Reengenharia na Empresa Pública

Cristina Aparecida Novato
Edilene da Cruz Ferreira
Leandro Alves Fernandes
Tarsila Teodoro Filadelpho

 

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


1. Introdução

A denominação reengenharia empresarial surgiu a partir de uma observação, de Michael Hammer & James Champy, de como algumas empresas haviam melhorado substancialmente o seu desempenho, em diversas áreas de atividade, mudando assim a sua forma de pensamento.

Hammer & Champy nesta mesma época estavam empenhados em ajudar alguns de seus clientes, então procuraram fazer um exame mais profundo do por quê destas empresas estarem se posicionando tão bem no mercado, efetuando mudanças radicais, ao invés de realizar apenas melhorias.

A real questão era: Quais os pontos em comum?

Foi então que descobriram que estas empresas repensavam no por quê faziam o trabalho desta ou daquela maneira, formando assim, um conjunto de instrumentos e táticas. E ao compará-las com outras empresas, viram que muitas delas não sabiam o porquê do que estavam fazendo e o pior, não sabiam se aquilo agregava algum valor para o cliente.

Com o artigo: "Reengineering Work: Don't Automate, Oblirate", publicado pela Harvard Business Review, em julho/agosto de 1990, Hammer & Champy declaram que é necessário a aplicação desta gestão com a finalidade de tornar a empresa apta as novas exigências. Posteriormente foi traduzido para o português como: "Reengenharia Revolucionando a Empresa em função dos clientes, da concorrência e das grandes mudanças da gerência", publicado pela editora Campus, Rio de Janeiro. Sendo considerado um absoluto best-seller.

2. Definição

Reengenharia empresarial é um conjunto de técnicas associadas, os quais os atuais executivos terão de se utilizar, reinventando as suas empresas para se tornarem mais competitivas no mercado atual.

De uma forma mais simples, reengenharia é "começar de novo". É olhar para os processos de sua empresa, examinando as regras, tarefas e os procedimentos, visando eliminar o trabalho desnecessário, levando a satisfação ao cliente, reduzindo o tempo do ciclo de trabalho, obtendo assim a qualidade total &endash; tendo assim, a característica fundamental.

Quando uma empresa aplica a reengenharia, ela tem por objetivo a obtenção de melhorias essenciais nas áreas de custo, na qualidade do atendimento, na velocidade e até mesmo na sua estrutura.

Uma outra característica da reengenharia é a de ser drástica, porque diz respeito a saltos quânticos de desempenho. Também é radical, porque desconsidera tudo o que você sabe sobre estruturas e procedimentos, apesar de não se posicionar como "a única verdade". Mas ela ignora o que existe e se encontra no que deveria existir.

3. Quem deve aplicar a reengenharia?

Todas as empresas que se encaixam em um destes três estados:

1. As que estão em grandes apuros. &endash; se chocaram contra o muro e estão quebradas. Ex.: tem altos custos; baixa satisfação dos clientes, etc.

2. As que não estão em dificuldades, mas cuja gerência prevê problemas futuros. &endash; estão em alta velocidade, mas as luzes dos faróis iluminam algo à frente. Será o muro???. Ex.: tem novos concorrentes; há mudança na economia, bem como das necessidades dos clientes; e

3. São as empresas líderes de mercado, que por sua vez querem se manter no ranking, aumentando o padrão de exigências, eliminando assim, as suas concorrentes. &endash; estas saíram para um passeio de carro, numa tarde belíssima, mas que dia maravilhoso para se parar e construir um muro para os outros se chocarem.

As empresas públicas se encaixam no primeiro estado; tendo ainda extrema burocracia; técnicos desmotivados; política de qualidade não atuante; falta de informação/conhecimento da cultura empresarial por parte dos integrantes do quadro de funcionário, processos e procedimentos lentos, etc. Ou seja, apresentam todas características básicas que exigem a implementação da reengenharia.

