem, assim fechar cursos menos procurados, abrir outros com maior capacidade de atrair clientela, alterar o número de vagas oferecidas, de acordo com as oscilações das matrículas e da evasão.

Nosso país não escapou à tendência observada nos países mais desenvolvidos. Teve nas décadas de 60 e 70 um rápido crescimento do emprego no setor formal, impulsionado pelo industrialização, começa a sofrer um processo de reversão a partir dos anos 80 e principalmente na década de 90, gerando uma expansão nos chamados mercados informais.

Nos últimos 10 anos, o número de pessoas sem emprego triplicou. Há menos trabalhadores com carteira do que em 1980. Dos novos postos de trabalho criados na década de 90, 80% são de trabalhadores não assalariados. E os 20% restantes, apesar de trabalharem em troca de salário, o fazem sem registro.

"O desemprego requer políticas claras e objetivas, condicionadas à velocidade das mudanças, ao contrário da postura oficial que vinha sendo seguida e que se limitava à separação entre emprego formal e informal. Agora, se impõe a intervenção racional e segura da geração e qualificação para novos postos de trabalho. Mesmo sem relações trabalhistas formais, muitos sobrevivem, geram renda e até outros empregos, trabalham. Não adianta governo e instituições apelarem para a consciência dos empresários, eles próprios com seus negócios ameaçados pela concorrência. Não basta a redução de jornada ou contratação temporária. Nem os empresários simplificarem apontando só a redução de impostos e dos direitos trabalhistas. O desemprego marca dramaticamente os anos 90 e não há expectativa de reversão. Fora de áreas com altos índices de violência, é a principal causa de preocupações da sociedade" RBA (2000:60)

Nota-se portanto, um aumento do desemprego no Brasil, gerado em parte pelos efeitos da globalização, mas também pelo desaquecimento da economia, e do trabalhador brasileiro que não se encontra preparado tecnicamente, fruto da política econômica do governo.

O Indivíduo Diante dos Novos Paradigmas

Como podemos observar, o trabalho tal como conhecíamos, tende a desaparecer e urge que os indivíduos se adaptem aos novos parâmetros. Principalmente para as pessoas que se encontram no mercado de trabalho há mais tempo, acostumados aos velhos paradigmas , essa adaptação é mais dolorosa, mas não impossível. O mais importante é não entrar em desespero e entender que o trabalho não desapareceu, apenas mudou de faceta.

Minarelli, em seu livro "Empregabilidae", fala da nova postura exigida do trabalhador, para inserir-se no mercado. Como já foi analisado, o emprego formal, para a vida toda, representando segurança para o resto da vida, está dando lugar aos contratos, serviço terceirizado e ao trabalho temporário.

As empresas continuam a necessitar de serviços, o trabalho existe. O que está deixando de existir é o vínculo empregatício, que estabelecia uma relação mais duradoura entre o empregador e o empregado, para uma relação temporária, onde satisfeitas as necessidades da empresa, encerra-se a relação. Dentro dessa perspectiva, pode-se estar prestando serviços a mais de uma empresa ao mesmo tempo.

Dentro desse espírito, aumenta, no mundo inteiro, o número de profissionais que, ao se desvincular de uma grande organização, criam autonomia e partem para uma carreira solo. A maior parte do trabalho na Europa, Estados Unidos e no Japão, que representam dois terços ou mais da mão-de-obra de todos os países, concentra-se no setor de serviços. E a maioria das pessoas que atua na área de serviços o faz de maneira autônoma ou terceirizada. O Brasil também segue essa tendência.

As empresa também buscam aumentar a autonomia de seus profissionais, envolvendo as pessoas em equipes de trabalho comprometidas com etapas ou conjuntos de tarefas que tenham finalidades, que façam sentido. É uma direção contrária a fragmentação do trabalho, em que a pessoa faz uma determinada parte e não tem noção do todo.

É uma forma de levar os trabalhadores de qualquer nível, dos operários aos executivos, a enxergar um sentido no seu trabalho, o que aumenta a motivação. Tantas mudanças transformaram definitivamente o conceito de segurança profissional neste final de século. Ser um empregado fiel e dedicado não garante o emprego. Agora, a segurança é conseqüência da atratividade do prestador de serviços aos olhos dos empregadores, de acordo com as suas necessidades momentâneas.

Paralelamente, se as empresas mudaram sua forma de gestão, se o processo produtivo já não obedece a antigos parâmetros, obviamente o perfil do trabalhador com capacidade de inserir-se nesse contexto também mudou.

O melhor, portanto, a fazer é parar de pensar como empregado, mas sim como alguém que presta serviços e pode ser solicitado para cumprir determinada tarefa.

Investigar suas aptidões e interesses, avaliar as possibilidades de crescer em seu ramo de atividade ou empresa, aprender a aplicar seu conhecimento, administrar melhor seu tempo, cultivar o hábito de ler, aprender a usar computadores, dominar pelo menos um idioma estrangeiro, tomar a iniciativa e buscar treinamento( não esperar isso da empresa), preservar sua idoneidade , cuidar de sua saúde física e mental, poupar dinheiro para as contingências, investir em atualização profissional, cultivar bons relacionamentos, são algumas das providências a serem tomadas, no sentido de preparar-se para tornar empregáveis as suas habilidades.

Bibliografia

MACEDO, Roberto. Seu diploma, sua prancha. São Paulo: Saraiva, 1998.

MINARELLI, José Augusto. Empregabilidade ñ O Caminho das Pedras. São Paulo: Gente,1995.

REVISTA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO. São Paulo: Julho/2000.

REVISTA UNICLAR. São Paulo: Outubro/1999.