Qualidade de Vida no Trabalho: Ênfase Hospitalar

Anderson Silva Massucato
Keila Pereira da Luz
Ranieri Russano
Rosemeire Vivaldo Nóia

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


Introdução

Completamente subjugado pelas máquinas, indefeso diante do ritmo e da variedade de funções de uma linha de produção, o operário clássico " tempos modernos", o filme de Charles Chaplin - uma sátira ao sistema de automação industrial nos Estados Unidos, acaba enlouquecendo.

A angústia de Chaplin serve para ilustrar o que ocorre quando a convivência diária entre o homem e a máquina não obedece aos princípios da Ergonomia, cujos objetivos básicos são a melhoria da qualidade de vida no trabalho e da produtividade do sistema de trabalho.

"Não se pode falar em qualidade de produtos e serviços se aqueles que vão produzi-los não tem qualidade de vida no trabalho", diz Eda Fernandes.

"Companhias gastam milhões de dólares por ano na manutenção preventiva de suas máquinas. Não vemos razão para não fazermos o mesmo com nossos funcionários" diz Peter Thigpen, Presidente da Levi Strauss USA.

O serviço hospitalar caracteriza-se por trabalho intensivo onde exige-se dos funcionários alta produtividade em tempo limitado, porém em condições inadequadas de trabalho, com problemas de ambiente, equipamentos e processos. Tais condições acabam levando à insatisfação, cansaços excessivos, queda de produtividade, problemas de saúde e acidentes de trabalho.

Fala-se do tédio de alienação, da falta de tempo, Dr. Boss, médico holandês coloca que conversando com pessoas sobre as suas vivências durante o trabalho ouve-se pouca coisa positiva. Muitos vivem num dilema: apenas "funcionam" no seu trabalho e começam a "viver" após o expediente. Pode -se dizer tranqüilamente que hoje em dia muitas pessoas adoecem por causa do trabalho. Em decorrência disto estão surgindo alguns indicadores bastante evidentes da deterioração da qualidade de vida tais como: aumento dos índices de acidentes, surgimento de novas doenças, alcoolismo, utilização crescente de drogas consumismo exagerado, perda de contato do homem como a natureza e até depredação da mesma.

É oportuno compreender melhor esse fenômeno social, tendo em vista que a existência de novas demandas do meio ambiente vem exigindo uma crescente eficácia das organizações. Por outro lado, a maior conscientização dos trabalhadores tem elevado a constantes reivindicações, no sentido de um trabalho mais humano e compensador.

O próprio empresário já reconhece que é necessário criar condições adequadas para que as pessoas possam desenvolver o seu potencial e a sua criatividade e evitar aquelas que possam gerar uma má qualidade de vida e stress no trabalho.

Dois sérios problemas relatados em serviços de saúde referem-se ao absenteísmo e o turnover, uma vez que estes têm custos reais na indústria de serviços hospitalares, pois afetam toda a produtividade.

Por absenteísmo entende-se a ausência não justificada ao trabalho, cuja medida é a relação entre o total de dias ausentes num período e o número de empregados neste período.

O turnover refere-se à perda de um empregado que tem que ser substituído (rotatividade de pessoal), e cuja medida significa a relação entre o número de substituições num determinado período e o número de empregado neste período.

Para corrigir esta situação, diversas companhias estão buscando filosofias administrativas cujo foco são as necessidades dos trabalhadores, uma vez que a capacidade do trabalhador é o mais importante fator de produtividade levando-se em conta que a capacidade humana é fortemente afetada pelas normas de produção projetos de produtos ou serviços, layout das instalações e projetos dos equipamentos.

Em relação aos recursos humanos, considera-se as características do trabalho como um significante fator predisponente para a satisfação do trabalho e ao mesmo tempo capaz de reduzir as taxas de absenteísmo e turnover, aumentar a produtividade, melhorar a moral, a motivação e desempenho dos trabalhadores, ajudar no recrutamento, na base do conhecimento e técnicas do trabalho.

A cultura organizacional tem sido recentemente estudada em relação à performance organizacional (produtividade, absenteísmo e turnover). Administradores de serviços hospitalares tem reconhecido a importância da cultura organizacional para reduzir absenteísmo e turnover pela combinação correta de sua cultura com necessidades motivacionais de seus empregados.

Com a avalanche de transformações que desabou sobre as empresas e sobre a cabeça dos seus funcionários: downsizing, reengenharia, globalização, ISO 9000 etc. Quem não perdeu emprego acumulou funções daqueles que foram demitidos. Nos EUA, 44 % das pessoas acham que estão com uma carga excessiva de trabalho. De acordo como esse estudo, o estresse e conseqüente perda de qualidade de vida no trabalho é provocado pela insegurança sobre o futuro no emprego, por jornadas de trabalho pesadas, pelo esforço para balancear a profissão, família e pelo chamado tecno-estresse, isto é, a tentativa de acompanhar as mudanças tecnológicas. Assim, a qualidade de vida no trabalho é a chave para que os funcionários passem pelas situações estressantes sem dar entrada no hospital.

Objetivos

  • Estudar os fatores de melhoria do trabalho e produtividade para serviços hospitalares.
  • Analisar os elementos característicos do sistema de trabalho hospitalar.
  • O que as empresas de outras industrias estão fazendo em prol da qualidade de vida dos seus funcionários.
  • Elaborar orientações para melhoria na qualidade de vida do trabalhador na área da Saúde.
  • E, principalmente, despertar a conscientização dos trabalhadores da área da Saúde no sentido de um trabalho mais humano e compensador.

Metodologia

Buscando-se alcançar os objetivos propostos nesse trabalho, a metodologia adotada consistiu em pesquisa de livros voltados para área de Qualidade Total no Serviço de Saúde.

Histórico

No início do século XVIII houve uma grande mudança nos processos industriais. A população mundial crescia aceleradamente, o mercado consumidor estimulava a produção em grande escala e induzia o aprimoramento tecnológico. A mão de obra tornava-se abundante: parte, devido ao crescimento populacional; parte, proveniente do meio rural.

A Inglaterra detinha a hegemonia tecnológica. Com as conquistas coloniais e o domínio dos mares, os ingleses tinham o indispensável para ativar suas indústrias: o mercado consumidor e o transporte.

As indústrias se modernizavam. Com o surgimento de inventos, como a máquina a vapor de James Watt, se fazia necessário uma mudança nos processos produtivos para dinamizar a manufatura.

O liberalismo clássico servia de base teórica e filosófica sobre a natureza e comportamento do homem e como orientação dos processos produtivos. O "acúmulo de capital" era a palavra de ordem entre os donos de fábricas e comerciantes.

Neste contexto, surgiram as primeiras preocupações com a racionalização da produção e com o comportamento do trabalhador diante de sua tarefa.

Segundo Carvalho Rodrigues citando Smith (1794) como um dos grandes incentivadores da racionalização da produção. A especialização das etapas da produção foi vista pelo autor como eficiente meio para a maior destreza do trabalhador e a minimização do tempo de produção.

O trabalhador vivia em condições desumanas. As jornadas de trabalho chegavam a 18 horas diárias. Com relação ao salário, reflete muito bem o pensamento da época. Dizia que o salário deve ser o preço necessário para que o trabalhador subsista e perpetue sua classe, sem aumento ou redução. O trabalhador tinha assim uma vida no trabalho, onde suas necessidades básicas não eram consideradas.

Segundo Carvalho Rodrigues, Owen foi provavelmente o primeiro dono de fábrica a "proporcionar condições decentes de trabalho, salários suportáveis e educação para os filhos de seus operários. A melhor qualidade de vida na fábrica foi então correlacionada de forma prática, com o melhor desempenho produtivo.

A eficiência da produção continuou sendo muito questionada no século XIX A divisão da tarefa, através da especialização, defendida por MILL (1965), que sugere ainda um salário proporcional à produção de cada trabalhador.

As preocupações como monotonia, causada pela especialização, foram expostas como um mal de primeira ordem na divisão do trabalho.

Mesmo sem afetar a prática dos processos produtivos, o trabalhador passou a ser motivo de preocupação e questionamento. A motivação econômica, a melhoria do ambiente de trabalho e a monotonia com a especialização, fatores que afetavam diretamente a vida do trabalhador no local de trabalho, passaram a ser teorizadas timidamente e, em alguma poucas empresas, considerados de forma prática.

Um exemplo ocorreu nos Estados Unidos no final do século XIX. A expansão das estradas de ferro no território americano constitui-se em um dos maiores empreendimentos da época, o coordenador (Henry Poor)deste empreendimento, tomou como diretriz para uma maior eficiência três fatores: a organização, a comunicação e a informação. A partir de seu "modelo", proporcionou a seus trabalhadores uma grande motivação e, poderíamos até afirmar, uma relativa satisfação no trabalho. A fácil comunicação entre os trabalhadores dos diversos níveis, a explicitação constante dos grandes objetivos das estradas construídas, os salários proporcionais ao desempenho de cada trabalhador e um ambiente de trabalho, que induzia liberdade e desbravamento, fizeram com que os trabalhadores sentissem que estavam realizando algo significativo e que estavam sendo valorizados. Isto sem dúvida motivou e deu alguma satisfação ao trabalhador.

