Globalização: Visão Geral x Brasil Atual

Edrei Dutra Carrenho
Leticia Ramos de Souza
Marcos de Mazi
Paulo Sergio Falani
Renata Lopez da Silva
Sandro Corrêa Porto

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


Resumo

O trabalho tem por objetivo apresentar resumidamente um esboço de como a globalização vem afetando a realidade brasileira, caracterizando brevemente o fenômeno atual da globalização, analisando aspectos econômicos, políticos e culturais que lhe são inerentes: a transformação das mediações de hegemonia política no país, a exclusão social e a alienação cultural provocada por estes movimentos, enfatizando o modo como a nação vem se submetendo às medidas globalitárias e adotando o neoliberalismo.

O neoliberalismo, é inconsistente. Contudo, boa parte dos economistas e políticos que o difundem atualmente não problematizaram adequadamente os seus pressupostos. O neoliberalismo opera assim como uma forte ideologia, capaz de justificar os interesses de uma parcela de agentes econômicos que detém um significativo volume de capital em busca de mercados e aplicações lucrativas, independentemente dos efeitos que esses movimentos de capitais possam ocasionar, no que se refere à negação da cidadania e do bem viver coletivo.

Objetivo

Mostrar os problemas e soluções ocorridos no processo da globalização levando-se em conta uma pequena análise apresentada neste trabalho. Demonstrar a situação atual do Brasil no atual momento. É necessário lembrar que a sociedade moderna é assentada em um sistema econômico, com, uma dinâmica social e um imaginário vocacionados ao universal. O capitalismo é a base material da modernidade, e desde os seus inícios a sua constituição e consolidação significaram a apropriação de recursos naturais e humanos que antes não Ihe pertenciam

Justificativa

Compreender os mecanismos da globalização para perceber suas formas dominantes e como são movidas em busca de maximização dos lucros.

Observando a importância de analisar a desigualdade e a exclusão social que atingiram níveis como agora e a luta contra essa globalização que atende aos negócios, verificando o aparecimento de fatores que surgem forjando as bases de uma sociedade civil planetária, fundada nos direitos humanos e na cidadania.

Isso tudo para perceber que vivemos num meio de propostas e lutas concretas, porém muito confusas. A humanidade passa por momentos de incerteza, indefinição, de falta de grandes projetos utópicos que lhe apontem caminhos. A tarefa é exatamente reconstruir tais projetos, em novas bases.

Precisamos desenvolver alternativas de globalização que possam submeter o mercado e o poder estatal às demandas dos cidadãos do mundo.

Problematização

A internacionalização de mercados, resultante de revolução tecnológica informacional de e organizacional, implicando produção e Estado "enxutos", "flexibilização" do trabalho, desregulamentação, privatização, etc.. identificam uma crise de superacumulação, que acompanha o deslocamento da hegemonia dos EUA para o Leste asiático, provocando mundialização do capital predominantemente especulativo, super-concentrado em gigantescos oligopólios mundiais. Sob esta crise, o capitalismo produz, estruturalmente, não apenas e como sempre desigualdade, mas exclusão: de regiões inteiras e de grandes e cada vez maiores parcelas da população.

O atual estágio não conseguiu dissipar ainda a névoa de distorções ideológicas que tem conduzido a conclusões parciais bastante arriscadas e mesmo perigosas para as forças socioculturais identificadas com o mundo do trabalho e com a idéia da emancipação humana. Tais distorções foram impostas precisamente pelas forças sociais dominantes, que vêm conduzindo esse processo de globalização e cujo conjunto de idéias e de práticas sociais são chamadas de neoliberalismo.

Hipótese

Levando-se em conta a análise da postura do governo em enfrentar o problema social-econômico em nosso país, buscamos levantar algumas hipóteses em relação a situação econômica-social dentro da economia globalizada.

  • capital estrangeiro não teriam significativa economia de custos em produzir em terras brasileiras.
  • capital estrangeiro teriam significativa economia de custos em produzir em terras brasileiras.
  • Os capitais internacionais não teriam motivo para desenvolver atividades produtivas no Brasil que fossem capazes de promover um crescimento auto-sustentado de sua economia após a estabilização monetária.
  • Os capitais internacionais teriam motivo para desenvolver atividades produtivas no Brasil que fossem capazes de promover um crescimento auto-sustentado de sua economia após a estabilização monetária
  • As atividades desenvolvidas aqui não seriam mais significativa que na Argentina, no México ou no Chile.
  • As atividades desenvolvidas aqui seriam mais significativa que na Argentina, no México ou no Chile.
  • As vantagens comparativas do Brasil para que os capitais massivamente a ele se dirigissem, se fosse barateamento nos custos da produção, a economia seria nas matérias primas, na força de trabalho, no consumo de energia.

Introdução

O objetivo deste trabalho é fazer uma pequena demonstração, análise do processo e o contexto da globalização. A opção por analisar os aspectos que particularizam esse fenômeno tem o sentido de demonstrar as várias faces da globalização com o objetivo de conferir o sentido da nova ordem, em escala planetária, como suporte de múltiplas relações: lugar do econômico, social e simbólico.

A análise procedeu tomando como ponto de partida o conceito de Globalização, a fim de proporcionar um quadro teórico, identificando-se nos tipos de relações comentados nas partes que seguem este trabalho no decorrer do seu desenvolvimento demonstrando os aspectos negativos da globalização fazendo uma análise da situação atual no Brasil.

O que é Globalização?

Pode-se definir a Globalização como sendo uma atividade econômica real, ou financeira, desenvolvida independentemente dos recursos específicos dos diferentes países, o que termina com a importância estratégica de alguns territórios. Na medida em que o território perde importância, o espaço econômico é modificado, ficando apenas as relações abstratas entre os diferentes agentes econômicos. A globalização da economia está alimentada pelo desenvolvimento das tecnologias da informação, pela abertura de novos mercados onde os salários são baixos, e pela mobilidade do capital financeiro que escapa a qualquer controle nacional.

É a internacionalização da economia porém, que cria a necessidade de uma empresa globalizada, que se torna possível pelo avanço tecnológico na informática e nas telecomunicações, pelas mudanças no modelo de gestão empresarial, tornado obsoleto pela necessidade que tem a firma de adaptar-se às exigências da nova divisão internacional do trabalho e, pelos processos de desregulamentação do estado e as mudanças nas políticas comerciais e de inserção internacional dos diferentes países.

A fragmentação do processo produtivo e, o aumento dos custos provocados pela rigidez nas legislações trabalhistas dos países desenvolvidos, têm provocando o deslocamento da produç&atil de;o das multinacionais para os países em desenvolvimento, onde os salários são reduzidos, destruindo os empregos que requerem pouca qualificação nos países desenvolvidos.