4. Quem realiza a reengenharia?

São as seguintes pessoas que realmente aplicam a reengenharia:

  • Líder: é uma pessoa bastante influente, persuasiva, auto-indicada; que se veja entusiasmada com a possibilidade de reinventar a empresa.
  • Proprietário do processo: é um gerente dotado de prestígio, credibilidade e influência &endash; responsável por um processo específico.
  • Equipe de reengenharia: são pessoas que realmente produzem idéias e planos, que muitas vezes tornam-se realidade.
  • Comitê geral: é um grupo de altos gerentes que planejam a estratégia da reengenharia organizacional.
  • Czar da reengenharia: seria um consultor, que desenvolve as técnicas e os instrumentos de reengenharia, visando alcançar a boa unidade da equipe.

5. Processo

É o conjunto de ações que produzem uma saída de valor, serviço ou produto, para o cliente.

5.1. Compreendendo os processos

A equipe de reengenharia precisa conhecer algumas coisas sobre o processo existente: o que faz, qual é e que questões críticas governam o seu desempenho, antes mesmo de passar para a etapa da redefinição do processo. Dado que o objetivo da equipe não é o de melhorar o processo existente, ela não precisa analisar e documentá-lo em todos os detalhes, sendo este um dos erros mais freqüentes na implantação. Pelo contrário, os membros da equipe precisam de uma visão de alto nível que os dote de intuição e do discernimento necessários para criarem um projeto totalmente novo e superior.

Neste momento a equipe procurará entender o que o seu cliente faz com aquela saída, observando-o pelas suas atividades.

O próximo passo é entender o "quê" e o "porquê", pois, na fase de redefinição, é mais importante para a equipe o que o processo novo terá de fazer.

5.2. Orientando um processo

Uma característica marcante da reengenharia é a ambição, que busca mudanças revolucionárias, contestando regras, rompendo tradições sobre especialização, seqüência e tempo certo, coisas atualmente já abandonadas.

Uma poderosa ferramenta que detém a possibilidade de romper antigas regras e criar novos modelos para os processos é atual tecnologia de informação, que age como um capacitador, permitindo às empresas realizar suas atividades de forma radicalmente diferente.

Ne empresa pública muitos dos funcionários não tem noção do valor do seu trabalho para o cliente, nesta fase seria interessante mostrar-lhes o seu valor e estimulá-los a ir de encontro com os interesses, agora, aplicados, como também fazê-los ir de encontro com a atual tecnologia.

6. Características típicas dos processos submetidos à reengenharia

A maioria das empresas apresentam: ausência de uma linha de montagem; serviços ou tarefas anteriormente distintos integrados em um, produzindo maiores benefícios aos trabalhadores e às equipes.

Ao eliminar as passagens de tarefas acaba-se com os erros, atrasos e reparos gerados pelas mesmas. Além de redução de despesas gerais de administração.

As empresas privadas geralmente encorajam os empregados com poderes delegados a encontrar soluções de forma criativa e inovadora, deixando com que os trabalhadores tomem as decisões.

As etapas do processo são realizadas em uma ordem natural fazendo com que vários serviços possam ser simultaneamente realizados;

Devido a grande necessidade de se atender às novas demandas do atual mercado, os processos têm múltiplas versões, terminando com a padronização.

Houve também a transposição das fronteiras organizacionais; a redução de verificação e controles, bem como as vantagens obtidas dos sistemas de comunicação Centralizado e Descentralizado.

Acreditamos que se a reengenharia fosse aplicada na empresa pública faria com que as unidades de trabalho mudassem de departamentos funcionais para equipes de processos; os serviços de, apenas, tarefas para trabalhos diversificados; os funcionários seriam autorizados, tornando-se assim, responsáveis efetivamente pelo seu trabalho; não haveria uma necessidade tão grande de se envolvê-los em treinamentos, sendo que a idéia de se melhorar e de melhorar a sua empresa viria da educação, da cultura empresarial.

As pessoas se tornariam mais motivadas e valorizadas se as medidas de desempenho e de remuneração se alterassem de atividade para os resultados; e estes valores de protetores para produtivos;

Com uma diminuição dos níveis gerenciais os gerentes se tornariam líderes, instrutores, coordenadores das atividades, evitando assim, a tão conhecida barreira hierárquica.

Suponho desta forma, que o enfoque deva estar voltado para os seres que integram a sua empresa, motivando-os, ensinando-os, induzindo-os ao comprometimento empresarial, o que atualmente não acontece, seria necessário que os administradores não estivessem só voltados para o "fazer", desta forma a implantação da reengenharia se tornaria uma grande realidade.

