Fábio
Barbosa dos Santos Monografia
apresentada no curso de Organização, Sistemas
e Métodos das Faculdades
Integradas Campos Salles,
sob orientação do Professor Mauro
M. Laruccia (Disponível
na rede desde novembro de 2000)
O
termo Ciberespaço começa a se infiltrar no
nosso vocabulário cotidiano e é cada vez mais
freqüente usá-lo para indicar a
relação entre o homem e o
computador. O
ciberespaço pode ser associado a interconexões
entre diferentes computadores, redes de computadores e
interconexões entre diferentes redes. A soma total
dessa rede de redes tem sido referida como Internet, que
seria ao nosso ver o estado mais avançado da
noção de ciberespaço. Veja algumas
características do ciberespaço: é um
espaço eletrônico, o qual acessamos
através do computador, onde se trabalha com dados,
informações e memória coletiva,
agilizando a interação e a
comunicação entre indivíduos e grupos,
independentemente do tempo e do espaço. Gibson
citado em Monteiro (1997), retrata o ciberespaço como
uma visão de desesperança, de
aflição, de alucinação e a uma
dimensão negativa do futuro da humanidade. Sua
idéia de ciberespaço mostra uma
transformação fundamental da
relação dos homens com as máquinas,
onde o corpo torna-se literalmente "alimento" para a
implantação de projetos de
informação. Ele
cita em sua obra: "O Cyberspace. Uma
alucinação consensual,
vivida diariamente por bilhões de operadores
legítimos, em todas as nações, por
crianças a quem estão ensinando conceitos
matemáticos... Uma representação
gráfica de dados abstraídos dos bancos de
todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade
impensável. Linhas de luz alinhadas que abrangem o
universo não espaço da mente; nebulosas e
constelações infindáveis de dados. Como
luzes de cidade, retrocedendo." (Gibson,
1991:57) Já
Benjamim L. Franklin, define Ciberespaço, como um
consenso de virtuais, um "lugar" legítimo,
qualificado pelos usuários como sendo real, pois
acreditam nele, fazem negócios através dele,
namoram, trocam, simbolizam e nele vivem partes de suas
vidas. Castells
ressalta que em razão da convergência da
evolução histórica e da
transformação tecnológica, entramos em
um modelo genuinamente cultural de interação e
organização social. A informação
representa o principal ingrediente de nossa
organização social, e os fluxos de mensagens e
imagens entre as redes constituem o encadeamento
básico de nossa estrutura social. Para
Michael Benedikt (1994), editor do livro "Cyberspace First
Steps", o ciberespaço se relaciona com a realidade
virtual, a visualização de dados, as
interfaces gráficas, redes, multimídia,
hipertexto e outras palavras que capturam o recente
desenvolvimento da tecnologia da computação.
Segundo Benedikt, essas novas tecnologias estão sendo
constituídas para possibilitar, simplesmente, um
vasto aumento no fluxo de informação,
limitando-se somente ao movimento da
informação. Confirmando
o autor acima, Heim diz que vivemos numa era do
ciberespaço, marcada por um mundo computadorizado,
onde transitamos num espaço de
informações. Seu ciberespaço traduz um
mundo artificial e ficcional, ou seja, um mundo feito
exatamente de informações. Conforme ele,
habitamos o ciberespaço quando nos sentimos mover
através da interface informática, em um mundo
relativamente independente, com suas próprias
dimensões e regras. A interface refere-se à
conexão humana com as máquinas, especialmente,
o ingresso humano em um ciberespaço fechado em si
mesmo, com um desfecho sinistro para o homem. O
ciberespaço, para Lévy, designa o universo das
redes digitais como lugar de encontros e de aventuras,
terreno de conflitos mundiais, nova fronteira
econômica e cultural. Ciberespaço designa menos
os novos suportes de informação do que os
modos originais de criação. Constitui um campo
vasto, aberto, ainda parcialmente indeterminado, que
não se deve reduzir a um só de seus
componentes. Ele tem vocação para
interconectar-se e combinar-se com todos os dispositivos de
criação, gravação,
comunicação e simulação.
"Para avaliar as "nova tecnologias", temos que nos
concentrar em evocar as enfovias, o trabalho à
distância, os compact discs interativos e os jogos em
realidade virtual". Para
guiar a construção do ciberespaço, para
ajudar a escolher entre as diferentes
orientações possíveis, Lévy
propõe um critério de escolha
ético-politico, uma visão organizadora.
Deveriam ser encorajados os dispositivos que contribuem para
a produção de uma inteligência ou de uma
imaginação coletiva: os instrumentos que
favorecem o desenvolvimento ao laço social pelo
aprendizado e pela troca de saberes; os agenciamentos de
comunicação capazes de escutar, integrar e
restituir a diversidade; os sistemas que visão o
surgimento de seres autônomos e as engenharias
semióticas que permitem explorar e valorizar, os
jazigos de dados o capital de competência e a
potência simbólica acumulada pela
humanidade. Finalizando
gostaríamos de citar que o termo ciberespaço
foi inventado por Gibson, mas foi Bush e Engelbart quem
projetou as primeiras ferramentas ciberespaciais como o
Memex, o hipertexto, tela com múltiplas janelas o
mouse e especialmente as redes de computadores, que é
a principal porta do ciberespaço. E,
subitamente, estamos nós perante a máquina...
e pela máquina, perante a Internet, que não
é nem a oralidade, nem a escrita, nem a
televisão ou o rádio, nem o simples resultado
do complemento destes suportes de comunicação.
Sons, palavras e imagens num universo virtual.