O processo de globalização pode funcionar melhor num espaço onde as políticas econômicas são convergente e não no mundo formado por blocos, desta forma o novo desenho das políticas públicas a nível mundial contribuíram em muito para a consolidação do processo. É impossível para as empresas concorrer em condições de igualdade sem um mínimo de globalização do setor público. Medidas de desregulamentação, abertura comercial, regionalismo aberto, e as decorrentes dos programas de estabilização e ajuste estrutural adotadas para atingir maior eficiência, competitividade e flexibilização da estrutura produtiva, foram fundamentais para que o fenômeno da globalização fosse incorporado nos países em desenvolvimento (Agudelo 1997).

Todo o anterior significa que o processo de globalização, tem como conseqüência a crescente desterritorialização da atividade econômica, tornando-as menos dependentes dos recursos, práticas e interdependências de um local específico (Storper,1994). Isto não significa, que não seja possível a existência de um forte grau de internacionalização do capital produtivo e financeiro, com um elevado grau de dependência territorial, o que alguns analistas denominam de mundialização do capital.

A globalização pode ser entendida como um fenômeno microeconômico restrito aos movimentos na divisão do trabalho, a organização empresarial, os mecanismos de distribuição dos produtos, ou sua inserção nas grandes redes financeiras internacionais; ou também como produto do multilateralismo decorrente das negociações na Organização Mundial do Comercio, nos dois casos ela &eacu te; o resultado de:

  • Mudanças na Tecnologia: A globalização tem facilitado as transações comerciais internacionais, de forma exponencial, devido ao progresso tecnológico das telecomunicações e aos avanços da microeletrônica.
  • A desregulamentação da economia: O mundo globalizado é avesso à presença do estado e suas regulamentações. A ideologia liberal do estado minimalista tem contribuído para que sua presença seja cada vez menor. As políticas públicas de liberalização e desregulação do mercado, assim como os movimentos de abertura comercial unilateral tem tido um papel importante para amplificar esse processo que paradoxalmente esvazia o poder do estado.
  • Mudanças na organização empresarial: à revolução tecnológica corresponde uma redução dos custos de produção, comercialização e distribuição do produto, assim como uma mudança nas relações das empresas com o setor financeiro nacional. Isto levou às empresas a adotarem modelos de gestão e organização empresarial cada vez mais ágeis e flexíveis que permitissem o melhor aproveitamento das economias de escala e de eficiência.

O Capitalismo tem como característica as inovações e transformações das técnicas produtivas. E o desenvolvimento das técnicas está relacionado com a necessidade de expansão do capitalismo e não em atender as necessidades da sociedade. Como o principal objetivo do Capitalismo é acumular, as empresas passam a intensificar sua produção, para o qual precisam de um mercado cada vez maior, o que as leva a deslocar sua produção e aumentar os fluxos de capital para terceiros países com o intuito de aproveitar-se do potencial do mercado ampliado, produto desse processo.

As inovações tecnológicas nas comunicações e na informação exigem muito menos recursos naturais do que as utilizadas anteriormente, e pelo tanto são mais favoráveis ao meio ambiente, segundo Woodall (1996:A12) "enquanto os automóveis, ferrovias e motores a vapor usavam matérias primas em grande escala, a tecnologia da informação (TI) acelera a mudança para uma economia "sem peso", na qual uma parcela crescente da produção toma a forma de bens intangíveis. A TI oferece também enorme potencial para reduzir a poluição e os congestionamentos, por meio do "teletrabalho" e das "telecompras", que tornarão muitas viagens desnecessárias"

Aspectos Políticos

O papel do Estado diante da nova realidade mundial é um dos aspectos mais discutidos da Globalização, no seu ângulo mais político, com alguns estudiosos já antevendo o fim ou inutilidade do Estado.

A Globalização é um renascimento capaz de produzir uma revolução mundial nos planos de produção, produtividade e riqueza, impondo aos países e seus governantes uma realidade à qual devem se ajustar implacavelmente ou morrer no ostracismo da história. Entretanto, não há, na prática, uma receita pronta para o Estado ideal, orientando-se cada realidade por sua cultura nacional.

Nesse contexto, em face do Brasil ser um Estado patrimonialista, a reforma administrativa par torna-lo mais eficiente é considerada por demais complicada. Assim, vem sendo elaborado para o País um projeto de reformulação radical do Estado brasileiro através da implantação do Estado gerencial, apadrinhado por Luiz Carlos Bresser Pereira desde 1990, e que apresenta como características:

  • reconhece a necessidade de intervenção do Estado em muitos aspectos do mercado, especialmente para regulamentá-lo;
  • defende a presença do governo na prestação de serviços sociais aos desfavorecidos , sobretudo na educação e saúde;
  • não descuida das funções típicas como a defesa, coleta de impostos e diplomacia;
  • utiliza-se como gestão da profissionalização do funcionário público.

Em suma, a emenda da Reforma Administrativa é essencial para a reinvenção do Estado, com alguns estudos de organismos mundiais reconhecendo que o Estado é a pedra angular das economias bem sucedidas. Para o Bird, por exemplo, o Estado eficaz precisa canalizar suas energias nas áreas básicas em que atua melhor e revigorar as instituições públicas, não existindo. Entretanto, uma receita única e sim uma estratégia de duas partes: a) tornar o papel do Estado mais compatível com sua capacidade e b) traçar regras de incentivo para que os funcionários trabalhassem melhor e fosse mais flexíveis.

ASPECTOS ECONÔMICOS E SOCIAIS

Globalização da economia significa integrar os mercados em nível mundial no sentido de que um produto, independentemente de sua origem ou procedência possa estar oferecido para consumo em qualquer parte do globo terrestre.

Algumas características definem este tipo de globalização:

  • as duas idéias chaves são o mercado e o consumidor;
  • mercado pode ser planejado (economia fechada) ou espontâneo (economia aberta);

A principal entidade dentro da atividade econômica é o mercado, que tem como características, os seguintes tipos de operações:

  • TROCA VOLUNTÁRIA: o escambo foi a primeira forma de mercado;
  • LIMITES DA POLÍTICA ECONÔMICA: o sistema de mercado parece mais um jogo de troca, no qual todos os jogadores beneficiam-se por nele estarem envolvidos, limitados a regras que governam as trocas de mercado, buscando tratar todos com igualdade e dar o máximo de chances de cada um;
  • REDE DE PREÇOS: é o sistema de comunicação do mercado. A recompensa de cada participante do jogo depende do preço pelo qual ele consegue vender seu produto no mercado. Este preço funciona como sinal que torna um indivíduo capaz de contribuir para a satisfação das necessidades de outras pessoas, ao mesmo tempo que se empenha para satisfazer as suas;

A globalização sob o aspecto da conveniência do consumidor, pode significar conforto e interesse econômico, porque permite obter produtos de qualidade a preços diferenciados.

Do ponto de vista social, a globalização apresenta sinais de ser cada vez menos inclusiva, homogeinadora ou convergente, aumentando a polarização entre países e classes quanto à distribuição de riqueza, renda e emprego.

A formação dos blocos

A formação de blocos, vista como tendência geral, ou simples transição para o global, constitui outra visão simplificadora.