7. Causas das falhas na implantação

Apontamos abaixo algumas falhas na implantação da reengenharia baseados em Hammer & Champy (1994):

A maioria dos executivos responsáveis pela implantação da reengenharia muitas vezes tenta consertar o processo ao invés de mudá-lo; negligenciam valores e crenças, que seriam até proveitosos, dos funcionários; contentam-se com pequenos resultados e até mesmo param o processo antes de se ter uma melhora efetiva.

De primeira, colocam restrições à definição do problema e ao alcance dos esforços da reengenharia; permitem que atual cultura empresarial e suas atitudes impeçam o início da reengenharia; tentam empreender a reengenharia de baixo para cima, e de dentro para dentro, sem levar em conta o macro-ambiente o qual estão inseridos.

Designam como líderes pessoas que não entendem nada de reengenharia, e muito menos que se sintam motivadas, já que esta aplicação representa para muitos um grande inimigo. Limitam os recursos destinados à reengenharia.

Negam posição de destaque na agenda da empresa; dissipando a energia de muitos projetos; tentam aplicar a reengenharia faltando pouco tempo para a troca de presidentes; não conseguem estabelecer a diferença entre reengenharia, e por exemplo, qualidade total.

Param diante da resistência, que sempre ocorre, por parte das pessoas em face de tantas mudanças efetuadas, em processo, e programadas.

Um outra falha que pode ocorrer também é devido a falta de comunicação e de coleta de dados entre os grupos envolvidos, podendo fazer com que se redesenhe de forma incerta, e até errada, o processo.

A falta de visão clara do projeto, da organização e do planejamento; a baixa participação dos funcionários dos mais diversos níveis e uma grande dificuldade para infundir a cultura da reengenharia são pontos chaves para que a sua tentativa de implantação corra rio abaixo.

Uma das caraterísticas encontradas na empresa pública, é a falta de comprometimento dos altos executivos, os quais não se demonstram preocupados com a implantação dos novos processos e sim com o resultado, resultado este que não pode ser mensurado com absoluta certeza, a questão é: Implantou ou não implantou? Acreditamos que mudança desta postura faria com que um maior número de funcionários se sentissem atraídos pela reengenharia, ao invés de se sentirem ameaçados, o comprometimento e a dedicação poderia alcançar nivéis superiores de sucesso.

8. Setor público

Para uma maior complementação do nosso trabalho nos apoiamos em um estudo de caso brasileiro, chamado "Is Re-engineering possible in the public sector? A brazilian case study", capturado na Internet, em 25/06/00, desenvolvido por Kock Jr & McQueen. Segundo os autores, a empresa pública apresenta uma significativa melhora na sua tecnologia de informação devido à aplicação anterior do "dowsizing" e da necessidade de implantação da reengenharia.

O que se torna um grande desafio para a reengenharia é como medir o seu desempenho já que não dispomos do lucro como indicador.

Também afirmam que, uma das explicações para generalizar a falta de rentabilidade no setor público são os inúmeros privilégios que os empregados desfrutam. Estes privilégios incluem segurança contra demissões [Garantia de estabilidade &endash; conforme Legislação do Estado de São Paulo, Cap. III] e redução de salários nas áreas inrentáveis, e uma grande quantia de empregados continuam recebendo seus altos salários depois de aposentados.

A idéia é a de que os privilégios e até mesmo o emprego na área pública tende a tornar as organizações em bens políticos que são usadas em negociações entre o governo e suas partes e a oposição.

Acreditamos que este é um motivo bastante forte para as empresas públicas não terem se emancipado ainda. Se isto, realmente ocorresse, de que forma os governantes poderiam exercer sua influências sob elas? O que acontece são nomeações interessadas, alguém indica alguém, são raríssimos os executivos que assumem a direção de uma empresa, pública, com um gabarito alto de uma administração competente, interessada, e comprometida no seu currículo, a esmagadora maioria assume este papel, mais como políticos do que como administradores.

Uma outra dificuldade é derrubar as barreiras departamentais; como fazê-la se os executivos não se interessam tanto por isto.