Os métodos aplicados pelo coordenador ferroviário, disseminado em outros empreendimentos da mesma natureza em território americano, serviram de preparo para o posterior surgimento da Administração Científica de Frederick TAYLOR.

Após a Guerra Civil, 1868, os Estados Unidos viveram grandes mudanças. O Norte industrial, com a vitória, passou a dominar e a influenciar os métodos produtivos do Sul, agrário e escravocrata. O Sul, além de contribuir com a liberação de mão de obra para a indústria, surgia também como um novo mercado para os produtos industrializados.

Na Europa, em particular na Inglaterra, vivia-se na, época, uma grande crise de desemprego. O que motivou milhares de trabalhadores a emigrarem para os Estados Unidos.

O mercado e a expectativa para o consumo de produtos industrializados, interno ou externa, existiam. A mão de obra não especializada era abundante e barata. Mas havia um grande problema: os processos produtivos.

A "arte de fazer" não era propriedade da indústria. Os artesãos, que também eram chamados de trabalhadores profissionais, tinham o "conhecimento total" do "fazer" e constituíam um grupo dominante na indústria. A produtividade era baixa e a introdução de trabalhadores não especializados, que formavam a grande massa trabalhadora, era bloqueada pelos artesãos.

Diziam que essas primeiras oficinas eram simplesmente aglomerações de pequenas unidades de produção, refletindo pouca mudança quanto aos métodos tradicionais, de modo que o trabalho permanecia sob imediato controle dos produtores, nos quais escarnados o conhecimento adicional e as perícias de seus ofícios.

Esse é o quadro de TAYLOR encontra para aplicações de suas idéias sobre produtividade da produção. Vindo de família de classe média superior da Nova Inglaterra, Frederick Winslow Taylor, que abandonou o caminho profissional previamente defendido, Advocacia, iniciou seus trabalhos como simples operário em uma siderúrgica de amigos da família, a Midvale Steel.

A partir de métodos empíricos, TAYLOR estabeleceu e compôs técnicas para uma administração, voltada para a produção individual, como base para um maior e melhor desempenho global da indústria. Empiricamente, pesquisou métodos e deduziu formas mais eficientes para o desempenho das máquinas e dos trabalhadores.

Com os princípios de Taylor, ou seja, a divisão do trabalho em tarefas simples e previamente definidas, a utilização da mão de obra não especificada passou a ser amplamente possível e viável. Assim a indústria assumiu o controle do processo produtivo e pode aumentar substancialmente sua produtividade e produção, utilizando-se da mão de obra do trabalhador não especializado.

Vale ressaltar o perfil do trabalhador não especializado, aproveitado na produção americana a partir de TAYLOR. Eram imigrantes ou sulistas que tinham como experiência de vida as condições desumanas, vividas em seus países de origem ou a "escravidão" nas propriedades rurais do Sul. Logo, indivíduos com poucas aspirações profissionais, sociais e alienados quanto aos direitos a melhores condições no trabalho. A princípio, podemos ver na atitude de TAYLOR, considerando o contexto da época, preocupações não só empresariais, mas também sociais.

A filosofia proposta era a racionalização da produção, trazendo, como produtos finais, a produtividade e a motivação econômica do trabalhador. A respeito da "prosperidade " do trabalhador, na administração científica, diz TAYLOR: "Prosperidade para o empregado significa, além de salários mais altos do que os recebidos habitualmente pelos obreiros de sua classe, o aproveitamento dos homens de modo mais eficiente, habituando-os a desempenhar os tipos de trabalhos mais elevados, para os quais tenham aptidões naturais e atribuindo-lhes, sempre que possível, esses gêneros de trabalhos".

Ford, que foi um adepto do taylorismo, acreditava que uma das necessidades básicas para a "prosperidade" do trabalhador era os aspectos físicos do local de trabalho. Ford defende que uma "condição essencial para conseguir unir o melhor rendimento à maior humanidade na produção é dispor de acomodações amplas, limpas e devidamente ventiladas".

O Taylorismo e o Fordismo proporcionaram aos trabalhadores da época melhores condições de trabalho. Tanto no aspecto motivacional como no projeto do cargo e ambiente físico de trabalho.

Taylor valorizou o trabalhador e lhe deu condições de ganhar proporcionalmente a sua produção. A forma racional de execução das tarefas, apresentadas pelo taylorismo, levou o trabalhador a um desgaste físico quase desumano, numa visão atual, mas, sem dúvida, tornou a tarefa mais significativa.

Os valores introduzidos por Taylor aparentemente proporcionaram ao trabalhador, na época, uma melhor Qualidade de Vida no Trabalho e serviram de base para o atual estudo do comportamento no trabalho.

Hoje, as críticas aos métodos de trabalho e principalmente à forma como o taylorismo abordou o trabalhador são constantes. Alguns tentam entender Taylor no contexto atual e, com este marco, criticar a sua administração científica, introduzida no início deste século.

Entretanto a Administração Científica "foi assim uma das idéias pioneiras, libertadoras. Sem ela, seria impossível o verdadeiro estudo dos seres humanos no trabalho".

Assim as idéias de Taylor ainda estão vivas. Com outros títulos ou rótulos ou inseridas implicitamente nas diversas escolas sociais ou de produção. Logo não podemos desprezá-las ao analisarmos, hoje, a Qualidade de Vida no Trabalho. Qualidade esta deflagrada no início do século, provavelmente pela expectativa de maiores recompensas ou mesmo pelo fato de se manter ou conseguir um emprego.

A hierarquia das necessidades de Maslow e, posteriormente, a teoria X - teoria Y de Macgregor, são apresentadas e discutidas, procurando extrair idéias e conceitos para serem utilizados no diagnóstico da Qualidade de Vida no Trabalho. A Teoria de Herzberg é a última a ser trabalhada. Apresentando uma rica metodologia voltada para pesquisas sobre o local de trabalho, este autor foi provavelmente quem mais se assemelhou em idéias e posicionamentos aos que hoje pesquisam a QVT. Herzberg introduziu o conceito de "enriquecimento de cargo", que será aqui utilizado como parte da filosofia para a QVT.

No início dos anos 20, surgiam as primeiras preocupações científicas sobre a influência das condições físicas no local de trabalho na produtividade industrial.

O primeiro experimento, na tentativa de correlacionar as duas variáveis, ocorreu entre 1924 e 1927, na "Western Electric Company". Essa empresa "mostrou-se constantemente preocupada com o bem estar dos empregados, mantendo sempre um alto nível de salários, procurando estabelecer boas condições de trabalho e lançando mão de todos os métodos, reconhecidamente válidos em orientação vocacional, para bem adaptar os funcionários às suas funções.

Algumas inovações nas condições materiais de trabalho já tinham sido introduzidas nesta empresa. Tratava-se assim de uma "empresa bem progressista", com planos de pensões, benefícios no caso de doenças e numerosas facilidades recreacionais e outras ". Apesar disto, continua o autor, havia muitas queixas e insatisfações entre os empregados.

Com a ajuda do "National Research Council", a "Western Electric" deu início, em 1924, aos estudos sobre o efeito da iluminação na produtividade do trabalhador. "acreditava-se na época, que a eficiência seria influenciada principalmente pelos movimentos dispendiosos e ineficientes na execução do trabalho, pela fadiga, e pelas deficiências do ambiente físico. As premissas que fundamentavam essas experiências eram da Psicologia Industrial, fundada por Taylor.

Maslow: a satisfação a partir das necessidades

Abraham Maslow foi o primeiro a relacionar as necessidades humanas num quadro teórico abrangente na sua teoria da motivação humana, baseada numa hierarquia das necessidades humanas básicas.

O trabalho de Maslow foi apresentado de forma generalizada, mas seu estudo aqui se faz necessário, pois tal teoria serviu de apoio a outros cientistas sociais, tal como Douglas Mc Gregor para a análise das condições de vida no trabalho e necessidades do indivíduo no trabalho.

Em uma primeira visão,"poderíamos dizer que o indivíduo tem necessidades viscerogênicas e necessidades psicogênicas", segundo Carvalho Rodrigues. As primeiras são inatas, como por exemplo: a fome, a sede, o oxigênio, o sexo. As segundas são as aprendidas, como por exemplo: o amor, a associação, o reconhecimento, o poder.

Maslow diz que: "...as necessidades humanas estão organizadas numa hierarquia de valor ou premência, quer dizer, a manifestação de uma necessidade se baseia geralmente na satisfação prévia de outra, mais importante ou premente. O homem é um animal que sempre deseja, Não há necessidade que possa ser tratada como se fosse isolada; toda necessidade se relaciona como o estado de satisfação ou insatisfação de outras necessidades".

A "hierarquia das necessidades" de Maslow é composta por cinco necessidades fundamentais: fisiológicas, segurança, amor, estima, e auto realização. E inicialmente foi proposta pelo autor de forma seqüencial.