A Comunidade Européia surge nos anos 1950 numa situação histórica precisa, de um conjunto de paises pequenos e médios prensados entre dois mega-poderes, da União Soviética de um lado, e dos Estados Unidos do outro, e buscando recuperar um mínimo de peso específico para não se verem engolidos no processo. Surge também do choque de civilização que foi para a Europa ocidental constatar a que nível de barbárie os nacionalismos estreitos podiam levar. Hoje, a União Européia atrai novos países pela simples força de arrasto de uma economia de 6 trilhões de dólares, com o seu núcleo dominante constituido pela Alemanha, com 1,8 trilhões de dólares de PIB, a França com 1,3, a Itália com 1,2 e o Reino Unido com 0,9. Estes quatro paises somam um PIB de 5,2 trilhões.

A Associação Norte Americana de Livre Comércio (NAFTA) é mais claramente a associação do que já estava associado. É bom lembrar que os Estados Unidos têm um PIB da ordem de 5,9 trilhões de dólares, e 255 milhões de habitantes: em termos econômicos, não é a associação com o Canadá com os seus 490 bilhões de dólares de PIB que iria modificar radicalmente a situação, e muito menos com o México e os seus 330 bilhões. O que há de real é aqui também um poder de arrasto de uma mega-economia, cuja osmose econômica com os dois países vizinhos, que já era realidade há tempos, veio apenas ganhar forma organizada.

A formação da "Zona de Co-prosperidade Asiática" é igualmente tributária do poder de um gigante econômico de 3,7 trilhões de dólares, o Japão: é bastante óbvio o poder de atração exercido sobre satélites do porte da República da Coréia, com um PIB de 296 bilhões de dólares, de Cingapura, com 42 bilhões (1,1% do produto japonés!) ou de Hong Kong com 77 bilhões.

Ainda não se sabe como se configurará a geo-política das novas repúblicas do leste europeu relativamente à Rússia. No entanto, de forma geral é claro que os blocos realmente existentes constituem essencialmente uma aproximação de satélites em torno de três gigantes econômicos, que controlam quase três quartos da produção mundial. Transformar este poder de atração das três grandes potências em tendência geral para formação blocos, constitui uma transposição de situações sem muito sentido.

Assim, os entusiasmos passageiros com a ALALC, o Grupo Andino e tantos outros que já surgiram têm de ser moderados, e no caso do Mercosul, temos de trabalhar com boa dose de realismo. O Uruguai tem 3,1 milhões de habitantes, o Paraguai tem 4,5, e os dois paises somam um PIB de 15 milhões de dólares, cerca do dobro do produto da Baixada Santista. O Brasil tem um PIB da ordem de 400 bilhões de dólares. A Argentina, com 33 milhões de habitantes, e um PIB da ordem de 200 bilhões de dólares, constitui sem dúvida um aporte significativo, mas no conjunto o nosso "bloquinho" ficaria mais ou menos na dimensão da economia espanhola, ela mesma um sócio menor da União Européia. Este raciocínio não significa que a aproximação não seja sumamente válida, mas nos traz uma visão mais realista do que representamos e nos orienta melhor para as estratégias a adotar, evitando simplificações abusivas.

No conjunto, a formação de blocos não representa para os países do Terceiro Mundo a mesma dinâmica que a que foi originada com as mega-potências econômicas, e a aproximação entres as economias pobres deverá passar bastante mais pela definição de políticas comuns frente aos países dominantes, buscando uma inserção mais vantajosa na economia internacional, ao mesmo tempo que se deverá trabalhar uma integração efetiva do tecido econômico e institucional através de formas descentralizadas de cooperação.

Nas últimas décadas, o livre fluxo dos capitais, que é propagado em toda a parte pelo neoliberalismo, promoveu o surgimento desses blocos econômicos e megamercados. Embora tal movimento aumente a interdependência internacional, ele também acentua, cada vez mais, a fragilidade de um conjunto de economias que optaram pela dependência do capital externo como estratégia de desenvolvimento e que, por isso mesmo, vêm conduzindo as empresas nacionais a se fundirem com empresas internacionais ou a serem adquiridas por elas para acentuar a solidariedade de interesses entre o capital nacional e internacional. De outra parte, a comparação entre o Mercosul, o Mercado Comum Centro-Americano, o Caricom e o Pacto Andino - quatro mercados comuns latino-americanos - com a União Européia e o Nafta (ver tabela) mostra a inferioridade da posição econômica latino-americana, que resulta de uma história secular de dependência.

As crises econômicas experimentadas pelo México e Argentina, em anos recentes, e a persistência da elevada taxa de juros brasileira - remunerando especuladores financeiros há mais de quatro anos consecutivos - mostram o quanto estas economias se tornaram vulneráveis aos movimentos dos capitais internacionais que, embora não tenham pátria, sempre se refugiam nas economias seguras das nações de capitalismo avançado ao sinal de alguma crise. Mostram também que a globalização, embora gere uma maior interdependência entre países que participam de um mesmo bloco ou mercado econômico, amplia a dependência das economias latino-americanas frente ao capital internacional - tanto de empresas privadas transnacionais quanto dos grandes agentes do sistema financeiro internacional.

Quadro Comparativo entre Blocos e Mercados Econômicos em 1996

Blocos

 Integrantes

PIB Total
(Milhões de US$)

População Total (milhões de hab.)

PIB per capita (em US$)

Nafta

3 Países

7.568.082

391,10

19.350,76

União Européia

15 Países

7.324.281

372,40

19.668,05

Mercosul

4 Países

859.874

207,70

4.139,98

Pacto Andino

5 Países

197.662

101,50

1.974,41

MCCA

5 Países

34.482

30,70

1.180,00

Caricom

12 Países
3 Territórios

16.135*

5,82

2.772,34

*Excluindo as Ilhas Virgens Britânicas e as Ilhas Turks e Caicos

Fontes: Banco Mundial e Fundo das Nações Unidas para a População (3)

Globalização e Exclusão Social

Através dos processos de concentração e centralização do capital os principais setores da economia são controlados cada vez mais por um pequeno grupo de empresas que fica cada vez mais poderoso. Os processos ocorrem através de reinvestimentos das próprias empresas nos setores onde atuam (concentração), ou através de fusões e incorporações de outras que sucumbem à concorrência (centralização). Várias são as razões para tal resultado. Existem custos irrecuperáveis de instalação das empresas que desestimulam a saída de firmas de um setor. É o caso de gastos em pesquisa e desenvolvimento nas áreas de inovação e imitação, que desestimulam a saída das firmas que já realizaram tais gastos. Esse é o primeiro fator que conduz à concentração. Além disso, os gastos em pesquisa e desenvolvimento são muitos elevados e são os mais concentrados do mundo, expressando a concentração já existente e promovendo seu agravamento. Finalmente, os custos de coordenação e de tecnologia de informação para operar as redes de produção sofisticadas e internacionalizadas são também barreiras à entrada de novas firmas, funcionando como terceira razão para o processo de concentração do capital.