Ciberespaço, espaço cibernético,
espaço virtual, espaço sideral. Virtualização Virtualizar,
segundo Pierre Lévy, citado por Monteiro constitui-se
em "estender" um determinado processo, uma
ação, além dos seus sujeitos,
relativizando suas questões no tempo e no
espaço. Está intimamente associada à
busca da hominização. As mudanças
desestabilizantes nas técnicas, na economia, nos
costumes e nas formas de existir seriam simplesmente mais
uma etapa da aventura humana onde o virtual aponta seus
vetores com mais intensidade. Diante das tendências de
encarar o processo de virtualização com um
olhar apocalíptico ou como uma salvação
aos males do mundo, Pierre Lévy propõe uma
terceira via sugerindo a compreensão da
virtualização em toda sua amplitude como
processo inseparável do ser humano. O
senso comum sobre o virtual, já está permeado
por possíveis respostas a esta questão. Alguns
vêem o virtual como uma
desmaterialização, perdendo a
noção do verdadeiro mundo. Outros acreditam
que o virtual é a verdadeira
panacéia. Para
o autor o mais importante, antes de predizer o apocalipse ou
a redenção pelo virtual, é buscar a
compreensão, é pensar acerca, é
problematizar o virtual. O virtual seria a dúvida, o
ponto de tensão, a hipótese. Mas
Lévy inicia seus argumentos identificando o arquivo
digital como um vetor do processo irreversível de
virtualização. Diz que até mesmo
é possível que se atribua um endereço a
um arquivo digital. Porém, esse endereço seria
transitório ou com pouquíssima
importância nesta era de Internet onde tudo parece
tão longe e tão perto. Fala
também que o abandono à presença
física na humanidade é muito anterior
às redes digitais e à realidade virtual.
Menciona que "a imaginação, a
memória, o conhecimento, a religião são
vetores de virtualização que nos fizeram
abandonar a presença muito antes da
informatização...". (p.20). Mesmo
que a noção de existência pareça
contrapor o que é virtual, pode-se pensar esta
existência a partir da etimologia da palavra. Existir
viria do termo latino sistere (estar colocado) e do sufixo
ex (fora de), assim poderia haver uma idéia de
existir como estar colocado fora de algo, fora de uma
presença, fora de uma existência física.
Lévy
argumenta esta idéia quando diz que o "aumento da
comunicação e generalização do
transporte rápido participam do mesmo movimento de
virtualização da sociedade, da mesma
tensão em sair de uma presença." (p.23)
No
espaço cibernético, onde há a
multiplicação desenfreada de espaços e
sites, tornamo-nos migrantes de um nó ao outro, de
uma rede a outra, não mais migrantes de
espaços geográficos, mas de espaços
virtuais. Tais espaços virtuais "se metamorfoseiam
e se bifurcam a nossos pés, forçando-nos
à heterogênese." (Lévy, 1996:23)
Lévy
aponta para a problemática sobre a questão da
identidade: "A virtualização não
é uma desrealização (a
transformação de um real em um conjunto de
possíveis), mas uma mutação de
identidade, um deslocamento do centro de gravidade
ontológico do objeto considerado: em vez de se
definir principalmente por sua atualidade (uma
"solução"), a entidade passa a encontrar a sua
consistência essencial num campo problemático.
Virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma
questão geral à qual ela se relaciona, em
fazer mutar a entidade em direção a essa
interrogação e em redefinir a atualidade da
partida como resposta a uma questão particular."
(Lévy, 1996:18) Mas
a virtualização, não é um
fenômeno restrito ao espaço informático.
Desde as cirurgias plásticas, até os
transplantes, os implantes de próteses,
ultra-sonografia para identificação do sexo do
bebê, tudo faz parte de uma nova etapa e
sensação da virtualização do
corpo Virtualizamos ainda as percepções, desde
as auditivas (telefone), as visuais (tele-presença,
TV) bem como as táteis (feedback, joystick dos
vídeos game). Outra
noção existente na argumentação
de Pierre Lévy diz respeito ao hipertexto enquanto
virtualização do texto. A leitura do texto
seria uma atualização, enfim um ato criativo
de construção de sentidos. Para o autor
"ler um texto é reencontrar os gestos
têxteis que lhe deram seu nome" (p.36), ou seja,
encontrar a problemática do texto. O trabalho da
leitura seria recosturar o texto onde possa se estabelecer
um sentido. Somente com a entrada da subjetividade humana,
que há a virtualização. O
hipertexto é virtual, pois a subjetividade humana
entra em processo ao acrescentar ou modificar links. Enfim,
a partir do hipertexto, conforme anuncia Lévy, toda
leitura tornou-se um ato de escrita. Sugere
ainda que a escrita pode ser vista como processo de
virtualização, ou seja, a
separação parcial de algo de um corpo vivo,
colocação em comum. Pierre Lévy
argumenta que "Virtualizante, a escrita dessincroniza e
deslocaliza. Ela fez surgir um dispositivo de
comunicação no qual as mensagens muito
freqüentemente estão separadas no tempo e no
espaço de sua fonte de emissão..." (p.38)
Falando
agora sobre virtualização do mercado on line,
já não conhece distâncias
geográficas ou contingências temporais.
Produtores e consumidores parecem estar tão
próximos. Assim como a virtualização do
texto mistura a noção de leitor à
noção de autor, a virtualização
do mercado mistura a noção clássica de
produtor e consumidor. Para
Lévy, a virtualização da
ação na multiplicação das
técnicas aparece quando o autor menciona o homem
pré-histórico que vê um galho de
árvore, "reconhece-o pelo que é (...) Ele
envesga os olhos sobre o galho e o imagina como
bastão. O galho significa bastão. O galho
é um bastão virtual.
Substituição. Toda a técnica
está fundada nessa capacidade de
torção, de desdobramento ou de
heterogênese do real." (p.92) Vislumbramos
uma nova relação com o mundo, com a cultura,
com o conhecimento. O virtual, como escreve Lévy
(1996), "Não se presta como contraponto ao real,
de onde se conclui que o virtual não significa fora
da realidade, como muitos apregoam. O virtual, por outro
lado, se contrapõe ao atual, sendo que este
não mantém uma relação de
determinação com aquele. Isso quer dizer que
uma atualização não nos leva de volta
à virtualização que a gerou, ao
contrário da relação do real com seu
contraponto, o possível, que mantém uma
relação de causa e efeito perfeitamente
reversível, num processo linear (... ), por isso,
previsível." A
atualização é sempre inédita,
inventiva e se constitui como território, em termos
de uma resposta a um problema anterior. Virtualizar
significa potencializar esta atualização, no
sentido de inscrevê-la em um todo maior, colocar nela
uma interrogação que a faça tornar-se
parte de um complexo problemático superior, o que
levará, num espiral infinito, a novas
atualizações e novas
virtualizações. Segundo
Monteiro (1997): "O primeiro indício da
virtualização - é a
sensação de desassossego que sentimos frente
às constantes mudanças. A velocidade do
sistema online torna o tempo para tudo mais estreito. A
rapidez com que uma idéia se atualiza e é
substituída por outra, parece ser a mesma que faz com
que tenhamos que nos reconstruir dia a dia. Se
virtualizar-se é sair da presença, a
velocidade é, então, um ingrediente
efetivamente importante. Reflete claramente a
descartabilidade das coisas no mundo atual. E o hipertexto
subjetiva a sensação do Ser descartável
que não pode agarrar-se à algo pelo risco de
ser deletado a qualquer momento." (p.27). Lévy
(1996), citado na tese de Rogério Antonio Monteiro
conclui: (...) "a virtualização da
sociedade nas novas tecnologias da
comunicação, do transporte, da medicina, da
economia e da política, repercutindo em uma
subjetividade que prima pela mobilidade, que transita pelo
diferente. A Internet, o enorme mercado do turismo, os
transplantes de órgãos, as plásticas
estéticas, o esporte em alta, o mercado do
conhecimento e da informação... reflexos de
uma virtualização que ainda entra em choque
com um tipo de subjetividade que reluta, hesitante, em
deixar o velho território, uma subjetividade
às vezes saudosista, que teme correr riscos, uma
subjetividade da propriedade privada. A subjetividade
virtualizada se desprende da identidade, pois apesar de se
atualizar &emdash; que significa exatamente construir
território, o que também é essencial
&emdash; não mais se satisfaz em agarrar-se a ele.