Posteriormente Maslow admite que sua "hierarquia" na realidade é menos rígida do que foi sugerida, diz o autor:

"...por exemplo: uma vez satisfeita uma necessidade, surge outra.". Isso pode dar a impressão errada de que uma necessidade deva ser 100 % satisfeita antes de surgir a próxima. Na realidade, a maioria das pessoas normais em nossa sociedade se encontram parcialmente satisfeitas e parcialmente insatisfeitas em todas as necessidades fundamentais. Tomando números arbitrários, podemos dizer que o cidadão médio satisfaça talvez 85 % das necessidades fisiológicas, 70% das de segurança e 10 % das de auto realização.

Segundo Dias da Silva citando Falconi. "O homem é um animal insatisfeito e a insatisfação é a alavanca do progresso. Se não fossemos insatisfeitos, provavelmente ainda estaríamos morando em cavernas".

As necessidades podem surgir de forma consciente e inconsciente, sendo que esta última forma é mais freqüente. Neste ponto, vale fazer uma comparação entre desejo e necessidade, baseado no livro de Kotler, Administração de Marketing. O autor diz que necessidade é algo inato, como por exemplo, as necessidades fisiológicas. Enquanto os desejos surgem com o desenvolvimento e influências externas recebidas pela pessoa. Por isto, a forma e os métodos utilizados para estimular estes desejos são tão estudadas pelos profissionais de Marketing.

Ciclo necessidade/comportamento é um ponto de partida para o desenvolvimento de um arcabouço teórico, visando à compreensão do comportamento. A satisfação de uma necessidade é induzida pelo comportamento individual, que serve como apoio para explicar as reações das pessoas às diversas forças motivacionais. O ciclo necessidade/comportamento é apenas um dos fatores que influenciam as ações individuais, mas também é um dos pontos mais significativos na análise da qualidade de vida no trabalho.

Mc gregor: uma proposta de satisfação no trabalho

O trabalho, com base na administração científica, atende as necessidades básicas do indivíduo, mas oferece "poucas oportunidades de satisfação das necessidades egoístas, principalmente para as pessoas situadas nos níveis inferiores da hierarquia. Entendia o autor por necessidade egoístas aquelas que englobam a auto-estima (auto-respeito e confiança, autonomia, realização, competência e conhecimento)e a própria reputação (status, reconhecimento e aprovação).

A não oportunidade de satisfação das necessidades egoístas tem graves conseqüências comportamentais. O indivíduo no trabalho atende, na administração tradicional, apenas as suas necessidades básicas, sistematizadas por Maslow, ficando as necessidades egoístas a serem atendidas fora do local de trabalho. Assim, para muitos assalariados o trabalho é uma forma de punição, o preço a ser pago pelos vários tipos de satisfação obtidas fora do trabalho. Logo a organização não cria uma estrutura e não dá meios para que o indivíduo tenha um bom nível de Qualidade de Vida no Trabalho. Isso faz com que eles comportem-se no trabalho com indolência, passividade, má vontade, em aceitar responsabilidades, resistência à mudança tendência em aderir aos demagogos e exigências exageradas de benefícios econômicos.

No intuito de justificar tais comportamentos humanos e organizacionais. Mc Gregor agrupou todas as idéias relacionadas a indivíduo trabalho, decorrentes da administração científica, e denominou-as de Teoria X. E são apresentadas pelo autor como segue(Mc Gregor, 1980).

1. O ser humano, de modo geral, tem aversão essencial ao trabalho e o evita sempre que possível;

2. Devido a essas características humanas de aversão ao trabalho, a maioria das pessoas precisa ser coagida, controlada, dirigida, ameaçada de punição para que se esforce no sentido da consecução dos objetivos organizacionais;

3. O ser humano, de modo geral, prefere ser dirigido, quer evitar responsabilidades, tem relativamente pouca ambição e quer garantia acima de tudo.

O autor propõe então uma outra forma de ver o indivíduo na organização e denomina Teoria Y, cujas pressuposições principais são:

1. O dispêndio de esforço físico e mental no trabalho é tão natural como o jogo ou o descanso;

2. O controle extremo e a ameaça de punição são os únicos meios de estimular o trabalho em vista dos objetivos organizacionais. O homem está sempre disposto a se autodirigir e se autocontrolar a serviço de objetivos como os quais se compromete;

3. O compromisso com os objetivos é dependente das recompensas associadas a sua consecução;

4. O ser humano aprende, sob condições adequadas, não só a aceitar responsabilidades como a procurá-las;

5. A capacidade de usar um grau relativamente alto de imaginação, de engenhosidade e de criatividade na solução de problemas organizacionais é mais amplamente distribuída na população do que geralmente se pensa;

6. Nas condições da vida industrial moderna, as potencialidades intelectuais do ser humano estão sendo parcialmente usadas.

Mcgregor propõe, assim,com a sua Teoria Y, que se ofereça condições ao indivíduo para que as necessidades atendidas só fora do local de trabalho passem também a ser satisfeitas no mesmo. O princípio fundamental derivado da Teoria Y é o da integração: a criação de condições tais que permitam aos membros da organização alcançar melhor os seus próprios objetivos, dirigindo os seus esforços para o sucesso da empresa.

Mc Gregor afirma:

".... a menos que o próprio emprego seja satisfatório, a menos que se criem oportunidades na situação de trabalho, que permitam fazer dele próprio uma diversão, jamais lograremos conseguir que o pessoal dirija voluntariamente seus esforços em prol dos objetivos organizacionais".

Quanto a importância atribuída ao salário, McGregor diz que "embora o dinheiro tenha pouco valor para satisfazer muitas das necessidades de nível superior ele pode se tornar foco de interesse se for o único meio disponível " para propiciar alguma satisfação compensatória das necessidades frustradas. A proposta de McGregor explicita que o trabalho não precisa ser um mal. E a Teoria Y foi a forma encontrada pelo autor para operacionalizar sua proposta que, sem dúvida, constitui-se em um grande avanço para a qualidade de vida no trabalho do indivíduo no trabalho.

Herzberg: a satisfação a partir do enriquecimento de cargo.

A teoria da motivação de Frederick Herzberg foi formulada com base em um estudo empírico, realizado, inicialmente, com 200 engenheiros e contadores de nove indústrias de fabricação de metais, localizados em Pittsburgh.

Após uma revisão e análise de teorias e pensamentos, relacionadas com o comportamento do indivíduo no trabalho, Herzberg levantou a hipótese dos dois fatores". Essa hipótese sugeria que os fatores que produziam satisfação no trabalho são distintos daqueles que produziam a insatisfação. O autor, em sua hipótese, considera que o oposto da satisfação com o trabalho não seria a insatisfação, mas, nenhuma satisfação com ele e igualmente o oposto da insatisfação seria nenhuma insatisfação com o trabalho.

Os fatores capazes de produzir insatisfação foram denominados pelo autor de higiênicos numa analogia à forma em que o termo é usado na medicina preventiva. Estes fatores, expressam o impulso natural para evitar o sofrimento, causado pelo meio ambiente, mais os impulsos adquiridos que se tornam condicionados às necessidades biológicas básicas. Os fatores higiênicos são:

1 - a política e a administração da empresa;

2 - as relações interpessoais com os supervisores;

3 - supervisão;

4 - condições de trabalho;

5 - salários;

6 - "status"

7 - segurança no trabalho.

Os fatores que produzem satisfação foram chamados de motivadores. Estes fatores relacionam-se com aquela característica humana singular que é a capacidade de realizar e, através da realização, desenvolver-se psicologicamente.

Os fatores motivadores compreendem:

1 - realização;

2 - reconhecimento;

3 - o próprio trabalho;

4 - responsabilidade;

5 - progresso ou desenvolvimento.

Herzberg apesar de ver como vitais os benefícios higiênicos, questiona a consumação das necessidades humanas no trabalho em termos totalmente higiênicos. Esta visão unilateral da natureza humana tem conduzido a desastrosas conseqüências de muito maior importância do que os custos monetários diretos destes programas para nossas organizações. Os fatores motivadores enfrentam barreiras e resistências para sua implantação, e o autor vê, como motivo principal, o medo dos gerentes inadequados que não estão preparados para o desafio dos adultos dominantes.

Propõe que os fatores motivacionais sejam implantados nas organizações a partir do enriquecimento de cargo. Na proposta do autor, fica explicito que o enriquecimento do cargo propiciará a utilização eficiente do trabalhador. Esta proposição é contrária à racionalização do trabalho com meio para aumentar a eficiência, pensamento este muito divulgado na época.

O termo enriquecimento de cargo supõe enriquecer a tarefa, mas não podemos confundi-lo com o que se denominava de ampliação do cargo, usado por cientistas do comportamento que acreditavam que o indivíduo teria maior satisfação no trabalho se sua tarefa fosse ampliada, ou seja, fosse aumentada em número de operações.

Herzberg diz que "o enriquecimento do cargo" proporciona oportunidades para o desenvolvimento psicológico do empregado, ao passo que a ampliação do cargo simplesmente torna um cargo estruturalmente maior.