Tal processo de concentração do capital encontrou os setores mais fortes e desenvolvidos nos países mais avançados. Com isso, cresce o hiato entre os mais avançados - Alemanha ou Europa Ocidental, enquanto bloco, Estados Unidos e Japão. A este processo, que amplia o hiato de renda e desenvolvimento entre os países mais desenvolvidos e os demais, chamamos polarização. Para essa polarização contribuíram o montante elevado de pesquisa e desenvolvimento que os países mais ricos despendem, fundamental para o sucesso no processo de globalização; a irreversibilidade dos investimentos muito elevados; e os rendimento crescentes proporcionados pelo fato de terem chegado primeiro. O processo de polarização mostra que a difusão da mudança tecnológica é grande, mas é desigual e amplia as desigualdades.

Estas desigualdades são também ampliadas no interior de cada país, mesmo aqueles que obtêm maior sucesso no processo de globalização. Elas podem ser medidas por indicadores como taxa de desemprego, nível dos salários, desigualdades de renda e deterioração das condições de trabalho. Os níveis de desemprego de 11,5% da força de trabalho na França, de 11,9% na Itália e de 22,7% na Espanha, em 1995, foram alcançados apesar destes países estarem bastante inseridos na globalização e ganhando, em termos de taxas de crescimento, com essa inserção. Trata-se, pois, de um crescimento excludente.

Mesmo nos EUA, Japão e Alemanha, países bem sucedidos no processo de globalização, embora as taxas de desemprego não sejam altas quando comparadas com os demais países, preocupa a deterioração das condições de trabalho, uma vez que as indústrias mais bem sucedidas tendem a absorver cada vez menos mão-de-obra. De fato, não apenas os salários de grande parte da força de trabalho envolvida na produção dos artigos globalizados são irrisórios, mas também são péssimas as condições de trabalho dos chamados "sweatshops"(suadouros), que existem não apenas nos países da Ásia Ocidental, mas na América Latina e mesmo dos EUA (3), e são pagos não por empresas de pequeno e médio portes, mas por grupos globalizados e famosos como Nike, Macy's, J.C. Peumey etc.

Observe-se que tal processo de marginalização também ocorre nos países menos desenvolvidos e, nesses, ele ainda é mais grave em vista da distribuição de renda mais regressiva, e menor abrangência dos programas de seguridade social.

De fato, os dados do Banco Mundial(4) confirmam tal situação. Calculando a renda per capita dos 20% mais ricos da população de cada país e dividindo-a pela renda per capita dos 20% mais pobres, temos um indicador de desigualdades de renda. Este indicador é de 4,3 para o Japão; 4,4 para a Espanha; 6,0 para a Itália; 7,5 para a França; 8,9 para os EUA; 9,6 para a Jamaica - país que é o que maior desigualdade de renda apresenta pelo índice de Gini; 11,7, para a Venezuela - país exportador de petróleo, onde em regra a distribuição de renda é muito desigual; 15,5 para Colômbia; e, nada menos, infelizmente, que 32,1 para o Brasil.

Esses dados, por um lado, retratam o processo de marginalização ou exclusão social que ocorre paralelamente ao processo de globalização. Por outro, eles mostram que, para interrompê-los, é preciso que o Estado entre regulamentado e direcionando o processo de desenvolvimento, ainda que, para isso, tenha que enfrentar oposições não desprezíveis. Finalmente, esses dados mostram que o sucesso da globalização não pode apenas ser julgado pelo que possibilita em termos de ganhos de concorrência e preços baixos, mas devem ser também deduzidos os custos, em termos de exclusão social, que o acompanham.

A cidade como base da organização social e política

A realidade brasileira nos oferece base para que seja analisado a evolução do papel do espaço urbano. Em 1950, o país era esmagadoramente rural. Em pouco mais de uma geração, de forma intensa e caótica, tornamo-nos um país de quase 80% de população urbana. Provocada mais pela expulsão do campo do que pela atração das cidades, este êxodo urbano obedeceu à tripla dinâmica da tecnificação, da expansão da monocultura e do uso da terra como reserva de valor. Nunca é demais lembrar que temos 371 milhões de hectares classificados pelo IBGE como terra ótima, boa e regular, enquanto utilizamos cerca de 60 milhões de hectares na lavoura, pouco mais de 15%. Este dramático desperdício do solo agrícola, quando temos dezenas de milhões de esfomeados, tem nome e endereço. Os 61 mega-estabelecimentos agrícolas, de mais de 100.000 hectares, cultivam 0,14% da área disponível, enquanto as pequenas propriedades cultivam 65%. Os grandes estabelecimentos estabelecimentos espalham cabeças de gado nestas áreas, no que tem sido pudicamente chamado de pecuária extensiva, e explicam que não se trata de terra improdutiva, mas de pasto. Imagine-se o que seria da Europa com este tipo de intensidade de uso do solo.

Com o uso generalizado da terra como reserva de valor, a população expulsa pelo processo de modernização da grande propriedade, não teve como se fixar na terra. Foi uma grande oportunidade perdida, de se constituir uma forte base de agricultores pequenos e médios, e dinamizar a produção alimentar. Num processo intenso de urbanização tardia, o Brasil vê explodir as suas cidades, com imensas periferias caóticas e miseráveis, necessitando de tudo. É útil lembrar que uma cidade moderna como São Paulo tem 4 milhões de pessoas que vivem em condições sub-humanas, entre rua, favelas e cortiços.

O caráter explosivo desta situação manifesta-se com mais ou menos intensidade em todo o país, e não é particularmente um fenômeno doRio de Janeiro como tem sido apresentado. A pequena capacidade de absorção do setor formal, que na realidade hoje está desempregando em consequência da revolução informática, levou à constituição inicialmente de um amplo setor informal da economia, e crescentemente de um setor criminal, que vai minando a sociedade por baixo.

Alguns dados muito aproximados sobre este último setor, que chamamos aqui de setor criminal na falta de outro nome, dão uma primeira visão da sua importância. São roubados diariamente cerca de 420 carros por dia só na cidade de São Paulo, o que representa um valor da ordem de 700 milhões de dólares por ano. Se somarmos a prostituição, particularmente a grande indústria da prostituição infantil, o tráfico de drogas e os jogos ilegais como o video-poquer e outros, estamos nos referindo a um setor econômico da ordem de 3 bilhões de dólares por ano, valor equivalente ao orçamento da cidade. Nenhum sistema de atividades deste porte subsiste sem um conjunto de conivências, de certa forma à margem do sistema.

O mesmo processo que gera esta situação explosiva abre oportunidades. A população urbanizada é organizável, e os espaços locais podem abrir uma grande oportunidade para a sociedade retomar as redeas do seu próprio desenvolvimento. O mundo urbano moderno está literalmente fervilhando com as novas iniciativas de organização social e com as novas tecnologias urbanas. Desde as iniciativas pioneiras de Lajes, passando a experiências consolidadas como as formas descentralizadas de gestão de saúde, a elaboração participativa dos orçamentos municipais, particularmente amadurecidas em Porto Alegre, os terminais de Londrina que permitem a qualquer cidadão controlar as despesas da cidade, a recuperação do centro de Recife em parceria com os diversos atores sociais da cidade, as experiências de educação na cidade de são Paulo, o sistema de garantia de renda mínima em Campinas, os sistemas descentralizados de gestão em Santos, assistimos a um processo onde as cidades aboliram a visão de administrações limitadas à cosmética urbana, e buscam parcerias e novas reengenharias sociais para recuperar o seu espaço econômico, a cidadania local.