"Outra razão pela qual o governo é um dos grandes retardatários na reengenharia, politicagem à parte, são os fatos de que ele visa a excelência operacional e a maioria dos órgãos governamentais tem pouquíssimas experiências com operações. (...)" (Hammer & Champy, 1994: 184-185)

Além de tudo o que já foi dito, podemos considerar que a empresas públicas apresentam efeitos como baixa responsabilidade para pedidos dos clientes; centralização de informações/serviços; falta de eficiência e de "feedback" por parte da empresa, que conseqüentemente gera uma baixa moral.

Foram apontadas também por Kock Jr. & McQueen, que uma das principais causas de queda de uma empresa pública é a falta de flexibilidade e de competitividade crescente, sem levar em consideração os possíveis ataques de partes políticas bem como de outras companhias privadas.

Enfatizamos, que a resistência à mudança é um fator comum durante o processo de implantação de qualquer gestão empresarial, mas consideramos que pode haver uma grande possibilidade de haver demissões frente a estas mudanças.

Poderíamos considerar que a tentativa da reengenharia nas empresas públicas já seriam bem sucedidas se atingissem o seu alvo, efetuando assim trocas radicais, e os esforços de implementações fossem incentivados operando amplas melhoras na qualidade e produtividade da organização, além da modernização, com acesso a informação e as novas tecnologias, efeitos longe de acontecer se apenas focado a melhora localizada.

A reengenharia tende a aumentar a produtividade, podendo até orientar a política organizacional, mas encontra uma significante barreira no "staff" da empresa e suas limitações nas mais diversas normas e leis governamentias que as regem.

9. Conclusão

Concluímos assim, que a reengenharia promove melhorias significativas e que durante os últimos seis anos, o conceito de reengenharia empresarial ou de processos correu o mundo.

Algumas das melhorias vistas foram: melhor performance; otimização de custos; melhoria da qualidade e redução de ciclos do trabalho.

Para um maior êxito na aplicação da reengenharia sugerimos que a mesma seja encarada como uma ferramenta de vantagem competitiva, sendo portanto, inclusa na estratégia empresarial da empresa; as melhores pessoas a serem envolvidas são aquelas que possuem uma compreensão dos vínculos, direções e fronteiras, ou seja, uma visão mais globalizada, assessoradas por aquela que estão diretamente ligadas às necessidades dos clientes.

Solicitamos que antes da aplicação da reengenharia que os executivos identifiquem a necessidade dos clientes e os objetivos do processo; é necessário mapear e medir o processo atual, formando um diagnóstico; para posteriormente analisar e modificar o processo existente; faça comparações com as melhores organizações (Benchmarking), e finalmente implemente a reengenharia.

Mas, que ainda, não é possível implementar a reengenharia na empresa pública, com o mesmo êxito de uma empresa privada, devido a imaturidade da concepção empresarial brasileira; pela cegueira dupla por parte dos altos executivos, que acabam por perder a noção do todo em relação ao macro-ambiente o qual a empresa está inserida.

Pela alta complexidade do sistema burocrático, amparado pelos efeitos da política ambiental, e pela dificuldade e se aplicar o "downsizing" para diminuir os gigantescos níveis hierárquicos, e o excesso de funcionários públicos, ora amparados por estatutos que impedem demissões, ora pelo próprio paternalismo. Sem levar em consideração a impossibilidade de inovar tão rapidamente a tecnologia de informação da empresa.

Acreditamos que a empresa pública tem um grande potencial para se tornar competitiva com a aplicação da reengenharia, mas no momento seria necessário fazer a reengenharia nas legislações/estatutos da empresa, e ir mais além, seria necessário "reengenhariar" a cultura empresarial brasileira, ou utilizar-se de um método, atual e prático: a privatização.

10. Bibliografia

HAMMER, Michael & CHAMPY, James. Reengenharia: Revolucionando a empresa em função dos clientes, da concorrência e das grandes mudanças de gerência; tradução de Ivo Korytowki. 29 ed. Rio de Janeiro: Campus, 1994.

Is Re-engineering possible in the public sector? A brazilian case study. Capturado em 25 jun 2000. On-line. Internet. <http://www.cis.temple.edu/~kock/public/bc&r96/brpub4.htm> tradução de Tarsila Teodoro Filadelpho.

PARRA FILHO, Domingos & SANTOS, João Almeida. Monografia e apresentação de trabalhos científicos. 2 ed. São Paulo: Terra, 1997.