Herzberg apresenta dez medidas fundamentais para que seja operacionalizado o enriquecimento do cargo, são elas:

1 - Escolher os cargos nos quais o investimento, feito em engenharia industrial, não encareça demais as modificações, as atitudes sejam más, a higiene esteja ficando dispendiosa e a motivação faça no desempenho;

2 - Encarar esses cargos com a convicção de que podem ser modificados;

3 - Fazer um "brainstorm" para elaborar uma lista de modificações que possam enriquecer os cargos, sem se preocupar com suas viabilidades;

4 - Fazer uma triagem na lista, eliminando sugestões referentes à higiene e não à real motivação;

5 - Fazer outra triagem na lista, eliminado generalidades;

6 - Fazer mais uma triagem na lista, eliminando quaisquer sugestões de rastreamento horizontal, ou seja, que reduz a contribuição do funcionário, ao invés de lhe proporcionar uma oportunidade para se desenvolver no desempenho de suas funções habituais;

7 - Evitar a participação direta de funcionários no enriquecimento de cargos;

8 - Nas primeiras tentativas de enriquecimento de cargos, fazer uma experiência controlada;

9 - Estar preparado para uma queda no desempenho do grupo experimental nas primeiras semanas;

10 - Esperar que os supervisores de primeira linha demonstrem algumas apreensões e hostilidades para com as mudanças que estão sendo feitas.

Herzberg enfatiza que o enriquecimento de cargo não é uma ocorrência isolada, mas sim uma função contínua da direção das empresas. Em relação aos recursos a serem aplicados em projeto com vista ao enriquecimento de cargos, Herzberg considera que "......se apenas uma pequena parcela do tempo e do dinheiro que agora são aplicados à higiene fossem gastos em atividades de enriquecimento de cargos, o resultado em satisfação pessoal e lucros econômicos representaria um dos maiores dividendos já auferidos até o momento pelas empresas e a sociedade pelos seus esforços para obter gerência do pessoal ".

As necessidades humanas apresentadas por Maslow interligam-se ou justificam a visão do trabalhador nos diversos níveis de crescimento, que influenciam o seu agir hoje. Mc Gregor com a sua teoria X - teoria Y, dá o início à modificação das atribuições da tarefa do indivíduo no trabalho. E, finalmente Herzberg, introduzindo a teoria dos dois fatores, que propõe a motivação do indivíduo com base no enriquecimento do cargo

QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO, ERGONOMIA E PRODUTIVIDADE

INTERESSE POR QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO-QVT

A ciência comportamental, tratando especificamente de aspectos ligados ao bem estar das pessoas em situação de trabalho, orienta-se por uma linha de pesquisa - já consideravelmente desenvolvidas por pesquisadores como Bergeron (1982), Boisvert (1980), Westley (1979), entre outros, em alguns países da Europa, Canadá e nos Estados Unidos - conhecida como Qualidade de Vida no Trabalho - QVT. O foco central da investigação visa ao questionamento das formas a serem adotadas para que "os cargos mostrem mais produtivos e satisfatórios, com vantagem para as pessoas e organizações, mediante a reformulação do desenho de cargos e postos de trabalho".

A tecnologia de QVT (Qualidade de Vida no Trabalho) pode ser utilizada para que as organizações renovem suas formas de organização no trabalho, de modo que, ao mesmo tempo em que se eleve o nível de satisfação do pessoal, se eleve também a produtividade das empresas, como resultado de maior participação dos empregados nos processos relacionados ao seu trabalho.

O conceito de QVT é, de certa forma, abrangente, e precisa ser definida com clareza, uma vez que, como enfatiza Fernandes citando Wether e Davis (1983), os cargos / postos de trabalho representam não apenas uma fonte de renda para os trabalhadores, mas também um meio de satisfazerem suas necessidades de toda ordem, com reflexos evidentemente em sua qualidade de vida.

Mesmo em países onde tais estudos se encontram bastante desenvolvidos, como nos EUA, Canadá e França e de modo especial na Suécia, onde esta linha de pesquisas alcançou considerável desenvolvimento, "tal expressão não apresenta consenso em sua definição".

Justifica-se a preocupação com o conceito de QVT porque certas atividades empresariais, atribuindo-se o título de programas de QVT, constituem-se apenas em esquemas de manipulação, baseados em abordagens simplistas e míopes relativamente ao comportamento humano nas organizações, motivando críticas a movimentos orientados por esta linha de trabalho como sendo um "modismo" da área de Recursos Humanos. Por outro lado, constata-se que o simples uso da expressão "qualidade de vida "induz à imediata associação com melhorias nas condições físicas e de instalações, atendimento a reivindicações salariais, redução da jornada de trabalho e outras medidas do gênero que, sem dúvida, tem implicação de custos adicionais.

Como decorrência natural de tais inferências, surgem as barreiras opondo-se à implantação de programas de QVT, como algo que acarretará despesas às empresas.

Na verdade, porém, são as reformulações ao nível do trabalho em si que constituem o objetivo principal das ações implicadas na Qualidade de Vida no Trabalho (QVT ), visando garantir maior eficácia e produtividade e, ao mesmo tempo, o atendimento das necessidades básicas dos trabalhadores. Assim sendo, quando adequadamente proposto, um programa de QVT tem como meta "gerar uma organização mais humanizada", na qual o trabalho envolve, simultaneamente, relativo grau de responsabilidade e de autonomia do cargo, recebimento de recursos de "feed back" sobre o desempenho, com tarefas adequadas, variedade, enriquecimento do trabalho e com enfase no desenvolvimento pessoal do indivíduo".

É evidente que nem todos os problemas de produtividade das empresas, e que nem todo tipo de insatisfação do empregado, em qualquer nível, podem ser resolvidos pela tecnologia da QVT. Entretanto, sua aplicação conduz, sem dúvida, a melhores desempenhos, ao mesmo tempo que evita maiores desperdícios, reduzindo os custos operacionais. Isto porque os programas de Qualidade Total exigem pessoas que "saibam fazer "; sendo assim, mas acima de tudo que "queiram fazer " mais e melhor, precisam contar com empregados satisfeitos. Ou seja, mais do que nunca as empresas tem que ser competitivas, e para tal tem que se preocupar com as pessoas, porque é através do comprometimento das pessoas com as propostas da empresa que os resultados serão atingidos com sucesso.

Sob este ponto de vista, a melhor qualidade de vida dos trabalhadores é o alicerce para a implantação da Gestão da Qualidade Total, porque a participação é fundamental para o sucesso de tais programas, com já foi salientado anteriormente.

No entanto, o que se observa por parte das empresas é um certo exagero relativo aos aspectos técnicos orientados para a qualidade de processo produtivo em si, esquecendo-se de investir nas pessoas. Destaque-se que Qualidade Total só se faz através das pessoas. São as pessoas que conseguem atualizar os projetos da empresa. E, somente atendendo às necessidades das pessoas e as desenvolvendo, maximizando as suas potencialidades é que a empresa também se desenvolverá, atingindo suas metas.

Verifica-se que, quando ocorre desequilíbrio entre o investimentos tecnológicos em detrimentos dos cuidados com o fator humano, o desempenho do cliente interno, que é o empregado, fica comprometido pelos baixos níveis de satisfação, afetando o atendimento às exigências do cliente externo, inviabilizando as estratégias voltadas para a melhoria da qualidade dos produtos e serviços.

Vale destacar que esses problemas não são verificados apenas em empresas brasileiras, como revela Fernandes citando Junqueira (1994)"70% dos programas de qualidade de empresas americanas fracassaram, apesar de substanciais investimentos em treinamento e desenvolvimento de pessoal, como também na área de treinamento gerência ". No caminho da excelência, a qualidade é um ponto que está na metade do caminho. Na sua opinião, " excelência é ultrapassar a expectativa dos clientes e, para isso, é preciso saber o que os clientes querem". Observa-se que tal preocupação já é encarada com seriedade em relação ao cliente externo, através de pesquisas de mercado. O ponto fraco reside na escuta ao cliente interno. Recente pesquisa pela FIERG (1995)revelou que, 120 empresas que adotam Programas de Qualidade, 55 % não adotam nenhum sistema para ouvir sugestões de funcionários, e 65 % delas não pesquisam o nível de satisfação dos funcionários.

Como se sabe, em termos de qualidade, o cliente, o consumidor, é o rei. Então, assumindo-se tal enfoque igualmente em termos de funcionário, do cliente interno, precisa-se saber quais são suas expectativas, necessidades e exigências, ou seja, quais são os fatores intervenientes na sua Qualidade de Vida, o que, com certeza, irá afetar seu nível de satisfação, refletindo em produtividade.

Um depoimento valioso, neste sentido, é transcrito, na íntegra, por sintonizar perfeitamente com as idéias expressas acima.

Segundo Aidar citando Cleo Carneiro -"Qualidade de Vida no Trabalho é ouvir as pessoas e utilizar ao máximo sua potencialidade. Ouvir é procurar saber o que as pessoas sentem, o que as pessoas querem, o que as pessoas pensam...e utilizar ao máximo sua potencialidade é desenvolver as pessoas, e procurar criar condições para que as pessoas, em se desenvolvendo, consigam desenvolver a empresa".

