Qualidade em Serviços

Cristina Zakalski S. Valério

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


Introdução

Qualidade em Serviços - Até 1980, qualidade dizia respeito a produto físico. Serviço era um sub-produto de auxiliava o cliente ("Coisa extra" relacionada ao produto). Nas últimas décadas, o mundo tem se movido em direção à uma sociedade de serviços, com crescimento muito grande de alguns tipos de empresas, como Bancos, Seguradoras, Agências de Viagens, Oficinas e muitas outras, deixando assim o serviço de ser um sub-produto, passando a ser um produto. Dentro de uma empresa, a qualidade do serviço é definida como o grau até o qual um serviço satisfaz os requisitos descritos em suas especificações. Do ponto de vista do cliente, é definida como o grau até o qual um serviço satisfaz as exigências, os desejos e as expectativas do seu recebedor.

A origem da maioria das técnicas e metodologias utilizadas na Qualidade se deu no ambiente manufatureiro, na produção de bens. Com a evolução da humanidade, entretanto, os serviços passaram a constituir um importante diferencial, já que o desempenho dos produtos concorrentes se torna cada vez mais similar.

Além de constituírem diferencial, os serviços estão sujeitos às mesmas forças que definem um panorama competitivo. A rivalidade entre as empresas existentes (para citar uma das forças propostas por Porter) se manifesta com freqüência e incorpora ainda os aspectos da globalização de informações e mercados. Os serviços, sem estarem fisicamente no Brasil, podem e estão concorrendo com empresas nacionais, como por exemplo, a venda de pacotes turísticos.

Uma vez detectada a importância dos serviços, algumas técnicas e metodologias aplicadas com êxito na indústria de bens materiais se mostraram difíceis ou inadequadas quando transpostas aos serviços, e grande parte desta dificuldade reside no entendimento incompleto das características específicas da prestação de serviços.

Embora a maioria de nós possa ter uma boa idéia quanto ao significado de indústria de serviços, defini-la torna-se um pouco mais difícil. Alguns autores sustentam que o atendimento às necessidades dos clientes através de bens ou serviços diferem apenas na ênfase que é dada a alguns aspectos deste atendimento. Porém, existem autores, como James Teboul, que colocam que, em qualquer atividade destinada à satisfação das necessidades dos clientes, existem duas áreas distintas: a área de suporte e a área de interface. O primeiro tipo seriam as áreas que sustentam a interface e são responsáveis por atividades tais como: confecção de documentos, análises, tratamento de dossiês, etc. A interface, por sua vez, caracteriza-se por ser "o local de interação entre o usuário ou cliente e um sistema de produção."

Particularidades da área de Serviços: Deve-se reconhecer que, independente do grau de similaridade entre empresas de serviços e empresas de manufatura, as empresas de serviços compartilham certas características que nem sempre são típicas do mundo da manufatura. Desta forma, embora não seja eficaz, do ponto de vista do Gerenciamento para a Qualidade, classificar empresas isoladamente como prestadoras de serviços ou fornecedores de bens, é indiscutível que as diferenças existentes entre a produção de bens e a provisão de serviços exigem uma postura administrativa diferente (ainda que dentro de uma mesma empresa). Explorando estas diferenças, e paralelamente, discutindo os modos de atuação, é que se estabelece metas para a obtenção da Qualidade.

As diferença mais patente entre produtos (resultados de atividades ou processos), é que estes podem ser tangíveis ou intangíveis. Alguns efeitos práticos decorrem deste fato. Não se pode ajustar estoques para épocas de maior consumo, como no caso de bens manufaturados. Por outro lado, o serviço, na sua versão final, é "produzido" no mesmo instante em que é fornecido ao cliente. Neste aspecto, o treinamento do pessoal da "linha de frente" é essencial, pois, num curto espaço de tempo, o serviço é produzido e consumido, daí resultará a percepção do cliente.