Está o tempo todo se deixando tocar pelo fluxo de
forças que vibram constantemente em todos os
sentidos. Uma subjetividade ativa, atuante, participativa,
móvel, que ama a tempestade, a deseja e a provoca. O
ciberespaço é o habitat do desejante."
(p.28 ). "A
informática é a mais virtualizante das
técnicas por ser também mais gramatizante"
(Lévy, 1996:88) A
Metáfora da Ciberpédia O
surgimento de novas técnicas de
produção de linguagem, desde o alfabeto,
até os dispositivos informáticos
contemporâneos, indica que alguma habilidade humana se
amplifica, se modifica e se expande. Cada nova
técnica, ou meio de produção de
linguagem, afeta de modo singular o pensamento
humano. Na
cultura oral, o conhecimento é estocado, na
memória das pessoas. Quase todo o edifício
cultural está fundado sobre as lembranças dos
indivíduos, que dependem completamente da
memória para a preservação e
transmissão de saberes. O conhecimento é
preservado através de rituais e
tradições, memorizando os mitos e
histórias, transmitindo-o de geração a
geração. À
medida que começamos a registrar nossas imagens e
impressões de mundo em memória artificial ou
à medida que passamos da ideografia ao alfabeto e da
caligrafia à impressão, o acúmulo dos
registros, isto é, o aumento do corpus
transmissível, conforme Lévy (1993:94),
"distendem o círculo da oralidade até
quebrá-lo." Desse
modo, as impressões humanas começaram a se
encarnar em dispositivos para durar. Daí,
então, a memória se separa do sujeito e da
comunidade e os registros se tornam estocados,
disponíveis e consultáveis, de modo que
não fica mais restrito á
situação de co-presença, mas ocorre uma
extensão de acessibilidade das
informações no tempo e espaço.
Entretanto, com o avanço das técnicas de
comunicação e registro, ampliou-se
notavelmente o alcance do estoque compartilháveis
de conhecimentos. A
preocupação em armazenar e organizar o
conhecimento provém de milênios. Com a
propagação da escrita seria possível
perpetuar ações, feitos e
realizações para as gerações
futuras. Desta forma, foram criadas as
instituições-memórias: arquivos,
bibliotecas e museus. As bibliotecas marcam etapas
importantes na aventura intelectual humana. Sua
participação na vida dos povos e sua
evolução no transcorrer dos séculos
indicam a importância e o poder desta
instituição na organização do
conhecimento e na preservação de nossa
memória cultural. O
termo biblioteca conota uma instituição para a
coleção, organização e
manutenção de conhecimentos. As bibliotecas
coletam informações do passado e as preservam
para o futuro. Atribuímos ás bibliotecas a
quase sagrada responsabilidade de também disseminar o
conhecimento. Elas podem ser verdadeiros laboratórios
para ajudar a responder sobre questões
tecnológicas e, especialmente, o que imaginamos ser o
ciberespaço: uma
instituição-memória, onde rolam objetos
de saber. O
mais importante, a partir de Bush e Licklider, autores
citados em Monteiro (1997) seria o nascente
ciberespaço como memória coletiva; isto
é, foi exatamente na biblioteca onde ocorreram suas
imaginações: ações e
direções para a tecnologia da
informação. De fato, ambos inventaram
ferramentas para navegar no espaço do conhecimento. E
também construíram uma direção
para a tecnologia da informação e ainda
contribuíram na constituição de um tipo
de ciberespaço nascente: a "Digital Library"
(Biblioteca Digital). As
pessoas familiarizadas com as bibliotecas devem
descrevê-las como um objeto que, além de
mantenedora de conhecimento, são uma estrutura
composta de tijolo, pedra cimento, vidro, madeira, portas,
janelas, fileiras de arquivos e conjuntos de estantes
recheadas de cartões, jornais, revistas,
periódicos e livros; e que suas atividades
estão concentradas dentro do limite da estrutura
física. A codificação digital e a
proliferação das redes de computadores
propiciaram o começo da idéia de biblioteca
digital. A
origem da biblioteca digital, remonta a pesquisadores como
Bush e Licklider, que desenvolveram esforços, a fim
de construir ferramentas para a constituição
de novos modos para registrar, organizar, indexar,
recuperar, visualizar informação,
especialmente nas bibliotecas. Bush, diz que o conhecimento
humano está crescendo em uma prodigiosa
extensão e excedia enormemente a habilidade da
sociedade em fazer uso dele. Para ele, o valor do
conhecimento não está exatamente na sua
raridade, mas em nossa habilidade para encontrá-lo e
organizá-lo. O
futuro próximo imaginado por Licklider era uma
biblioteca para o ano 2000. A equipe concordava com Bush que
o conhecimento produzido pela humanidade estava sendo criado
e ampliado para além da habilidade da sociedade em
fazer uso dele. Assim, considerou que os computadores
poderiam ser projetados para atender aos crescentes
problemas, envolvendo a informação. Licklider
e sua equipe anteciparam o futuro, projetando
tendências na tecnologia. Licklider foi um dos mais
influentes pesquisadores da informação
inventou a biblioteca digital, ao projetar, interpretar e
utilizar as inovações tecnológicas que
estavam emergindo. A tecnologia está agora
suficientemente desenvolvida para implementar muitas das
sugestões de Licklider, tanto que, agora, temos
atualizações concretas de suas visões,
na forma do computador pessoal e da Internet. Com a
biblioteca do futuro, temos a oportunidade de perceber como
uma tecnologia particular pode ser deliberadamente
direcionada e orientada. Licklider
recomendou que futuras bibliotecas deveriam ter
iniciativa em disseminar o conhecimento recentemente
adquirido, atuando não como uma organizadora de
coleção de documentos "passivos", mas como uma
potente e pró-ativa fonte de
informação. Portanto,
muitas bibliotecas construídas são apenas
estoques dentro do computador: os bancos de dados
eletrônicos. Entretanto, a função
básica de todas as bibliotecas é a mesma: elas
existem para coletar conhecimentos, organizá-los,
preservá-los e torná-los disponíveis
à comunidade. A biblioteca digital pode ser