Apesar de toda a badalação em cima das novas tecnologias de produção, ferramentas da Qualidade, etc., é fato facilmente constatado que mais os trabalhadores se queixam de uma maior rotina de trabalho, de uma subutilização de suas potencialidades e talentos, e de condições de trabalho inadequadas. Estes problemas ligados à insatisfação no trabalho tem conseqüências que geram um aumento do absenteísmo, uma diminuição do rendimento, uma rotatividade de mão-de- obra mais elevada, reclamações e greves mais numerosas, tendo um efeito marcante sobre a saúde mental e física dos trabalhadores, e, em decorrência, na rentabilidade empresarial

Além disso, é importante salientar que a questão da produtividade e da eficiência organizacional como metas essenciais à sobrevivência das empresas, tem trazido conseqüências nem sempre adequadas para o bem estar dos trabalhadores. Os efeitos da "apregoada" administração científica, que ainda hoje, impera na maioria das empresas, calçada na especialização das tarefas, hierarquias ligadas, padronizadas da mão- de - obra, representam aspectos de caráter negativo, como o isolamento do trabalhador no seu posto, a não-identificação com o produto final, o que causa falta de qualidade, rotatividade, absenteísmo, alienação, falta de envolvimento e outros tantos aspectos que devem ser repensados pelos administradores. Isto porque, com o advento da busca incessante da qualidade, verifica-se que os executivos trabalham bastante em cima dos produtos/serviços que na verdade melhoraram e muito, mas não se observa o mesmo empenho nas questões ligadas ao gerenciamento do pessoal.

A tais questionamentos podem-se acrescentar as pressões que apareceram mais recentemente, notadamente oriundas das demandas por maior participação e comprometimento por parte dos trabalhadores, visando atender às metas dos programas de qualidade implantados em grande parte das empresas.

Entretanto, não se pode esperar qualidade no desempenho de pessoas que carecem de qualidade em seu próprio trabalho.

A conceituação de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) como uma linha de investigação que se orienta em função do "Detaylorismo", no sentido de resgatar valores humanísticos e ambientais negligenciados pelas sociedades industrializadas em favor do avanço tecnológico e do crescimento econômico , vem ao encontro de tais preocupações, com apoio em dois pontos básicos: a produtividade e melhores condições de trabalho. Um maior embasamento no referencial teórico que trata do tema na literatura especializada, em que seus conceitos e fatores já constituem um corpo de conhecimento bastante reconhecido na comunidade científica, poderá auxiliar no desenvolvimento de Programas de Qualidade de Vida no Trabalho como suporte essencial aos Programas de Qualidade Total.

QVT - UMA TENTATIVA DE CONCEITUAÇÃO

Considerando-se "Qualidade de Vida no Trabalho" um tema novo na literatura nacional, justifica-se a inclusão, neste texto, de alguns aspectos relativos ao referencial teórico que embasa a tecnologia de QVT - Qualidade de Vida no Trabalho. Apesar da preocupação voltada para organizar o trabalho ter sido uma constante desde o advento da administração científica, só recentemente as empresas vêm-se preocupando com a satisfação do trabalhador na execução de suas tarefas, como requisito para atingirem altos índices de produtividade.

Historicamente, segundo Fernandes, atribui-se a Eric Trist (1975) e seus colaboradores que desenvolveram estudos no Tavistock Institute, em 1950, em termos de abordagem sócio técnica em relação à organização do trabalho, a origem da denominação Qualidade de Vida no Trabalho - QVT, para designar experiências calcadas na relação indivíduo-trabalho-organização, com base na análise e reestruturação da tarefa, com o objetivo de tornar a vida dos trabalhadores menos penosa.

Na década de 60, nos Estados Unidos, um maior incremento às preocupações com a Qualidade de Vida no Trabalho ocorreu, impulsionada pela criação da "National Comission on Produtivity", que teve como função analisar as causas da baixa produtividade nas indústrias americanas, seguindo-se a criação pelo congresso do "National Center for Produtivity and Quality of Working of life", com a função de realizar estudos e servir de laboratório sobre a produtividade e a qualidade de vida do trabalhador.

É preciso dizer, entretanto, que quanto à expressão "qualidade de vida no trabalho", não se pode atribuir uma definição consensual. O conceito engloba, além dos atos legislativos que protegem o trabalhador, o atendimento a necessidades e aspirações humanas, calcado na idéia de humanização do trabalho e na responsabilidade social da empresa.

Retrospectivamente, apesar do incremento nos anos 60, como registra Rodrigues "a crise energética e a alta inflação que acometeram as grandes potências do ocidente, e em particular os Estados Unidos, no início dos anos 70,desaceleraram e mudaram os rumos da QVT". No entanto, observou-se um interesse renovado por QVT ao final da década de 70, quando do surgimento de forte competição nos mercados internacionais, com a participação especial do Japão e a divulgação de técnicas japonesas de administração nas organizações do ocidente fazendo com que os americanos questionassem seu modelo de gestão empresarial e começassem a "reconhecer que talvez outros países estivessem fazendo algum tipo de gerenciamento diferente, que pudesse ter relação com sua eficácia. Tudo leva a crer que o advento dos Programas de Qualidade Total tenha igualmente despertado o interesse por QVT no Brasil, exatamente em função da globalização do mercado em termos de uma maior abertura para a importação de produtos estrangeiros.

É possível, também, atribuir-se preocupação crescente com QVT à maior conscientização dos trabalhadores e ao aumento das responsabilidades sociais da empresa, conforme a opinião,segundo Fernandes citando Huse e Cummings. Tais autores relacionam países como a França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Canadá, Holanda e Itália como os que adotam em suas organizações a tecnologia e a filosofia de QVT visando atender às necessidades psicossociais dos trabalhadores, elevando seus níveis de satisfação no trabalho.

Tais conceituações difereciadas sobre QVT exigem um esforço no sentido de aprofundar a revisão da literatura, para classificar o conceito, uma vez que não se pode trabalhar com algo que não se sabe exatamente do que se trata, ou seja, o primeiro passo para a implantação de um programa de QVT é saber do que se trata através da revisão da literatura especializada sobre o tema.

Inicialmente, devem- se destacar, por sua grande significação, os estudos desenvolvidos pelo Grupo de "Qualité de la Vie au Travail" da École des Hautes Études Commerciales de Montreal, constituído de professores da escola, e coordenados por Maurice Boisvert, que publicaram uma das obras mais importantes sobre o tema, intitulada: "La qualité de la vie au travail: regards sur léxoperience québécoise", (1980) Quatro aspectos da qualidade de vida no trabalho, serviram de ponto de referência aos estudos e pesquisas do grupo HEC. O trabalho em si constitui na dimensão central, em torno da qual articulam-se os outros três: a participação, o ambiente de trabalho e as questões de remuneração direta ou indireta.

Embora os autores apresentem enfoques diferentes ao conceituar a expressão "Qualidade de Vida no Trabalho", algo que parece comum a todos - a meta principal de tal abordagem - volta-se para a conciliação dos interesses dos indivíduos e das organizações, ou seja, ao mesmo tempo que melhora a satisfação do trabalhador, melhora a produtividade da empresa.

Tal reflexão é importante porque, como aponta Rodrigues, citando Aquino (1980), "quando o trabalhador não se sente integrado e aceito em seu ambiente de trabalho, tende a cuidar, primeiramente, de seus interesses particulares e, se sobrar tempo, trabalhar pela empresa. Este sem dúvida, é um comportamento que definitivamente não é desejável se considerarmos a importância de seu comprometimento no processo produtivo orientado nos termos da Gestão da Qualidade Total.

Segundo Fernandes, citando Quirino e Xavier (1986), enfatizam, da mesma forma, a importância do grau em que os funcionários são capazes de satisfazer suas necessidades pessoais para a obtenção de uma melhor qualidade de vida no trabalho, através de suas realizações na empresa.

Ainda segundo Fernandes citando Faune e Dubin (1975), associam QVT aos atributos do projeto do cargo ocupado pelo indivíduo em termos do "nível de autonomia, oportunidade para criatividade e reconhecimento pela realização do trabalho", que promoveriam o atendimento de necessidades pessoais.

Destaca-se, ainda, a definição de Bergeron (1982), segundo Bom Sucesso, particularmente interessante por sua abrangência, segundo o qual QVT consiste "na aplicação concreta de uma filosofia humanista pela introdução de métodos participativos, visando modificar um ou vários aspectos do meio-ambiente de trabalho, a fim de criar uma nova situação mais favorável à satisfação dos empregados e à produtividade da empresa".

Embora a qualidade de vida dependa, evidentemente, de condições de trabalho favoráveis, há outros aspectos que podem tornar os cargos mais satisfatórios, refletindo-se indiretamente na produtividade, e que independem de elevação do custo operacional com pessoal ou instalações. São fatores organizacionais, ambientais e comportamentais que, tecnicamente bem administrados e corretamente combinados, influenciam o projeto dos cargos, elevando o nível de satisfação e a produtividade.

Em termos gerais, conclui-se que tecnologia de QVT refere-se a esforços no sentido de melhorar ou humanizar a situação de trabalho, orientados por soluções mais adequadas que visem à reformulação do desenho dos cargos, tornando-os mais produtivos em termos de empresa e mais satisfatórios para os executores. Tal proposta vem ao encontro da visão de que em todo o processo produtivo dois atores são importantes para as metas da qualidade: o consumidor (cliente externo)e o produtor (cliente interno). Nas estratégias empresariais, o primeiro é sempre enfatizado; é evidente a preocupação das empresas com o cliente externo, o rei, não se verificando o mesmo esforço relativamente à satisfação dos clientes internos. Os empregados, os que produzem.