Não que as iniciativas locais sejam suficientes. No entanto, sem sólidas estruturas locais participativas e democratizadas, não há financiamentos externos ou de instituições centrais que produzam resultados. De certa forma, a cidade está recuperando gradualmente um espaço de decisão direta sobre a "polis", recuperando a dimensão mais expressiva da política e da democracia. é significativo neste sentido que tenhamos pela primeira vez uma Cúpula das Cidades, conferência mundial de Istambul destinada a avaliar as novas dimensões das políticas urbanas.

As cidades, por sua vez, têm de ser recolocadas no espaço rural a que pertencem. Desta maneira, seria mais correto falar em espaço local do que espaço urbano. Empolgado com a sua recente urbanização, o ser humano esquece a que ponto está vinculado ao campo que cerca as cidades, e um elemento essencial do desenvolvimento urbano será a reconstrução da relação cidade campo, já não a partir do campo, na visão clássica da reforma agrária, mas a partir da própria cidade.

A tendência para um reforço generalizado da gestão política nas próprias cidades representa uma importante evolução da democracia representativa, onde se é cidadão uma vez a cada quatro anos, para uma democracia participativa, onde grande parte das opções concretas relacionadas com as condições de vida e a organização do nosso cotidiano passam a ser geridas pelos próprios cidadãos.

Numa série de países com formas mais avançadas de organização politica, como os paises escandinavos, dois terços ou mais dos recursos públicos são geridos pela própria sociedade, de forma participativa, ao nível dos municípios. Isto implica, uma vaz mais, mudanças institucionais: além do prefeito e de uma câmara de vereadores, as cidades passam a se dotar de formas diretas de articulação dos atores sociais do município, com a criação de um forum de desenvolvimento, participação de empresários, de sindicatos, de colégios ou universidades e assim por diante.

Ultrapassando a tradicional dicotomia entre o Estado e a empresa, o público e o privado, surge assim com força o espaço público comunitário, e as nossas opções se enriquecem. Na formulação do relatório das Nações Unidas, "Na prática, tanto o Estado como o mercado são frequentemente dominados pelas mesmas estruturas de poder. Isso sugere uma terceira opção mais pragmática: que o povo deveria controlar tanto o Estado como o mercado, que precisam trabalhar articulados, com as populações recuperando suficiente poder para exercer uma influência mais efetiva sobre ambos."

Em outros termos, a cidade aparece hoje como foco de uma profunda reformulação política no sentido mais amplo. Não que o nível local de organização política substitua transformações nas formas de gestão política que têm de ser levadas a efeito nos níveis do Estado-nação e mundial: mas comunidades fortemente estruturadas podem constituir um lastro de sociedade organizada capaz de viabilizar as transformações necessárias nos níveis mais amplos. Não há democracia que funcione com a sociedade atomizada.

7 Brasil: Liberdades Democráticas sob o Capitalismo Atual

O que vemos nas sociedades contemporâneas, e no Brasil em particular, em que se acentuam os fenômenos de globalização, é a negação da liberdade pública e da liberdade privada das maiorias em nome da liberdade privada dos que dispõem de capital. Tal negação é tanto maior quanto mais se aplica o neoliberalismo. Os países que o acolhem passam a implementar políticas que cerceiam o exercício ético da liberdade pelas maiorias(99). Esse totalitarismo progressivo global, que vai negando as liberdades públicas e privadas, esse Regime Globalitário, esvazia as instâncias políticas da autonomia pública, transformando o Estado em refém do capital financeiro e dos mega-conglomerados - como demonstram as recentes crises no México, Argentina, Tailândia, Rússia e Hong Kong - tendo esta última repercutido no mundo todo.

Consideremos, neste quadro, entretanto, apenas duas liberdades fundamentais: comer e viver do próprio trabalho. O relatório da ONU sobre desenvolvimento humano, publicado em 1998, intitulado Consumo para o Desenvolvimento Humano, afirma que as desigualdades no consumo são imensas: enquanto os 20% mais ricos da população mundial são responsáveis por 86% do total de gastos em consumo privado, os 20% mais pobres respondem apenas por 1,3%. "Bem mais de um bilhão de pessoas estão privadas de satisfazer suas necessidades básicas de consumo... Mundialmente, 2 bilhões de pessoas estão anêmicas, incluindo 55 milhões em países industrializados."(100) Mas a concentração de renda chegou a tal ponto que as 358 pessoas mais ricas do mundo em 1993 possuíam ativos que, segundo ONU, superavam a soma da renda anual de países em que residiam 2,3 bilhões de pessoas, isto é, 45% de toda a população do mundo.(101) Outro dado mostra que "... as três pessoas mais ricas do mundo possuem uma fortuna superior à soma dos produtos internos brutos... dos 48 países mais pobres do mundo, ou seja, um quarto do total dos países do mundo."(102)

Enquanto entre as 100 maiores economias do mundo, 50 são de mega-empresas, por outra parte o desemprego, conforme documentos da OIT, atingiu em 1994 cerca de 820 milhões de trabalhadores no mundo, isto é, aproximadamente 30% da força de trabalho mundial estava desempregada.(103) Nos últimos anos esse número continua crescendo em termos absolutos. Nos países em que ele diminuiu - como nos Estados Unidos - ocorreu uma forte degradação do poder de compra dos salários e uma precarização das relações de trabalho.

Este movimento de negação das liberdades públicas e privadas da maioria da população que não detêm capital, ocorre, do mesmo modo, como vimos, também no Brasil - mesmo com as ações de resistência democrática, que acabam sendo modelizadas pelas mídias, transfiguradas semioticamente e esvaziadas de seu conteúdo substancial ao serem veiculadas ao conjunto da sociedade pelos grandes veículos de comunicação de massas - há casos que se transfiguram as conseqüências de uma greve, mas pouco se fala das reivindicações que a provocam. O capitalismo atual, de fato, vem suprimindo e fragilizando mediações garantidoras das liberdades públicas e privadas, sejam mediações materiais, políticas, educativo-informacionais ou éticas. O modelo capitalista neoliberal globalitário propaga: a) a concentração dos recursos materiais com a consequente exclusão das maiorias, b) o controle hegemônico do poder político pelos segmentos que controlam o capital, virtualizando cada vez mais a democracia, c) a saturação de informações e a fragilização da autonomia crítica da sociedade; d) uma moral individualista centrada na vantagem privada (em que as relações sociais ficam subordinadas ao mercado) e que renega a promoção da liberdade alheia, quando esta não contribui, ainda que mediatamente, para a realização do acúmulo privado de riqueza.