considerada exatamente uma instituição
memória da sociedade, uma
instituição mantenedora de conhecimentos, que
pode enriquecer nossas intuições sobre a nova
estrutura ciberespacial em
formação. Não
obstante o fato de que a biblioteca digital, como
instituição memória, possa ser uma
interessante metáfora do ciberespaço, contudo,
muitos diferentes tipos de registros podem ser gravados a
partir do digital Esses registros podem ser não
apenas textos e ilustrações, mas também
músicas, animações, filmes e
jogos. Tal
como a biblioteca, os museus podem ser excelentes
laboratórios para ajudar a discutir as
questões tecnológicas, e também ajudar
a construir um termo para designar o que imaginamos ser o
ciberespaço. Embora
as instituições-memórias, como a
biblioteca e o museu, vêm influenciando as
imaginações sobre o ciberespaço, a
metáfora da biblioteca digital e do museu digital, no
entanto, pode nos conduzir a determinados mal entendidos se,
entretanto, negligenciarmos o que há de diferente no
ciberespaço. Embora a biblioteca e o museu sejam
instituições referências para o devir do
ciberespaço, de modo que o caracteriza como
espaço de saber, no entanto, ao inventar um
significado para o ciberespaço, nós não
podemos pegar simplesmente a imagem de uma biblioteca, ou
museu, digitalizá-la e assumir que a imagem
resultante reflita o que o ciberespaço é ou
pode ser. O
ciberespaço favorece as conexões entre as
instituições memória da sociedade
(bibliotecas, museus, videotecas), porém, ao
associá-lo a uma instituição
especifica, perderemos o que ele tem de mais
interessante: acolher os diversos objetos coletivos de
saber. "Hoje,
a informação disponível on-line ou no
ciberespaço em geral compreende não apenas o
estoque" desterritorializado de textos, de imagens e de sons
habituais, mas igualmente pontos de vista hipertextuais
sobre esse estoque, bases de conhecimentos com capacidades
de inferência autônomas e modelos digitais
disponíveis para todas as simulações.
Além dessas massas de documentos estáticos ou
dinâmicos, paisagens de significações
compartilhadas coordenam as estruturações
subjetivas variadas do oceano informacional."
(Lévy, 1996:115). Além
da biblioteca e do museu, o ciberespaço também
acolhe, através de "electronic mail" (correio
eletrônico) e vídeo-conferência,
discussões compartilhadas da comunidade
eletrônica. Os grupos de discussão podem ser
organizados em uma comunidade local ou global, para discutir
vários assuntos. Uma
comunidade virtual se constrói através de
afinidades de interesses ou de conhecimentos, através
da comunhão de projetos, num processo de
cooperação e de troca. Independentemente das
proximidades geográficas ou de seus vínculos
institucionais. Ela não é irreal,
imaginária ou ilusória. Trata-se de uma
coletividade mais ou menos permanente, que se
constrói e se organiza através do novo correio
eletrônico mundial. Acreditamos
que o desejo da cibercultura emergente não se baseia
nem em vínculos territoriais, nem em laços de
poder, mas em torno de interesses comuns, na comunhão
do saber. Este
novo espaço de saber pode ser denominado de
ciberpédia. Essa expressão seria, no
fundo, muito mais própria para descrever os
fenômenos de comunicação coletiva e da
memória coletiva posta em ato no ciberespaço:
colaborativa dinâmica e reorganizada em tempo real por
interpretações. O termo ciberpédia foi
inventado para combinar os termos cibernéticos e
enciclopédia. A palavra cibernética origina-se
da palavra grega kybernytiky, ou seja, a arte de governar
navios, que seria um atributo do timoneiro. É o
timoneiro quem controla o curso da embarcação,
cuida da manutenção da rota, estabelece
relações entre as mensagens do capitão
e as obtidas no ambiente; isso implica capacidade para
enfrentar as correntes marítimas ventos, ondas,
redemoinhos. A cibernética é reinventada sobre
trabalhos como os de Wiener (1948), tendo como
palavras-chave "comunicação" e "controle", nos
organismos ou nas máquinas, nos seres vivos ou grupos
sociais. A
cibernética surgiu predestinada a estabelecer
relações entre as várias
ciências, no sentido de preencher tanto os
espaços vazios interdisciplinares não
pesquisados por nenhuma ciência, quanto permitir que
cada uma utilizasse para o seu desenvolvimento cinco
conhecimentos elaborados pelas demais ciências. A
cibernética começou assim, como uma
ciência interdisciplinar, isto é, uma
ciência de conexão entre as outras
ciências. Quanto
à enciclopédia, os gregos ao que parece,
entenderam o termo enciclopédia como
instrução num sistema completo ou
círculo (enkyklo) de aprendizagem (paideia). A
expressão corresponde a educação geral
ou completa. Enciclopédia é o nome que se
dá a um ou mais livros contendo
informações sobre pessoas, lugares,
acontecimentos e coisas. A enciclopédia refere-se ao
conjunto de conhecimentos sobre todas as artes, e
ciências, ou relativas a um ramo das mesmas. Desde a
Idade Antiga, o homem preocupou-se em publicar uma obra que
transmitisse o conjunto dos conhecimentos humanos sobre
todas as matérias. Sempre consistiu um problema do
homem a formação de uma obra que contivesse a
reunião dos saberes da ciência e da arte,
conforme podemos verificar nas citações a
seguir: "Propondo-se
transmitir os conhecimentos que todo honnête homme
(homem de bem) deveria ter no séc. XVIII, a
Encyclopédie abriga as ciências, a poesia,
às belas-artes, às artes liberais e as artes
mecânicas É notável a racionalidade com
que os autores procuram interligar as justificativas dos
diferentes assuntos valendo-se de remissivas. Observa-se
ainda uma preocupação pioneira com o sentido
da especialização intelectual, critério
que reuniu em torno do empreendimento alguns dos maiores
nomes da época. (...) O objetivo de uma
enciclopédia é o de reunir os conhecimentos
esparsos na superfície da Terra, expor o seu sistema
geral aos homens com que vivemos, a fim de que nossos
descendentes, tornando-se mais instruídos, tornem-se
ao mesmo tempo mais virtuosos e mais felizes."