Os elementos chaves de QVT apóiam-se especialmente em quatro pontos:

1)Resolução de problemas envolvendo os membros da organização em todos os níveis (participação, sugestões, inovações, etc)

2)Reestruturação da natureza básica do trabalho (enriquecimento de tarefas redesenho de cargos, rotação de funções, grupos autônomos etc..)

3)Inovações no sistema de recompensas (remunerações financeiras e não- financeiras.

4)Melhorias no ambiente de trabalho (clima, cultura, meio ambiente físico, aspectos ergonômicos, assistênciais).

ERGONOMIA

Historicamente, a ergonomia desenvolveu-se a partir dos anos 40, durante a II Guerra Mundial, quando pela primeira vez, houve uma conjugação sistemática de esforços entre a tecnologia e as ciências humanas com o intuito de melhorar a produtividade e as condições de vida da população em geral, e dos trabalhadores, em particular.

A ergonomia, em termos de sua tecnologia singular, pode ser definida como o desenvolvimento e aplicação da tecnologia de interface do sistema homem-máquina. Ao nível micro, isso inclui a tecnologia de interface homem-máquina, ou ergonomia de hardware; tecnologia de interface homem-ambiente, ou ergonomia ambiental, e tecnologia de interface usuário-sistema, ou ergonomia de software (também relatada como ergonomia cognitiva porque trata como as pessoas conceitualizam e processam a informação).

Num nível macro temos a tecnologia de interface organizacão-máquina, ou macroergonomia, que tem sido definida como uma abordagem 'top-dow'do sistema sócio-técnico.

Uma outra definição diz que a ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem. Neste contexto existe o alerta para a importância de se considerar além das máquinas e equipamentos utilizados para transformar os materiais, também toda a situação em que ocorre o relacionamento entre o homem e o seu trabalho, ou seja, não apenas o ambiente físico, mas também os aspectos organizacionais de como esse trabalho é programado e controlado para produzir os resultados desejados.

A ergonomia está preocupada com os aspectos humanos do trabalho em qualquer situação onde este é realizado, e assim sendo, não podemos esquecer aqui das suas duas finalidades básicas: o melhoramento e a conservação da saúde dos trabalhadores, e a concepção e o funcionamento satisfatório do sistema técnico do ponto de vista da produção e segurança.

Desta maneira, a ergonomia busca não apenas evitar aos trabalhadores os postos de trabalhos fatigantes e/ou perigosos, mas procura colocá-los nas melhores condições de trabalho possíveis de forma a melhorar o rendimento e evitar o acidente ou fadiga excessiva.

Devemos nos lembrar que a proteção da saúde dos trabalhadores é uma das pretensões da ergonomia, mas não apenas isto, e sim, também, a melhoria da produção e da produtividade.

"A ergonomia tem sua base centrada no ser humano, e esta antropocentricidade pode resgatar o respeito ao homem no trabalho de forma a se alcançar não apenas o aumento da produtividade, mas sobretudo uma melhor qualidade de vida no trabalho", diz Santana.

PRODUTIVIDADE

Aumentar a produção com menos esforço humano tem sido por longo tempo um objetivo da indústria. O interesse no projeto dos sistemas de trabalho para converter práticas de trabalho humano às maquinas foi um fator contribuinte para a Revolução Industrial. Desde então o desenvolvimento não tem sido constante, mas confia-se fortemente na mecanização e automação para elevar a produtividade e desenvolver a força humana efetivamente.

Até a II Guerra Mundial, o conceito de produtividade limitava-se à razão entre o produto e a hora trabalhada. Embora, já nos anos 20, Paul Douglas e Charles Cobb tenham introduzido o capital no denominador dessa razão, somente a partir da década de 50 é que a produtividade global dos fatores de produção começa a ser efetivamente estudada.

Assim, dentro deste contexto, a produtividade como entendida hoje, é um indicador constituído pela divisão de um produto/serviço pelos fatores de produção, que compreendem além do trabalho, o capital financeiro, incluindo seus custos; o capital tangível (terras, instalações, equipamentos, estoques) e, ainda, as matérias primas, transporte e energia.

Produtividade = Quantidade de produto / serviço

Fatores de produção

A produtividade vista sob a luz da Engenharia de Produção (preocupada com maior número de variáveis) é a relação entre total produzido e os recursos gastos na produção.

Muitas definições têm sido dadas para produtividade, mas essencialmente, em administração de serviços, esta é uma medida ou nível de output de artigos produzidos ou serviços prestados em relação aos input dos recursos, em termos de tempo (horas, minutos, ou dias de trabalho), dinheiro gasto, máquinas, força humana, métodos e materiais.

Quando as taxas de output crescem mais rapidamente que os input, produtos e serviços são produzidos mais eficientemente e a produtividade aumenta.

Produtividade = Output de produtos / serviço

Input de recursos

Não podemos esquecer que o fator trabalho, envolve uma questão mais ampla, ou seja, os recursos humanos. Dentro deste enfoque não podemos ignorar que o fator recursos humanos tem um componente comportamental/motivacional, diretamente ligado aos aspectos culturais (crenças e valores), que é decisivo no desempenho dos indivíduos dentro de uma organização.

Os recursos humanos influenciam a produtividade; modificam a produtividade; a produtividade depende da performance dos recursos humanos.

A performance dos recursos humanos alterando a produtividade, nos põe em contato direto com a questão ergonômica e fica evidente a contribuição da ergonomia neste contexto, uma vez que a ergonomia busca melhores condições de trabalho, de forma que o trabalho possa se desenvolver sem a redução da saúde dos trabalhadores, e consequentemente com menores índices de absenteísmo e turnover.

No Brasil os índices de absenteísmo e turnover são ainda elevados, e isto contribui para diminuição da produtividade.

Outro fator contribuinte para a baixa produtividade é a cultura Taylorista presente ainda em muitas empresas. Nessas organizações há um grupo de pessoas planejando e outro executando, o que gera uma grande perda de conhecimento alterando a produtividade. A eliminação deste hiato entre planejamento e execução contribui no sentido de melhorar a produtividade.

A pergunta que se faz é como o administrador pode influenciar na produtividade do trabalhador? Nesse contexto, alguns meios e/ou recomendações são sugeridos para melhoria da produtividade.

MEIOS E/OU RECOMENDAÇÕES PARA ELEVAR A PRODUTIVIDADE

Segundo Santana citando Kazarian (1989) e Kotschevar (1985) têm escrito extensivamente sobre produtividade e ambos advertem que o melhor caminho para alcançar a produtividade é planejar áreas de trabalho de forma que os trabalhadores não tenham que alcançar objetos e se deslocar além de certos limites, pois se as limitações e capacidades do homem, forem respeitadas na sua atividade de trabalho, isso proporcionará uma performance mais criativa, mais inteligente e portanto mais eficiente.

Ainda Santana citando Avery, apud Hotchkin (1979), relata que a produtividade pode ser melhorada pela alocação dos acessórios/peças de equipamentos tão próximos uns dos outros quanto possível.

Como tratado anteriormente, os recursos humanos têm uma relação direta com a produtividade sendo possível ao administrador influenciar na produtividade do empregado. O primeiro passo neste processo, é contratar um trabalhador que possa ser bem sucedido em seu trabalho. Isso requer que o administrador encontre o "tipo" certo de trabalhador e o treine para desempenhar eficientemente, efetivamente e produtivamente, tendo em vista que o processo de contratação de pessoal inclui recrutamento, orientação e treinamento. As descrições e especificações do trabalho são importantes ferramentas desse processo, pois é necessário um claro entendimento das técnicas e habilidades necessárias para desempenhar o trabalho.

Uma vez que a comunicação é a chave para o aumento da produtividade, os administradores deveriam praticar um diálogo aberto com seus empregados numa atitude positiva que ofereça encorajamento e não apenas em relação aos erros cometidos pelo trabalhador. Ouvir cada pessoa, desde o trabalhador de mais baixa posição até o de mais alta na organização pode revelar caminhos para aumento da produtividade.

Outro aspecto importante refere-se à escala de trabalho, já que esta pode minimizar problemas de produtividade. Escalas de trabalho produtivas são estabelecidas com base nas necessidades da organização e dos empregados. As escalas de trabalho para produção e serviço economizam tempo e energia dos trabalhadores, pois estes sabem o que fazer e quando fazer. A carga de trabalho e as responsabilidades são distribuídas eqüitativamente

-PRODUTIVIDADE E OS ASPECTOS CULTURAIS

Segundo Aidar citando Galvani (1995), se você quer ver uma pessoa motivada, procure pelos seus valores mais elevados e sugira alguma ação coerente com ela, que os resultados serão imediatos.

Fica claro, portanto, que o desempenho dos indivíduos dentro de uma organização está diretamente ligado a conformidade entre os seus valores pessoais e os valores da organização, ou seja, a cultura,o clima organizacional. É evidente, também, que em função desta conformidade, o empregado passa a sentir-se como parceiro e participante do processo, resultando a sua conveniência dentro da organização não somente na satisfação das suas necessidades econômicas, mas também, na realização das suas necessidades de auto realização profissional dentro de um ambiente de trabalho bastante agradável.