Uma Alternativa Democrático, Socialista E Popular

Em síntese, o governo de Fernando Henrique expressa, em grau elevado, um conjunto de características peculiares ao regime globalitário. A democracia liberal formalmente funciona, o neoliberalismo econômico vai sendo totalmente implementado no país e a hegemonia política é assegurada através das mídias de grande impacto, especialmente a TV. O processo hegemônico de produção de subjetividades afeta não somente o conjunto da população pouco instruída ou despolitizada, como também um setor politizado da esquerda que migrou para posições consideradas de "realismo político". As adesões desse setor ao projeto hegemônico são também sobrecodificadas semioticamente permitindo significar ilusoriamente que tal projeto transcende as antigas oposições de esquerda e direita, que seriam representações arcaicas de uma era historicamente ultrapassada.

Frente a este realismo globalitário, entretanto, a esquerda democrático-socialista cumpre um papel histórico de grande importância ao reafirmar, a partir de uma nova base filosófica, a legitimidade do projeto político que visa universalizar as condições materiais, políticas, informativas e éticas ao exercício das liberdades públicas e privadas. Esta legitimação, construída sob uma racionalidade comunicativa, considera como momento fundante da ética o desejo de que o outro possa realizar plenamente a sua liberdade, desde que também eticamente exercida, construindo-se relações sociais em que a ampliação da liberdade de cada um deve ser equalizada com a ampliação da liberdade de todos, a fim de que a liberdade privada promova a liberdade pública e que esta promova a realização da liberdade privada de cada pessoa, criando-se mecanismos que visem garantir as mediações materiais, políticas, informativas e educativas a tal exercício.

Desse modo, a crítica à democracia formal, instrumentalizada sob os regimes globalitários, avança para a afirmação de uma democracia substancial que, opondo-se aos modelos globalitários, promove e introduz novas mediações para a emancipação dos cidadãos. Esta concepção filosófica afirma que a liberdade democrática somente se realiza na medida em que se garanta ao conjunto dos cidadãos a satisfação de quatro tipos de condições necessárias ao exercício das liberdades pública e privada: condições materiais, políticas, informativas-educacionais e éticas.

Sem condições materiais não há como se exercer objetivamente a liberdade. A liberdade para comer só existe quando há o alimento disponível para o consumo. Aquele que não dispõe de comida, não possui liberdade para comer. A liberdade para trabalhar supõe condições materiais que a possibilitem. Sem dispor de terra, por exemplo, um agricultor não é livre para produzir com seu próprio trabalho. Sem dispor de uma casa, um apartamento ou um abrigo, não existe a liberdade para morar dignamente como ser humano, mas a imposição de viver ao relento. Sem as mediações materiais para preservar a saúde não há a liberdade para preservar o corpo da dor, do sofrimento e da morte evitável. As mediações materiais devem, portanto, ser compartilhadas de modo a realizar o máximo possível a liberdade de cada um e a liberdade de todos, respeitando-se as singularidades de cada qual, quando estas não sejam incompatíveis com a realização ética da liberdade pública.

Sem condições políticas, que assegurem a autonomia privada e pública, não há como preservar, promover ou realizar a liberdade dos indivíduos e da sociedade. Assim, é necessário garantir a autonomia do indivíduo na sua vida privada e a autonomia da sociedade na esfera pública, para se possa democraticamente organizar a sociedade em função dos interesses coletivos. Sem a possibilidade de participar, opinar, decidir e transformar as micropolíticas do cotidiano na sua vida privada e as macro-políticas - que envolvem inúmeras esferas de organização social - a liberdade dos indivíduos fica mutilada, impedida de realizar-se de modo cidadão. O machismo, o racismo, a discriminação de índios e pobres e tantos outros preconceitos justificam ideologicamente micropolíticas autoritárias que negam a liberdade de mulheres, negros e demais segmentos discriminados. Também o tecnicismo, o economicismo e tantas outras ideologias que se desdobram de conceitos arcaicos sobre o valor epistemológico dos enunciados científicos contribuem para a negação da liberdade pública, negando o valor da participação popular na definição das macropolíticas governamentais nas diversas esferas.

O terceiro aspecto é a dimensão informativo-educacional, pois mesmo tendo as condições materiais e políticas, se cada qual não tiver a informação suficiente e qualitativamente relevante para suas decisões e a capacidade de articulá-la, de interpretá-la, de racionar por si mesmo, quando tomar suas decisões poderá estar realizando os interesses daqueles que lhe fornecem uma certa informação, mas não fornecem outra desfavorável a tais interesses. É preciso, pois, ter informação suficiente e de qualidade para o exercício da autonomia crítica, isso que, em geral, as mídias de massa - comprometidas com a modernização conservadora - não fornecem de maneira articulada. Atualmente é preciso realizar um exaustivo trabalho de garimpar informações através de inúmeras fontes para conseguir reunir as informações básicas a importantes tomadas de posição. A maior parte da população, entretanto, não tem as condições materiais ou a formação educativa que possibilite pesquisar informações, localizá-las, interpretá-las e organizar uma crítica consistente da própria situação econômica e política - ou de outras ordens - em que está inserida. Trabalhando a maior parte do dia, formal ou informalmente, e sofrendo os jogos semióticos midiáticos de saturação da informação, a parcela maior da sociedade acaba sendo agenciada na tomada de decisões - especialmente as decisões eleitorais - que resultam em favorecimento dos próprios grupos hegemônicos que controlam as informações e que estão se submetendo e se ajustando à nova ordem globalitária. Portanto, sem a democratização da educação e da informação, a cidadania fica obliterada, pois embora pareça haver liberdade no ato de escolher, as escolhas acabam sendo induzidas por aqueles que selecionam e fornecem algumas informações e não outras - pois como nos ensinou Charles Sanders Peirce, todo signo representa apenas parcialmente seu objeto dinâmico e o pode representar falsamente(104).

O último aspecto é a condição ética do exercício da liberdade, isto é, o desejo da liberdade do outro, como desejo fundamental. Sem a condição ética, o exercício da liberdade de alguns pode aniquilar a liberdade de muitos ou vice-versa. Neste caso, a moral e o direito impõem certos padrões para o comportamento pessoal e social que negam às pessoas a justa realização de sua liberdade - de sua condição feminina, homossexual, negra, indígena, infantil, etc. - quanto reproduzem privações sociais. Assim, por exemplo, a propriedade privada da riqueza - que embora não cumpra o critério ético é assegurada pelo direito - é o que provoca as privações da maioria que está privada de realizar a sua liberdade mais elementar de comer, morar ou trabalhar de modo dignamente humano. Não se trata de afirmar que a liberdade de um comece onde termina a liberdade do outro. A liberdade de um só é eticamente exercida se promove a liberdade do outro, se resulta em bens materiais e culturais que ampliem o campo de possibilidades de realização da liberdade pública ou se realiza o bem do indivíduo - assegurada a sua propriedade privada - sem prejudicar a realização do bem dos demais. Desse modo, a ética que preserva, promove e realiza a liberdade se assenta no desejo do outro viver esta mesma liberdade e no imperativo de promovê-la desse modo. Assim, a liberdade privada não pode realizar-se aniquilando as condições de possibilidade da liberdade pública; e esta, por sua vez, deve respeitar qualquer livre exercício humano da liberdade privada, desde que tal liberdade privada - inclusive no que se refere à propriedade econômica do indivíduo - não inviabilize outros exercícios de liberdade pública e privada eticamente orientados do conjunto da sociedade ou de outros indivíduos em particular.