"Nas
sociedades anteriores a escrita, o saber prático,
mítico e ritual é encarnado pela comunidade
viva. Quando um ancião morre, é uma biblioteca
que arde. Com o advento da escrita, o saber é
sustentado pelo livro. O livro - único, infinitamente
interpretável, transcendente, que supostamente tudo
contém: a Bíblia, o Alcorão, os textos
sagrados, os clássicos! Confúcio,
Aristóteles. Aqui é o intérprete que
domina o conhecimento." (Mirador,p.38) Um
terceiro tipo de conhecimento é perseguido pela
figura do sábio, do cientista. O saber não
é mais sustentado pelo Livro, mas pela biblioteca. O
saber é estruturado por uma rede de alusões,
perseguida desde sempre pelo hipertexto. Assim, o conceito,
a abstração ou o sistema serve para condensar
a memória e garantir um domínio intelectual
que a inflação de conhecimento já
põe em perigo. "A
desterritorialização da biblioteca a que
assistimos hoje talvez seja apenas um prelúdio
à aparição de um quarto tipo de
relação cognitiva. Por uma espécie de
retorno em espiral à oralidade das origens o saber
poderia ser novamente sustentado pelas coletividades humanas
vivas e não pelos suportes separados, fornecidos por
intérpretes ou sábios. Só que, desta
vez, ao contrário da oralidade arcaica, o
depositário direto do saber não seria mais a
comunidade física e a sua memória carnal, mas
o ciberespaço, a região dos mundos virtuais
por intermédio da qual as comunidades descobrem e
constroem seus objetos e reconhecem a si mesmas como
coletividades inteligentes." (Lévy, Folha de
São Paulo/Mais 22.02 98) Portanto,
concluímos que a palavra-chave na qual designamos
este espaço de saber do ciberespaço, é
a ciberpédia. Nesta nova organização do
conhecimento, vinculamos o "ciber" á
informática de comunicação e a
"pédia", á imagem da "totalidade" do
conhecimento. No entanto, a ciberpédia, onde um
novo coletivo está sendo organizado, vai além
da imagem e do texto característicos da
enciclopédia comum. Sendo
assim, podemos citar algumas características da
ciberpédia: nela encontramos ampla possibilidade de
acesso ao conhecimento, devido à informática,
telecomunicações e ao seu suporte
telemático, que acelera e amplifica a
geração, o processamento, o armazenamento e a
transmissão de conhecimentos (hardware e software). A
ciberpédia contém muitos estilos de
representação, de forma tão ampla como
existe no mundo. Em vez de um texto unidimensional ou
até uma rede de hipertexto, agora temos um
espaço dinâmico, interativo e multidimensional
de representação. Ela amplifica todas as
formas de expressão, combinando um largo
número de diferentes tipos: imagens estáticas,
vídeo, som, simulação interativa,
sistemas experts, realidade virtual, vida artificial. A
ciberpédia favorece as conexões entre os
conhecimentos, a navegação nos saberes e a
criação de aprendizagem colaborativa.
Além de ser um novo dispositivo de gestão e
transmissão de informação, contudo, a
característica importante da ciberpédia
está relacionada a modos originais de
criação e navegação no
conhecimento e as relações de
colaboração que ela conduz. Cada comunidade,
cada grupo de interesse, é efetivamente capaz de
construir sua própria ciberpédia, em
função de afinidades de interesses ou de
conhecimentos, através da comunhão de
projetos, num processo de cooperação e de
troca, independentemente das proximidades geográficas
ou de seus vínculos institucionais. Diante da
velocidade de aparição e de
renovação dos saberes, o conhecimento torna-se
um continuum, uma espécie de ampla rede
hípertextual - colcha de retalhos - sempre
retrabalhada, na qual cada ponto pode ser lincado ou
entrelaçado em um outro. A ciberpédia
desmaterializa os limites entre os diferentes tipos de
conhecimentos. Ela dissolve as diferenças entre as
especializações. Em vez da
organização do conhecimento de forma fixa, os
membros da comunidade virtual buscam, conectam, consultam e
exploram saberes perpetuamente em metamorfose. Diante
da perspectiva do ciberespaço como
instituição-memória da sociedade, que
foi um dos fios condutores para descrevê-lo, no caso
da informática, a memória se encontra
tão objetivada em dispositivos automáticos,
tão separada do corpo dos indivíduos ou dos
hábitos coletivos que perguntamos se a própria
noção de memória ainda é
relevante. Contudo,
é oportuno pensar a memória no
ciberespaço como memória coletiva posta em ato
dinâmica, em fluxo, colaborativa, retrabalhada em
tempo real por interpretações, diferente da
tradicional transmissão de conhecimentos como a
biblioteca comum. A
Aprendizagem Colaborativo no Ciberespaço A
imagem de um cientista trabalhando solitariamente em seu
laboratório, não reflete, atualmente, como se
produz conhecimento. A produção de
conhecimento, na verdade, é fruto da
ação coletiva de atores humanos e não
humanos. O
ponto essencial da discussão aqui reside no argumento
de que o ideal mobilizador da informática
contemporânea é a constituição de
inteligência coletiva, isto é, elaborar a
sinergia das competências e das
imaginações, qualquer que seja sua diversidade