Considerando este aspecto, o órgão de recursos humanos de uma empresa, na sua atribuição de recrutamento de pessoal, passa a exercer um papel fundamental, no que diz respeito a produtividade.

As pessoas são a chave para a melhoria da produtividade. Se a produtividade deve ser melhorada, então ambas, a natureza das pessoas e a organização na qual elas trabalham devem ser entendidas. As pessoas constituem a mais alta ordem de recursos de uma organização, e dessa forma são responsáveis pelo controle e utilização dos outros recursos. Os administradores devem ser capazes de utilizar os recursos humanos para melhoria da produtividade nas organizações.

PRODUTIVIDADE E QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO - QVT

O trabalho ocupa um espaço muito importante na vida de todos nós, e uma grande parte de nossa vida é passada dentro das organizações. O mundo do trabalho moderno parece tomar uma configuração sentida pelo homem como mentalmente e espiritualmente pouco saudável, e muitas pessoas adoecem por causa do trabalho. Alguns indicadores tais como: aumento dos índices de acidentes, surgimento de novas doenças, alcoolismo, utilização crescente de drogas, consumismo exagerado, perda do contato do homem com a natureza e até depredação da mesma, evidenciam a deterioração da qualidade de vida (Rodrigues, 1995).

Torna-se necessário criar condições adequadas para que as pessoas possam desenvolver a sua criatividade e evitar aquelas que possa gerar uma má qualidade de vida e stress no trabalho. E isso passa pelas contribuições da ergonomia e qualidade de vida do trabalho.

Santana,citando Pegado (1991) Apud Alvarez (1995), retratam estes aspectos ao considerar que a ergonomia tem seus objetivos centrados na humanização do trabalho e na melhoria da produtividade. As condições de trabalho incluem todos os fatores que possam influenciar na performance e satisfação dos trabalhadores na organização. Isso envolve o trabalho específico, o ambiente, a tarefa, a jornada de trabalho, o horário de trabalho, salários, além de outros fatores cruciais relacionados com a qualidade de vida no trabalho, tais como nutrição, nível de atividade física habitual e todas condições de saúde em geral.

A Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) pode ser entendida como um bem estar relacionado ao trabalho do indivíduo e a extensão em que sua experiência de trabalho é compensadora, satisfatória e despojada de stress e outras conseqüências negativas. Apesar que Ribeiro Pires, diz que: " o stress é o seu maior amigo, desde que mantido sobre controle ".

Segundo Rodrigues (1995), a QVT pode ser entendida como a resultante direta da combinação de diversas dimensões básicas da tarefa e outras dimensões não dependentes diretamente da tarefa, capazes de produzir motivação e satisfação em diferentes níveis, além de resultar em diversos tipos de atividades e conduta dos indivíduos pertencentes a uma organização.

Atualmente, uma maior atenção tem sido dada à Qualidade de Vida no Trabalho, na esperança de promover um envolvimento e motivação do ambiente de trabalho, propiciando assim um incremento da produtividade. Procura-se com a QVT, fazer com que a satisfação das necessidades individuais passem a ser alcançadas no próprio ambiente do trabalho.

Produtividade elevada, segundo Santana citando West's e Wood's (1994), significa motivação, dignidade e maior participação pessoal no projeto e performance do trabalho, e isso implica uma abordagem integrada à qualidade de vida no trabalho. A QVT afeta positivamente a produtividade de forma indireta.

Podemos perceber que a QVT afeta positivamente a coordenação, uma condição preliminar para uma melhor produtividade. Por outro lado, a QVT motiva o trabalhador, principalmente quando este tem suas necessidades individuais satisfeitas. Também, a QVT pode aperfeiçoar a capacidade do trabalhador melhorando o seu desempenho.

Segundo Santana citando Silva Filho (1995), a correspondência entre produtividade e qualidade de vida é biunívoca e diretamente proporcional; isto é, qualidade de vida alta, valores de produtividade também altos; baixa qualidade de vida provocará baixos índices de produtividade.

O que as Empresas estão fazendo de mais avançado em prol da qualidade de vida no Trabalho.

Algumas empresas estão tomando consciência que trabalho e familia são duas coisas que não se combinam com facilidade e que o trabalho pode interferir negativamente na vida familiar, assim como, a vida familiar pode interferir negativamente no desempenho profissional.

Um número crescente de empresas começa a perceber que o equilíbrio da vida familiar é importante, as vezes decisivo, para o desempenho do executivo. Em conseqüência dessa constatação prática, vão sendo modificadas as rotinas dos procedimentos de trabalho. O objetivo é torná-las mais compatíveis com as necessidades que o executivo tem em sua casa. A lógica é a seguinte: vida doméstica mais equilibrada, vida profissional mais produtiva.

A preocupação com o balanço mais acurado da vida pessoal e profissional não é exatamente um assunto novo, no Brasil ou em outros países. O assunto durante muito tempo foi essencialmente feminino. Como as mulheres que deixavam o tradicional papel de donas de casa em tempo integral poderiam cuidar da família ao mesmo tempo que começavam a entrar no mercado de trabalho ou como datilógrafas ou como secretárias ou, posteriormente como executivas? Hoje, a discussão está também definitivamente masculinizada. Porque com o avanço feminino nos escritórios os homens passaram a ser cada vez mais requisitados em casa.

O que há mais de arrojado nesse campo em geral parte das empresas americanas sob a pressão de uma sociedade particularmente reivindicativa. E delas se propaga mundo afora. No passado, as medidas práticas para adequar melhor o trabalho à vida familiar dos funcionários se voltavam, basicamente, às mulheres com filhos pequenos. E em geral não iam além da montagem de uma creche no local de trabalho e da organização de algum clube para funcionários. Quando muito, eram feitos esforços de duvidosa eficiência para aproximar as famílias da empresas através das "festas da firma".

Era a idade da Pedra no que diz respeito à relação entre trabalho e família. Hoje as organizações mais avançadas consideram com seriedade os problemas familiares dos empregados e os tratam com questões estratégicas. Segundo Alberto Golbert (1 ), "As empresas que acreditam na importância da harmonia entre esses dois lados da vida e ajudam seus funcionários a alcancá-las vão atrair e reter talentos em maior escala".

A experiência das companhias americanas consideradas exemplares no assunto mostra quais podem ser as vantagens competitivas, na maior parte delas, o absenteísmo e a rotatividade dos empregados diminuíram, os ganhos em produtividade aumentaram, o atendimento ao cliente melhorou, os funcionários passaram a trabalhar mais motivados e as pessoas ficaram, de uma maneira geral, menos estressadas.

Em 1996 antes de implantar o projeto Empregabilidade na sua unidade Santo Amaro, na grande São Paulo, A Rhodia pediu que seus 600 funcionários respondessem a 200 perguntas, muitas das quais ligadas à família. A análise dos resultados assustou a empresa: 80 % dos funcionários tem apenas dois pólos de interesse na vida, trabalho e família. Ou seja, qualquer decisão que cause impacto na vida do funcionário no trabalho atrapalha, ou ajuda, a vida familiar, e vice versa. " É como hélice de duas pás. Se uma quebrar,o avião não funciona", afirma Iaci Mortensem Rios. Diretor de R.H. da Rhodia.

Nos Estados Unidos trabalha-se intensamente para que a hélice não se esboroe. Veja abaixo uma lista com empresas que se preocupam com a relação familia-trabalho.

No First Tennesse Bank, além de disporem de uma creche e uma academia de ginástica no local de trabalho, os empregados podem desenhar seus horários e optar por jornadas divididas (Job Sharing ). Funciona assim: duas pessoas dividem o mesmo cargo (e o mesmo salário ). Uma trabalha de segunda a quarta-feira, a outra de quarta a sexta, por exemplo.

A seguradora Aetna life & Casualty conseguiu reduzir à metade os pedidos de demissão de mulheres que não voltavam ao trabalho depois de terem tido bebê. Estendendo a licença-maternidade, não remunerada, por seis meses. De lá pra cá, vem economizando 1 milhão de dólares por ano em despesas com contratações e treinamentos.

Na Motorola, os supervisores e os 50 profissionais responsáveis pela área de programas das filiais espalhadas pelo mundo recebem treinamentos regulares para se manter afinados com a visão da empresa sobre o trabalho e família. Há um programa, o Special Delivery, que oferece médicos de plantão 24 horas por dia às gestantes. No último trimestre de gravidez o marido ganha um pager para ser acionado pela mulher.

Na Hewlett-Packard, o presidente pede que cada unidade de negócio identifique problemas relacionados a trabalho e família e proponha planos de ação. Essa tarefa faz parte da avaliação anual de negócios. Quando a demanda de impressoras aumentou, o número de turnos dos empregados da fábrica foi triplicado e as creches passaram a funcionar 24 horas por dia. Recentemente, gerentes financeiros receberam aprovação para um plano de trabalho mais confortável para os empregados: foram escalonados as atividades da produção que alternavam picos de gargalos e períodos de nada para fazer. Funcionários foram aparelhados tecnologicamente para trabalhar em casa ou em qualquer outro lugar. A idéia partiu deles mesmos e resultou em aumento de eficiência.