Enfrentando, nos anos recentes, o cerceamento cada vez maior do exercício da liberdade no Brasil, foram os movimentos sociais-populares (sem-terras, sem-tetos, mulheres, negros, portadores de deficiências físicas, estudantis, indígenas, homossexuais, ecológicos, de direitos humanos, por saúde, movimentos sindicais e muitos outros) e os partidos políticos de esquerda que - lutando pelas condições materiais, políticas, educativas e informacionais para o exercício da liberdade pública e privada - promoveram um amplo debate sobre as exigências da ética na política, da ética na economia e da ética na cultura.

A cidadania foi definida como um eixo de lutas de movimentos populares do Brasil na Plenária da Central de Movimentos Populares que se realizou em 1990 em Brasília. Para os movimentos sociais-populares que, em 1995, entregaram ao presidente Fernando Henrique Cardoso um conjunto de medidas que poderiam ser adotadas para enfrentar os graves problemas sociais em nosso país, a realização da cidadania implica na superação de valores morais e dispositivos legais que renegam os seres humanos na sua dignidade e a garantia de condições materiais para moradia, trabalho, saúde, transporte, educação, lazer e informação que possibilitem às pessoas viverem com dignidade. Contudo, este apelo dos setores populares da sociedade civil para que as políticas públicas promovam a ética, que tem por objetivo a realização das liberdades pública e privada e não a manutenção de uma política que beneficia os especuladores financeiros e ao grande capital internacional, acabou negado pela resposta governamental pragmática de que, para estas atividades de geração de emprego e renda e de políticas sociais, o governo não tinha como liberar mais recursos.

Sob a perspectiva da esquerda socialista, ecológica e democrática, trata-se de efetivar um projeto político que seja ecologicamente sustentável, que inverta as prioridades do desenvolvimento econômico, que promova a desconcentração da riqueza, do poder político, do domínio dos canais de mídia e que socialize a cultura; que não tenha por objetivo garantir o acúmulo privado de riqueza por agentes econômicos, mas ao invés disso, a superação das privações da maioria para o exercício de sua liberdade, isto é, garantir politicamente que todos tenham acesso às mediações materiais para realizar a sua liberdade com a dignidade humana exigida. Este projeto, que se chama socialismo democrático, está sendo reinventado a partir de diversas realidades históricas - como já o reinventam, cotidianamente, muitos partidos e movimentos socialistas e ecológicos no mundo todo - com a contribuição de todos os que não concordam com a lógica da negação da liberdade promovida pelo modelo neoliberal, buscando uma alternativa política real ao atual processo capitalista de globalização mundial.

Como uma dessas contribuições, pode-se listar alguns aspectos formulados na última década pelos setores que compõem o campo democrático e popular no Brasil. Seu projeto político, de caráter ecológico e socializante, que foi sucessivamente derrotado nas eleições presidenciais de 1989 e 1994, mas que vem sendo parcialmente implementado em várias prefeituras e em alguns estados brasileiros, em linhas gerais, sob o aspecto econômico, pode ser parcialmente caracterizado nos seguintes aspectos: a) reordenar os parâmetros de produção, acumulação e consumo, reorientando o conjunto das relações de trabalho tendo em vista promover um crescimento ecologicamente sustentável com distribuição de renda, gerando-se um forte mercado consumidor interno, incorporando a ele as massas sociais atualmente empobrecidas; b) restaurar as condições de funcionamento do Estado, desprivatizando-o, isto é, colocando o Estado a serviço do interesse público, suprimindo a sua utilização por grupos privados, que dele se beneficiam de várias formas, seja com a compra subsidiada de produtos das estatais abaixo do preço de custo, seja com o superfaturamento de obras públicas, ou ainda, com o recebimento de repasses de verbas para realizar serviços públicos sem o devido controle ou fiscalização; c) regulamentação e orientação social do mercado, intervindo-se juridicamente sobre oligopólios, monopólios e cartéis, estabelecendo-se estoques reguladores, promovendo-se diversas formas de propriedade dos meios de produção, incentivando-se a produção cooperativada e as pequenas empresas; d) redefinir o padrão de financiamento doméstico e internacional da economia, renegociando, após uma auditoria, a dívida externa sob condições estabelecidas a partir de um projeto que assegure o desenvolvimento nacional, e alongando o perfil da dívida interna, com títulos que tenham resgate a prazos mais longos; f) modificar as normas de incorporação do progresso técnico, cabendo ao Estado um ativo papel no campo da pesquisa e desenvolvimento tecnológico em áreas consideradas estratégicas; g) modificar as formas de inserção internacional do país, tanto no campo econômico quanto político, fortalecendo alternativas coletivas envolvendo o conjunto dos países da América Latina e das nações do Terceiro Mundo; h) realizar reformas estruturais que tanto promovam o acesso a terra rural e urbana aos despossuídos quanto a geração de empregos; i) desenvolvimento de políticas ecológicas de preservação da biodiversidade e que promovam desenvolvimento sustentável; j) adoção de programas de distribuição de renda, tais como, programas de renda mínima e "bolsa escola", entre outros. Por outro lado, sob o aspecto político, o seu projeto de democratização substancial do país propõe: a) a radicalização da democracia através da implantação e implementação de novos mecanismos de participação direta e representativa da população; b) gestão popular dos bens, serviços e equipamentos públicos; c) participação popular no planejamento permanente das cidades e no desenvolvimento urbano; d) democratização da informação, da cultura e do lazer em todos os níveis - seja aprimorando as bases públicas de dados e disponibilizando-as para o livre acesso dos cidadãos, seja desconcentrando os meios comunicativos garantindo o direito de antena a comunidades locais, multiplicando-se rádios e tevês comunitárias, seja incentivando a produção e veiculação cultural local em suas diversas formas de expressão; e) construção de novas relações micropolíticas no cotidiano enfrentando o racismo, o machismo e as demais formas de preconceito, afirmando valores éticos como a solidariedade, a busca da justiça e o combate a toda forma de discriminação negativa; f) a construção do poder popular, pela viva participação organizada dos setores populares da sociedade civil.

Cumpre destacar que esses elementos citados referem-se tão somente a alguns aspectos econômicos e políticos aos quais se articulam um conjunto de propostas no campo da educação e cultura que supõem, sempre, a viva participação democrática da sociedade civil - com ênfase na participação dos setores populares que parcialmente a compõem - em sua elaboração e detalhamento.