e onde quer que elas se encontrem, favorecendo a
aprendizagem colaborativa em rede. Desta forma, a
intenção deste trabalho é avaliar o
ciberespaço enquanto um espaço propício
à produção de aprendizagem
colaborativa. Dentro
de um contexto global com resoluções
tecnológicas, aqui o que mais nos interessa é
certamente a dinâmica do conhecimento. É
certo que são muitas as mudanças que
estão se operando no mundo do conhecimento sob
impacto da irrupção tecnológica. As
inovações técnicas nos anos 90
estão tornando possível melhorar a qualidade
da Internet. Habilidade para transmitir imagens digitais e a
subseqüente habilidade para comprimir as
informações, a vasta expansão da
freqüência efetivada por transmissão sem
cabos, inovações em tecnologias de circuitos e
números de outros avanços, tem ampliado a
quantidade de informação e conhecimento que
podem tão logo se tornar transmitidas. Por
conseguinte, damos ênfase nas técnicas
ciberespaciais - na junção da
informática com as telecomunicações -
é porque elas dizem respeito ao potencial atual para
tradução, armazenamento e difusão do
conhecimento. Durante
centenas de anos, a produção de
informação aumentou por pequenos
acréscimos. No entanto, nos anos recentes, o processo
de inovação e renovação de
informação e conhecimento acelerou-se devido
os meios de difusão de conhecimentos
científicos que crescem em números,
fornecendo-nos um montante de artigos, que abastecera
inumeráveis bancos de dados. Os sistemas de
transportes, que permitem que os livros, periódicos e
correspondência em geral vençam fáceis e
rapidamente o espaço; o advento da tecnologia (redes
de
comunicações/telecomunicações)
tornou possível a difusão instantânea da
informação; as atividades econômicas
geradoras de dinamismos nos intercâmbios e uma
necessidade crescente de comunicação e de
informação e a dimensão social e
cultural que alfabetiza maciçamente as sociedades e,
por conseguinte, amplia espetacularmente o número de
receptores de informação. Seabra
(1994:75) citado em Monteiro a esse respeito fornece uma
série de indicações contundentes, tendo
em vista a espantosa aceleração no ritmo das
renovações cientificas. "Estima-se
que o volume de informações produzido pela
humanidade dobra a cada 20 anos. Somente na área da
física nuclear são publicadas cerca de 57.000
páginas por ano." No
Brasil, até os anos 80, na escala de uma vida humana,
a maior parte dos saberes era relativamente estável.
Hoje, a situação mudou consideravelmente,
já que de agora em diante a maioria dos saberes
adquiridos no inicio de uma carreira serão outros no
final de um percurso profissional. A transmissão e a
produção de conhecimento, a
relação intensa com a aprendizagem, não
está mais reservada a uma minoria privilegiada, mas
diz respeito de agora em diante a todas as pessoas em sua
vida cotidiana e em seu trabalho. Por
exemplo, do ponto de vista do trabalho, é importante
destacar que as inovações tecnológicas
e organizacionais estão demandando um modelo de
trabalho baseado na perspectiva de trabalhador qualificado,
polivalente e colaborativo. Os mercados demandam aqueles que
mostram capacidade de inovação, de
colaboração e aprendizagem. Bastam
ler os anúncios de empregos nos jornais, para se
perceber as novas qualificações (conhecimentos
e habilidades) que vêm sendo demandadas no trabalho,
como: conhecimento de informática,
formação técnica e superior,
domínio de línguas, ser dinâmico,
criativo: trabalhar em grupo e estar sintonizado com a
aprendizagem contínua. O saber, a aprendizagem
não é algo que requer um tempo fora do
engajamento da atividade produtiva na verdade, a
aprendizagem é o coração da atividade
produtiva. A aprendizagem é a nova forma de
trabalhar. Esta é uma das razões porque
conhecimento domina as outras dimensões da vida
social. O conhecimento transformou-se na força motriz
de nossa vida. "Quando
as técnicas e as habilidades se mantinham quase as
mesmas durante a vida de um homem, o papel do saber
permanecia despercebido, a capacidade de aprendizagem
permanente dos indivíduos e dos grupos não
aparecia como uma qualidade determinante. Contudo, hoje, os
conhecimentos não apenas evoluem muito rapidamente,
mas, sobretudo, comandam a transformação das
outras esferas da vida coletiva; como
conseqüência, o que ficava "invisível" ,
porque era imóvel, passa bruscamente para o primeiro
plano. A partir desse momento, é sobre o
espaço do saber que se investem prioritariamente as
estratégias dos atores sociais, enquanto que antes o
faziam sobre a terra ou o espaço industrial. Claro, a
terra e o capital continuam a existir, mas agora sua
valorização depende dos processos que se
desenrolam em um outro espaço! o do
conhecimento". (Lévy, 1995:104) Hoje,
o conhecimento não está mais fechado e
confinado como se fosse algo precioso e exclusivo para uma
minoria. Ele se difunde, está em todo lugar.
Precisamos ir em sua busca, pois não temos
dúvidas sobre a importância da
informação e do conhecimento para nossa
formação pessoal, profissional e social.