Processo Produtivo - Com freqüência, o cliente de serviços desempenha um papel fundamental no processo. Primeiro, geralmente o cliente deflagra o início do processo, ou seja, um serviço não é providenciado sem que haja alguém que o solicite. Segundo, com muito maior freqüência que para a produção de bens materiais, os clientes interagem durante a execução dos serviços, estabelecendo parâmetros que devem ser cumpridos durante o processo de atendimento. Uma das tendências mais marcantes neste fim de século tem sido os esforços em prestar serviços cada vez mais individualizados que, fugindo a um padrão único, busquem satisfazer às necessidades particulares dos clientes. Trata-se da chamada customização, que só se torna possível com a maciça participação dos clientes.

Neste sentido, tornar o cliente suficientemente informado para especificar o atendimento é uma forma de educá-lo e deve ser uma preocupação constante do fornecedor. Quanto mais complexo o serviço, mais importante esta relação.

No caso de produtos, o processo produtivo é, normalmente, desvinculado do cliente. Não se deve confundir "processo produtivo" com "produto"; este, é claro, deverá estar totalmente vinculado às necessidades dos clientes.

Padronização - A participação do cliente no processo leva, entretanto, a um potencial de variabilidade enorme. Nos serviços hospitalares, por exemplo, existem muitas variáveis, tornando os resultados difíceis de medir e controlar, difícil a aplicação de ferramentas convencionais de padronização e controle. O verdadeiro teste da Qualidade do Serviço não é tanto com os processos de rotina, mas com a capacidade dos empregados de tratar as exceções à regra. Em outras palavras, é a capacidade dos empregados de processar os desvios.

À exceção de serviços totalmente automatizados, os serviços possuem um componente de interação entre pessoas, que por natureza, são mais imprevisíveis que máquinas. Isto implica, reconhecendo a natureza humana, investir no pessoal da linha de frente, para reforçar as características positivas do tipo: apresentação pessoal, cortesia, comunicação, etc.

Por outro lado, as falhas podem ser percebidas pelos clientes como "algo pessoal", coisa que, para os produtos, é atribuível freqüentemente à "defeito de fábrica".

Fator Humano - Estudos mostram que o fator humano tem um efeito crucial sobre a percepção , por parte do recebedor, da qualidade do serviço. A qualidade subjetiva (exprime o conteúdo emocional do serviço, como por exemplo, comprometimento, atitude, amabilidade, flexibilidade) é, com freqüência, mais importante que a qualidade objetiva (exprime o conteúdo tangível do serviço, como por exemplo cardápio, horário de viagens, conforto das poltronas, taxas de juros, horas de funcionamento).

Introdução de Programas de Qualidade em uma Organização - Deve ser projetado conjuntamente pelos responsáveis pelas decisões na empresa e por especialistas em qualidade. O conteúdo, a abordagem e a extensão do programa depende de vários fatores: necessidades e desejos da empresa, tipo de indústria, imagem da empresa, sua situação financeira, o presente nível de qualidade da empresa, sua consciência de qualidade, a situação competitiva, a cultura da empresa, relações internas e externas, e assim por diante.

É freqüente o desapontamento dos empresários e também dos empregados com os programas de qualidade. Quase sempre, o fracasso é creditado à forma predatória como esses programas são adaptados à cultura brasileira, seja pela rapidez com que são implantados, seja pelo lado superficial dos pacotes de treinamento importados. Mesmo programas bem intencionados têm fracassado.

No entanto, a gerência superior é a grande responsável por esses descaminhos, posto que a ela deve ser creditado o poder de decidir sobre o que deve e não deve ser adotado pelas empresas. Uma decisão desta natureza não pode ser tomada sem um mínimo de visão, pois as conseqüências acabam por destruir setores e até mesmo organizações prematuramente, reforçando a idéia de que há um ciclo de vida nesse processo, isto é, como se empresas fossem seres vivos e sujeitas aos fenômenos da vida.

O ato de pensar e refletir antes que os fatos aconteçam deve ser incorporado às atitudes do gestor contemporâneo. A complexidade da função requer extremo preparo para enfrentar riscos e desafios.