A estratégia geral apresentada para realizar os elementos básicos dessa proposta compõe: o acúmulo de forças em torno de um projeto político democrático e popular, que apresenta um conjunto de reformas estruturais, mas parciais, de caráter socializante, a consolidação da hegemonia em torno deste projeto tanto com a eleição de parlamentares e governantes que o defendam em todos os níveis quanto com o crescimento e consolidação de organizações e entidades populares da sociedade civil, e especialmente, com o fortalecimento de movimentos de massa no campo e na cidade. A consolidação do Governo Democrático e Popular, segundo esta compreensão, permite o avanço das políticas públicas no sentido de promover transformações mais estruturais nos campos da economia, política e cultura, transformações essas que seriam garantidas por uma forte base de sustentação parlamentar e pela própria população organizada e mobilizada em defesa da cidadania.

Assim, a ampliação das garantias políticas do exercício das liberdades pública e privada tem como contraface o exercício da liberdade política dos cidadãos em posicionarem-se frente às contradições que perpassam as relações sociais, pois mesmo que as liberdades políticas estejam amplamente cerceadas - como nos períodos de ditadura - ou extremamente formalizadas - como sob os regimes globalitários - mesmo assim é possível optar-se pela resistência e pela proposição de um modo distinto de organizar-se a sociedade em suas múltiplas dimensões, em especial no que tange aos conflitos sociais nas esferas produtiva, reprodutiva e cultural.

Conclusão 

O mundo já não é mais como foi o de antes. Ouve-se falar num momento que as grandes corporações americanas estão demitindo dezenas de milhares de trabalhadores de olhos azuis e tranferindo suas operações para os países morenos, de mão-de-obra mais barata.

Países tão diferentes como a Finlândia e Espanha enfrentam taxas de desemprego de quase 20%, enquanto os pequenos tigres da Ásia, como Cingapura, Taiwan e Hong Kong, ou alguns aprendizes, como Malásia e Tailândia, são apontados como modelos de agressividade econômica.

No mundo do trabalho internacionalizado o que mais há é desemprego. E quen fica à margem desse giro do captalismo está condenado ao atraso e a miséria. Mas quem se adapta a ele nem por isso se sai bem. Vide o México, que cumpriu à risca a receita ortodoxa para integrar sua econômia ao mundo avaçado e quebrou sua bolsa.

A outra faceta do processo de Globalização está na indústria. Tomem-se as dez maiores corporações mundiais: Mitsubishi; Itochu; Sumimoto; General motors; Marunbeni; Ford; Exxon; Nissho Shell. Estas empresas faturam 1,4 trilhões de dólares, o que equivale ao PIB conjundo de: Brasil; México; Argentina; Chile; Colônbia; Peru; Uruguai; Venezuela.

Metade dos prédios, máquinas e laboratórios desses grupos e mais da metade de seus funcionários em unidades for do país de origem e 61% do seu faturamento é obtido em operações no estrangeiro.

A força dessas corporações e sua atuação geográfica mudaram o enfoque do jogo econômico. No passado, quem fazia as grandes decisões economicas eram os fovernas. Agora são as empresas e estão decidindo basicamente o que, como. quando e onde produzir os bens e serviços utilizados pelos seres humanos.

Para conseguir preços melhores e qualidade de mais alta tecnologia em sua guerra contra os concorrentes, as empresas cortaram custos. Isto é empregos, e ainda aumentaram muito os seus índices de automação, liquidando mais postos de trabalho.

Nos estudos economistas, deu-se o nome de "desemprego estrutural" a essa tendência. O desemprego estrutural é um processo cruel porque significa que as fábricas robotizadas não precisam mais de tantos operários e os escritórios podem dispensar a maioria de seus datilógrafos, contadores e gerentes. Ele é diferente do desemprego que se conhecia até agora, motivado por recessões, que mais cedo ou mais tarde passavam. Os economistas apontam no desemprego estrutural um paradoxo do sistema de Globalização. Ele se ergueu para produzir coisas boas e baratas, vendidas numa escala planetária, fabricadas em grande parte por robôs, que são orientados por computadores. Mas por cortar o emprego das pessoas e sua renda não terá para quem vender seus carros reluzentes e seus computadores multimídia.

Segundo os críticos, a outra nota ruim da Globalização está no desaparecimento das fronteiras nacionais. Os governos não conseguem mais deter os movimento do capital internacional. Por isso, seu controle sobre a política econômica interna está se esgarçando. A quebra mexicana no final de 1994 é o exemplo mais marcante dessa perda de controle. Assim que o governo desvalorizou o peso frente ao dólar, os investidores sacaram vários bilhões aplicados no país e o México precisou de um pacote de socorrido FMI e do governo estadunidense. Os governos também estão perdendo a capacidade de proteger o emprego e a renda das pessoas. Se um país estabelece uma legislação que protege e encarece o trabalho, é provavelmente excluído da lista de muitos projetos de investimento.

Há, enfim, uma perda de controle sobre a produção e comercialização de tecnologia, o que nos tempos da Guerra Fria, seria impensável. Naquela época, a tecnologia estava ligada à soberania dos países.

No espaço de duas gerações, o mundo ficou muito complicado. Os que completam 40 anos em 1997 nasceram sob o signo do SPUTINIK, a pequena bola de metal, dotada de um transmissor de rádio, que os russos na órbita terrestre pela primeira vez, detonando a corrida espacial. Naquela época um computador pesava 30 toneladas e era chamado de cérebro eletrônico. Os aviões a jato eram uma novidade e a distância entre os países, um obstáculo difícil de transpor. O Brasil não conhecia o hamburguer, não tinha indústrias automobilísticas, nen supermercados e a capital ficava no Rio de Janeiro.

E nesse momento, no governo Fernando Henrique após quatro anos de seu governo, entretanto, o Brasil está mais distante da realização da justiça social ou da promoção da igualdade, a economia nacional - com taxas de juros elevadíssimas - é refém do capital financeiro e a democracia do país está cada vez mais virtualizada.

O país bate recordes de desemprego, a inadimplência nos aluguéis fez aumentar o número de despejos e da população morando nas favelas e nas ruas, ao passo que, a educação e a saúde receberam, em geral, menos verbas a cada ano e a campanha contra a fome, implementada pela sociedade civil, continua denunciando índices trágicos. As reformas de estrutura visavam "dar à população mais empregos, melhor educação, saúde, habitação e alimentação". O raciocínio aí subjacente, contudo, opera com vetores da segunda revolução industrial e não da atual, que se desdobra com a Tecnologia da Informação. Se viessem ao país para explorar o mercado consumidor interno, a estratégia deveria ser ampliar o mercado consumidor interno e a poupança interna e não a estratégia de premiar o capital financeiro internacional permitindo a evasão da riqueza do país com déficites colossais.

Assim, a globalização alterou a vida das pessoas, desarramjou governos que ainda não estão preparados para o crescimento, para o desenvolvimento com justiça social e com uma economia produtiva. Ela provocou uma Com esforço e um grau de alta ansiedade, os brasileiros estão deixando o seu isolamento para entrar nessa corrente. A ginástica pode ser cansativa e dolorida, mas há outra maneira de ingressar no futuro. Ou de não comer poeira ficando no passado.

O processo econômico sempre sofreu suas criticas de adaptação, mas as próprias crises sempre produziram as soluções.

Bibliografia

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