Precisamos
aprender novos conceitos e relações,
principalmente em como estabelecer novas formas de
aquisição dos conhecimentos. Neste Mundo Novo
marcado pela inovação e
valorização dos saberes, salientamos mais uma
vez a indispensável aprendizagem colaborativa no
ciberespaço. A
idéia de um único humano ser capaz de
compreender e controlar a totalidade dos conhecimentos,
já está ultrapassada. Atualmente, o
conhecimento é fundamentalmente coletivo,
impossível de ser reunido e organizado por uma
só pessoa. Lembramos
agora de Lévy (1996) onde chama de
"inteligência": o conjunto canônico das
aptidões cognitivas: as capacidades de perceber, de
lembrar, de aprender, de imaginar e de raciocinar. Para ele
a medida que possuem essas aptidões, os seres humanos
são todos inteligentes. No entanto, o
exercício das capacidades cognitivas implica uma
parte coletiva ou social, geralmente subestimada. A
propósito de ações coletivas podemos
exemplificar um grupo de pesquisadores com vários
interesses e competências, que identificam
conjuntamente um tema comum de pesquisa ou problema
científico e conduzem ações
coordenadas, visando criar um novo conhecimento. Esse ideal
da inteligência colaborativa passa evidentemente pela
disposição em comum da memória, da
imaginação, da experiência e da
prática cotidiana de troca de conhecimentos. O
ciberespaço e as comunidades virtuais podem ser
imaginados como mediadores das práticas de
inteligência colaborativa. O
Conhecimento Colaborativo no Ciberespaço O
que a colaboração tem de importante é
que as pessoas nada podem fazer independentemente;
não vivem sozinhas; necessitam de sistemas de
linguagem, técnicas, comentários,
questões e idéias de outros. São os
sistemas que tornam possível a troca e a
interseção de saberes. A
inteligência artificial, ou seja, a idéia de
uma máquina ser mais capaz que o intelecto humano
persistiu durante muito tempo. Podemos citar como exemplo, o
filme "2001 Uma Odisséia do Espaço"; onde numa
exagerada produção máquinas de
computação se tornam em um alienígena
independente e poderoso contra o homem. Sabemos que a
máquina nunca foi mais sábia que o homem,
só mesmo em obras fictícias. Entretanto,
com o surgimento das empresas como a Netscape ou Yahoo,
podemos perguntar: " O que aconteceu com os computadores
inteligentes?" As expectativas da informática
tornaram-se, gradualmente, mais modestas concentrando-se no
desenvolvimento de agentes inteligentes, no intuito de
auxiliar as pessoas a interagir com sistemas de
computadores. O
uso real dos computadores se trata de uma
amplificação das funções
cognitivas das pessoas, dos grupos, das equipes. É o
que chamamos de Groupware. Concluímos que há
cada vez mais instrumentos para melhorar o trabalho em
grupo. Zuboff
(1988) citado em Monteiro fala, por exemplo, dos desafios
advindos pela introdução do texto
eletrônico nas organizações. Mas essas
informações integradas no texto não
podiam mais ser compreendidas, em todo o seu alcance, por um
único indivíduo, pois haviam passado a reunir
dados correspondentes a conhecimentos detidos por
especialistas distintos. Isso exigiu uma
interação colaborativa para se traduzir o
texto. Segundo
Zuboff, o compartilhamento do conhecimento não pode
se restringir ao conhecimento dos equipamentos e seu
funcionamento. Aqui, o importante é considerar a
filosofia da organização, seus
critérios e objetivos referentes a
utilização da tecnologia de
informação. As
linguagens devem ser vistas mais que um meio para se trocar
informação. Devem categorizar e perceber o
mundo, para criar significado e entendimento participativo.
Como a imprensa transformou a palavra escrita e a
televisão transformou a imagem, a emergência do
ciberespaço poderá transformar a aprendizagem.
A
rede hipertextual nos oferece uma oportunidade para repensar
nossa visão de conhecimento colaborativo. A
colaboração é o processo de
criação participativa, de duas ou mais pessoas
interagem para criar um novo conhecimento. Aliás,
o papel do Groupware, constituído por Engelbart
é de não somente reunir textos, mas
também unir idéias, posições,
opiniões dos grupos, favorecendo o trabalho
colaborativo. O
"Collaboratory" Embora
seja comum a imagem de um pesquisador excêntrico,
trabalhando solitariamente em seu laboratório,
não deixa de ser uma idéia já
ultrapassada. Hoje, esses pesquisadores trabalham em equipes
e instituições, em projetos e experimentos
múltiplos e também trocam
informações entre si. A
visão de Wulf (1996) citado em Monteiro começa
a indagar se todos os membros da equipe necessitam estar no
mesmo lugar ao realizar seus trabalhos. "Há algum
modo de habilitá-los a trabalhar juntos sem estar na
mesma instituição? Há algum modo deles
utilizarem equipamentos/laboratórios (sem a
necessidade de deslocamento físico) para o
desenvolvimento de experimentos, quando os equipamentos
estão localizados em outras cidades ou
países?" Para
Wulf, também explicitado em Monteiro: "estamos
vivendo numa era em que não será mais
necessário um "centro de saber" fixado em uma
única localização
geográfica." Segundo o autor a informática
está possibilitando aos pesquisadores a interagirem
idéias, propósitos e experimentos mesmo
distantes geograficamente. Para
ser possível colocar em sinergia as
imaginações, competências e
idéias desses ilustres conhecedores, Wulf criou o
"collaboratory". O
"collaboratory" eletrônico (esta palavra combina
collaboration e laboratory) é um "centro de saber sem
muros", onde pesquisadores podem desenvolver suas pesquisas
sem considerar a questão geográfica,
interagindo com outros colegas, participando de dados e
informações em bibliotecas
digitais. O
"collaboratory" é uma ciberpédia, um
espaço de saber no ciberespaço. É um
fenômeno recente, mas ao mesmo tempo original e
eficaz. Suas relações não se baseiam em
laços de poder, mas em torno de interesses comuns, na
comunhão do saber entre grupos onde a memória
pode ser compartilhada, na construção da
aprendizagem colaborativa. Segundo
Wulf (1996) mais uma vez citado em Monteiro: com a pesquisa
colaborativa, o "collaboratory" poderá proporcionar
resultados como a produtividade dos pesquisadores ampliada
devido ao acesso mútuo à
informação e a instrumentação; o
exercício de "aproximação" para
estimular colegas; o collaboratory ampliará o
número de mentes em contato e fornecerá
diferentes perspectivas bem além daquelas
disponíveis aos pesquisadores fixados em
instituições específicas; o
collaboratory permitirá um estilo de pesquisa inter e
intradisciplinar (esse modo de pesquisar não
está sendo realizado agora, por que a escala ou a
duração do projeto não justifica um
megacentro., nem a exaustiva remoção de
pessoas; collaboratory ampliará o pool de
pesquisadores disponíveis para investigar determinado
fenômeno e acelerará a transmissão de
novas idéias e ampliará a relevância da
pesquisa para atender metas econômicas e
sociais. O
collaboratory poderá também contribuir para a
conexão entre acadêmicos e empreendedores da
indústria, formando assim um mesmo collaboratory,
cujo sentido seria a "agitação
intelectual". O
conhecimento coletivo é materializado em um imenso
espaço eletrônico multimensional, em constante
metamorfose: o ciberespaço. Por conseguinte, o
objetivo do collaboratory é despertar do ser humano,
outras formas de perceber o mundo, através dos
instrumentos ciberespaciais. Como
os campos de estudo poderão ser conectados, a
ciberpédia contribuirá para romper os limites
entre diferentes tipos de conhecimentos. Ela
dissolverá as diferenças entre
especializações. Podemos dizer que uma pessoa
poderá se interessar por determinado assunto, fazer
conexões com outras informações e
construir trajetos a seu próprio modo. Não
há dúvidas que o coração do
trabalho hoje é a aprendizagem. Não podemos
mais suportar regras e estilos rígidos de
formação de indivíduos. Precisamos
escolher nossa aprendizagem de acordo com nossas reais
necessidades. Segundo Monteiro: "As práticas de
aprendizagem no seio do ciberespaço permitem um
acesso ao saber que é ao mesmo tempo maciço,
diversificado, personalizado e colaborativo." (p.