Os pilares da Qualidade de Serviços - A forma da gestão ocidental tem como base as práticas gerenciais americanas, cuja técnica consiste na propagação do sucesso como recompensa pela incessante luta para se "chegar lá", o que possibilita o crescente surgimento de teorias, como resultados alcançados nessas espécies de pelejas dessem embasamento às novas ciências. Porém, hoje em dia, o Japão é associado a produtos de qualidade. Fabricar um produto nessas condições somente tornou-se possível a partir da observação de que a qualidade era derivada da relação cliente fornecedor. Durante a reconstrução do Japão pós guerra, os japoneses desenvolveram técnicas a serem aplicadas por seu povo. Eles comprovaram que o conceito de cliente não é diferente do conceito de consumidor final. Com isto, as pessoas passaram a entender melhor que todos têm clientes, pois todos servem algo a alguém. Este é o verdadeiro pilar da qualidade em serviços.

A vez dos Serviços - Com o esgotamento da fase indústria, e o saqueamento das reservas naturais, a busca pela nova fonte de riqueza deslocou-se do território concreto dos bens físicos para o cenário virtual do saber. A emergente sociedade do conhecimento prevista por P. Drucker como a moeda do saber profundo de Deming resultará num novo ser humano. A recente cultura de qualidade espalha-se pelo mundo empresarial, exigindo uma nova postura de seus profissionais e gestores.

As empresas começaram a se preocupar mais especificamente com a razão de seus negócios, deixando atividades secundárias ou paralelas, que não constituem a essência e a razão de ser da empresa, gerando custos e absorvendo tempo, de lado. Com isso, foi aberto o caminho para a terceirização de algumas atividades, ocasionado parcerias entre fornecedores, redução de custos e agregação de valores aos clientes.

O papel do ser humano no processo revela novidades. A indústria de serviços vem evoluindo nos últimos quinze anos, e é necessário que haja uma meta de qualidade a ser alcançada. Para isso, deve existir na organização: uma estratégia de serviços, pessoal de linha de frente orientado para o cliente e, principalmente, os sistemas voltados efetivamente para o cliente.

Os programas de qualidade dependem muito da ação das pessoas e dos sistemas em que são criados. A voz norteadora aponta o cliente, essa é a estratégia. Somente assim podemos viabilizar a qualidade de serviços. O cenário exige e quer qualidade. Gestores contemporâneos sabem. A busca do estado-da-arte em administração é dever de todos os administradores.

Quanto às pessoas, podemos recorrer às recomendações de Jan Carlzon, que implantou a "hora da verdade" ao soerguer a Scandinavian Airlines, mudando o rumo da gestão empresarial, no que diz respeito a aproximar-se do cliente:

  • toda pessoa precisa saber e sentir que é necessária;
  • todos gostam de ser tratados como indivíduos;
  • dar a alguém a liberdade para assumir responsabilidades libera recursos que de outra maneira permaneceriam ocultos;
  • um indivíduo sem informações não pode assumir responsabilidades; um indivíduo que recebeu informações não pode deixar de assumir responsabilidades.

Planejamento empresarial, a começar pela estratégia, não pode negligenciar esses ensinamentos. Embora não constituam uma base científica de dados, é notadamente tido como um novo estilo de gestão. O fenômeno ocorre quase simultaneamente às múltiplas qualidades exibidas pelos produtos e divisa um homem melhor a servir-se dos sistemas aos invés de servi-lo.

Bibliografia

CARLZON, Jan. A hora da verdade. Rio de Janeiro: Cop, 1993, p.157

DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. São Paulo: Pioneira, 1993, p.15

FREITAS, Jodrian S. Amoriam, Internet on line, capturado em 04/11/00 <http:www.senac.br/boletim/boltec14.htm>

MOLLER, Claus. O lado humano da qualidade. São Paulo: Pioneira, 1994, p.153-165

RODRIGUES, Flávio A . Internet on line, capturado em 04/11/00 <http:www.senac.br/boletim/boltec15.htm>

TEBOUL, James. Gerenciando a dinâmica da qualidade. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1991, p.197