Em Webster, um time da Xerox que trabalhava no desenvolvimento de um novo produto baniu reuniões muito cedo e muito tarde por entender que tais horários deveriam ser dedicados à familia. Além disso, essa equipe eliminou relatórios por escrito a fim de dar aos engenheiros,mais tempo para pensar.

Por meio de pesquisas internas, companhias americanas seduzem empregados fazendo coisas que, tanto para presidentes de empresas como para empregados brasileiros, pertencem à categoria do inimaginável. Lavar de graça a roupa suja dos funcionários e permitir que levem animais de estimação ao trabalho são algumas delas.

O que impede a prática das políticas modernas aqui no Brasil

Segundo os especialistas a mentabilidade brasileira é a primeira dificuldade." Não temos a cultura de dar liberdade para as pessoas fazerem o que tem que fazer de outra forma", diz Alberto Golbert, diretor de R.H. da H.P. "Há muita resistência ainda, e não só por parte das empresas. Os próprios funcionários não aceitam mudanças com facilidade".

Segundo Osni de Lima, Diretor de R.H. da Rhodia do Brasil, "as leis brasileiras são outra vilã de peso nessa história.

Vamos imaginar que o empregado tenha concordado em trabalhar em casa três dias por semana e vivido assim anos a fio. Num belo dia deixa a empresa, ou é dispensado, e entra na justiça do trabalho alegando que fez milhares de horas extras sem receber por elas. Em grande escala, a empresa está frita ".

"As leis trabalhistas beneficiam tanto os empregados que as empresas não se aventuram muito a inovar ", diz Lima. O resultado é que ninguém que ser o primeiro a fazer novas experiências. Uma empresa fica esperando a outra para ver o que acontece e, assim, pouco é feito. Como não poderia deixar de ser, "a falta de estabilidade econômica " é outra justificativa para o atraso dos recursos humanos no Brasil. "Hoje, a preocupação é manter empregado. Mais para frente, sim as empresas vão priorizar a vida dos funcionários", afirma Golbert.

A busca de uma Metodologia

Desde o momento em que se percebeu a importância da qualidade de vida para o melhor desempenho exigido com a implantação do TQC, tornou-se clara a necessidade de avaliarem-se com instrumentos confiáveis os níveis de satisfação experimentados pelos individuos nas organizações. Tal imposição decorre da constatação obvia de que é indispensável mensurar os fatores chave que interferem na qualidade de vida do trabalhador e que afetam seu desempenho.

Tal mensuração pressupõe a análise de aspectos significativos quando a intenção é a melhoria da qualidade de vida no trabalho, nas organizações, quais sejam:

Levantar o posicionamento do empregado em relação ao posto de trabalho ocupado, permitindo subsidiar a restruturação do mesmo;

Investigar os fatores do ambiente de trabalho que, se modificados, melhorariam a qualidade de vida dos empregados, definindo assim, as causas influentes;

Detectar os pontos críticos relativos às formas de organização do

trabalho ou causas mais prováveis de insatisfação dos empregados;

Especificamente, avaliar o nível de satisfação do empregado em relação às condições de trabalho, saúde, moral, compensação, participação, comunicação, imagem da empresa, relação chefia subordinado e organização do trabalho.;

Elaborar um plano de ação com base em itens de controle que precisam ser melhorados;

Após implantação de medidas corretivas verificar, através do levantamento da percepção dos empregados, se as medidas corretivas diminuíram o nível de satisfação evidenciado.

 

3 - CONCLUSÃO FINAL

A implementação de um programa de Qualidade de Vida no Trabalho exige da empresa um recursos humanos eficiente e com poderes dentro da organização, o que não se verifica nos resultados alcançados, como diz Fernandez: " Homens mobilizados e satisfeitos fazem a diferença e que somente sobreviverão as empresas que souberem utilizar seus Recursos Humanos tão bem como sua tecnologia e seu capital".

Finalizando, um outro fator relevante seria aquele levantado por Herberg, com relação aos fatores ambientais (higiene) podem, na melhor das hipóteses, criar não-insatisfação no trabalho, e sua ausência cria insatisfação. Por outro lado, o que deixa as pessoas felizes no trabalho e as motiva são os fatores associados ao conteúdo do trabalho (motivadores). Os trabalhadores que estiverem insatisfeitos com o seu trabalho, insatisfação devida a monotonia dos serviços radiológicos, vale sugerir em enriquecimento do cargo destes trabalhadores, através de maior liberdade no cargo, aumento de responsabilidades, introdução de novas tarefas e mais difíceis, inovações no sistema de recompensas, possibilidades de carreiras e oportunidades de aprender novas habilidades.

Em termos de conclusão, objetiva-se enfocar certas idéias chaves aqui expostas, no sentido de enfatizar que a qualidade total não pode prescindir da participação efetiva de todos os membros de uma empresa. Os desafios e as metas da qualidade dependem da mobilização das pessoas para o desenvolvimento das ações do programa de Qualidade de Vida no Trabalho.

Por outro lado, o que se observa é que, apesar das empresas estarem investindo em tecnologia, verifica-se um desequilíbrio: descuidam-se em relação às estratégias de envolvimento do pessoal em direção à qualidade. Os administradores hospitalares adquirem equipamento de alguns milhões de dólares, e muitas vezes, não sabem muito bem o que fazer com eles, e o pior, não se preocupam com o fator humano, tanto no que se refere a capacitação, como em relação às condições e organização de trabalho. Ou seja, o processo fica desequilibrado, e o equilíbrio é importante para qualquer processo de mudança, como destaca Fernandes citando Junqueira: "70% dos programas de qualidade de empresas americanas falharam, mesmo num país que investe US$ 48 bilhões de dólares em treinamento e desenvolvimento de pessoal, porque não se preocuparam com o fator humano ".

Outro ponto a frisar reside na expectativa ingênua de que se pode obter qualidade de produtos e serviços se a qualidade de vida dos que produzem apresentar baixos níveis de satisfação ou, o que é pior, se não houver nem mesmo o cuidado de avaliar esta qualidade. Como ponto pacífico, sabe-se que é preciso criar uma corrente de satisfação e envolvimento para a participação e o compromentimento de todos os que possam, de alguma forma, orientar seus esforços em direção às metas da Qualidade.

O desenvolvimento de metodologias que otimizem o potencial humano das empresas, é básico para a gestão de qualidade total, como, da mesma forma, para oferecer melhor qualidade de vida no trabalho.

Tendo como idéia principal de que é necessário medir para melhorar, assim como nos programas de Qualidade Total, o mesmo deve ser adotado para os programas de Qualidade de Vida no Trabalho. Poucas empresas hospitalares se preocupam em avaliar de forma sistemática a satisfação de seus empregados. Destaca-se algumas empresas hospitalares como o Hospital São Luiz em São Paulo, que desde 1994 vem demonstrado interesse constante na implantação de Programas de Qualidade voltada a satisfação dos clientes internos e externos das organização.

Vale-se dizer que muitas estratégias inadequadas de implantação do conceito (QVT) geralmente é oportunista e imediatistas, e não passam de modismo freqüentemente experimentados. Sabe-se que o público interno é considerado a parte mais importante da empresas, especialmente na implantação dos programas de QT.

Mas a negligência de alguns administradores e empresários tem subestimado a necessidade de uma estratégia orientada pelo monitoramento de itens de controle de gestão de Recursos Humanos. Desta postura decorre o gerenciamento improvisado com ações e medidas sem base quantificável, com conseqüências diretas não só sobre o desempenho da organização, mas também no nível de satisfação dos trabalhadores.

Um dos aspectos primordiais é que se desenvolvam tecnologias que permitam a qualificação de itens de controle para o devido monitoramento, ou seja, é essencial mensurar a Qualidade de Vida no Trabalho para programar ações corretivas, evitando a repetição de causas e a potencialização de fatores intervenientes no nível de satisfação, o que se reflete diretamente na produtividade das empresas, podendo mesmo ser considerado uma das barreiras mais freqüentes para o fracasso dos programas de QT implantados na empresa.

Concluindo a análise proposta neste trabalho, se evidenciam algumas considerações:

  1. Programas de Qualidade Total exigem a participação de todo pessoal
  2. Os empregados, cada vez mais, se ressentem de posturas autoritárias, e desejam participar.
  3. Participação é uma dos principais fatores de Qualidade de Vida no Trabalho e a preparação de todos para a participação e para a qualidade é o desafio central das organizações.
  4. A qualidade total, embora completamente direcionada ao cliente externo, não deve descuidar de seus clientes internos.
  5. O que não se pode medir, não se consegue melhorar, e como qualidade de vida no trabalho não é diferente.
  6. Não existe "qualidade" sem Qualidade de Vida no Trabalho que deve ser entendida e trabalhada corretamente.

Implantar um programa de Qualidade de Vida no Trabalho não significa por parte da empresa agir como bom mocismo, mas sim, como uma gestão empresarial.

Finalizamos este trabalho com as palavras de Nestor de Paula, Presidente da Azaléia, à revista exame: "Atrás das máquinas há pessoas. Ao contrário das máquinas, pessoas não podem ser compradas prontas. Como as máquinas, pessoas precisam ser cuidadas para produzir mais. Viver melhor para crescer".

 

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