56) Conclusão Temos
a nítida impressão que tudo acontece
rápido demais. Com a tecnologia da
informação, o mundo está rapidamente se
transformando, invadindo nosso cotidiano. Vale ressaltar o
quanto a qualificação em informática
é valorizada atualmente. Esta
rapidez com que uma idéia se atualiza e é
substituída por outra; estes reflexos de uma
virtualização ainda entram em choque com uma
subjetividade que reluta e se assusta com este mundo novo: O
Ciberespaço. Mas
porque o espanto? A Virtualização não
está restrita ao espaço informático.
Uma simples ultra-sonografia, uma cirurgia plástica,
até mesmo atender uma chamada telefônica ou
assistir a TV, ou próprio ato de leitura, a maneira
como interpretado o texto, a escrita quando há
separação de algo de um corpo vivo: todos
são prenúncios da virtualização.
Antes de temer, precisamos buscar a compreensão do
que é o virtual. Não
há dúvidas de que precisamos de tamanha
tecnologia para evoluir enquanto sociedade. Não
vivemos sem nossos remédios, nossas máquinas,
nossas bactérias. Contudo, não será
apenas com ela que combateremos a crise. Bem,
e neste mundo virtual, o que queremos ressaltar é a
importância do conhecimento. Sempre existiu a
preocupação em armazena-lo, organiza-lo,
torna-los disponíveis à comunidade, com o
objetivo da preservação de nossa
memória cultural. Exemplo: bibliotecas e
museus. Este
novo espaço de saber - o ciberespaço - nos
possibilita, por exemplo, através do correio
eletrônico mundial, a criação da
comunidade virtual, que poderá com a afinidade de
interesses união de projetos,
cooperação e troca dos usuários,
produzir conhecimento, independente dos vínculos
geográficos, E é através do conceito da
ciberpédia, que teremos um conhecimento
dinâmico, colaborativo e reorganizado em tempo real
por interpretações diferentes da biblioteca
comum. A ciberpédia poderá se tornar a
infra-estrutura para a constituição do
cérebro coletivo. A
rede permite aos aprendizados a trabalharem juntos,
interagirem suas idéias, resolverem problemas e
participarem na construção e
intersecção do conhecimento. Sabemos que este
conhecimento não esta mais limitado a uma
memória, precisamos ir a sua busca. Hoje ele é
coletivo, impossível de ser reunido e organizado por
uma só pessoa. Ninguém possui, sozinho, a
totalidade do conhecimento. Contudo,
precisamos também estar atentos a alguns riscos que
corremos com o ciberespaço: a população
de dados, o anônimo exercício de poder por
"debaixo da rede", a aniquilação da
memória e a "infomania", que é o
deslumbramento cego por dados sem interesse na aprendizagem.
Precisamos tomar cuidado com o "lixo internáutico".
Sabemos
que o ciberespaço é matéria de
interesse e especulação para alguns poderosos.
Embora a internet esteja cada vez mais em evidência da
sociedade contemporânea, é importante observar
que esse ambiente ainda não se encontra estabilizado.
É campo aberto e digno de conflitos. Precisamos
alimentar o lado positivo da WEB: compartilhar saberes. As
pessoas não vivem sozinhas, necessitam de
idéias e sugestões de outros. O trabalho em
grupo é indispensável para nossa aprendizagem.
Se,
como vimos, a ciberpédia é o espaço
pluralístico do conhecimento, o "collaboratory"
é o próprio trabalho em equipe. Aqui,
pesquisadores, sem necessitar estar juntos no mesmo local
físico, compartilham saberes e experiências.
É um "centro de saber sem muros"; e devemos isto a
informática. Este projeto amplia o número de
mentes em contato, provoca no ser humano outras formas de
conhecer o mundo e torna o conhecimento puramente
coletivo. Concluímos
que o ciberespaço está caminhando para
revolucionar e transformar a aprendizagem, hoje esta
última crucial em nossas vidas. O ciberespaço
já é um indício de que a humanidade
está crescendo junta, mentalmente, podendo se
transformar num cérebro global. Como diz Monteiro:
"Devemos buscar uma aprendizagem que abranja os
corações - mentes, alimentada pela rede
global; talvez assim nos ajude a globalizar não
apenas a economia e a tecnologia, mas também a
solidariedade e o amor." (p.250) Lévy
finaliza: O saber não se trata apenas do conhecimento
científico &emdash; recente, raro e limitado, mas
daquele que qualifica a espécie. O saber é
co-extensivo à vida. Bibliografia CASTELLS,
Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e
Terra, 1999 FRANKLIN,
Benjamim L. O Ciberespaço:
virtualização, desmaterialização
e materialização. Online. Internet.
<http://www.geocities> KARP,
Mauro Szifman. 2001 - Uma Odisséia no
Ciberespaço: A retomada da Subjetividade.
São Paulo, 1997. TESE (Doutorado em Psicologia) -
Pontifícia Universidade Católica. LEMOS,
André L.M. Ciber-Sociedade: Tecnologia e a Vida
Social na Cultura Contemporânea. Online. Internet.
<http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/cibersoc.html> LÉVY,
Pierre. As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do
Pensamento na Era da Informática. Rio de Janeiro:
Ed. 34, 1993. LÉVY,
Pierre. O que é o Virtual? São Paulo:
Ed. 34, 1996. LÉVY,
Pierre. A Inteligência Coletiva. São
Paulo: Loyola, 1999. MONTEIRO,
Rogério Antonio. O Ciberespaço: A
Dinâmica da Informática e a Aprendizagem
Colaborativa. São Paulo, 1997. TESE (Doutorado em
Comunicação e Semiótica) -
Pontifícia Universidade Católica
Maria Aparecida Silveira Machado
Paula Gonçalves Campos