Ciberespaço: Conhecimento e Aprendizagem Colaborativa

Fábio Barbosa dos Santos
Maria Aparecida Silveira Machado
Paula Gonçalves Campos

 

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


O termo Ciberespaço começa a se infiltrar no nosso vocabulário cotidiano e é cada vez mais freqüente usá-lo para indicar a relação entre o homem e o computador.

O ciberespaço pode ser associado a interconexões entre diferentes computadores, redes de computadores e interconexões entre diferentes redes. A soma total dessa rede de redes tem sido referida como Internet, que seria ao nosso ver o estado mais avançado da noção de ciberespaço. Veja algumas características do ciberespaço: é um espaço eletrônico, o qual acessamos através do computador, onde se trabalha com dados, informações e memória coletiva, agilizando a interação e a comunicação entre indivíduos e grupos, independentemente do tempo e do espaço.

Gibson citado em Monteiro (1997), retrata o ciberespaço como uma visão de desesperança, de aflição, de alucinação e a uma dimensão negativa do futuro da humanidade. Sua idéia de ciberespaço mostra uma transformação fundamental da relação dos homens com as máquinas, onde o corpo torna-se literalmente "alimento" para a implantação de projetos de informação.

Ele cita em sua obra: "O Cyberspace. Uma alucinação consensual, vivida diariamente por bilhões de operadores legítimos, em todas as nações, por crianças a quem estão ensinando conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas que abrangem o universo não espaço da mente; nebulosas e constelações infindáveis de dados. Como luzes de cidade, retrocedendo." (Gibson, 1991:57)

Já Benjamim L. Franklin, define Ciberespaço, como um consenso de virtuais, um "lugar" legítimo, qualificado pelos usuários como sendo real, pois acreditam nele, fazem negócios através dele, namoram, trocam, simbolizam e nele vivem partes de suas vidas.

Castells ressalta que em razão da convergência da evolução histórica e da transformação tecnológica, entramos em um modelo genuinamente cultural de interação e organização social. A informação representa o principal ingrediente de nossa organização social, e os fluxos de mensagens e imagens entre as redes constituem o encadeamento básico de nossa estrutura social.

Para Michael Benedikt (1994), editor do livro "Cyberspace First Steps", o ciberespaço se relaciona com a realidade virtual, a visualização de dados, as interfaces gráficas, redes, multimídia, hipertexto e outras palavras que capturam o recente desenvolvimento da tecnologia da computação. Segundo Benedikt, essas novas tecnologias estão sendo constituídas para possibilitar, simplesmente, um vasto aumento no fluxo de informação, limitando-se somente ao movimento da informação.

Confirmando o autor acima, Heim diz que vivemos numa era do ciberespaço, marcada por um mundo computadorizado, onde transitamos num espaço de informações. Seu ciberespaço traduz um mundo artificial e ficcional, ou seja, um mundo feito exatamente de informações. Conforme ele, habitamos o ciberespaço quando nos sentimos mover através da interface informática, em um mundo relativamente independente, com suas próprias dimensões e regras. A interface refere-se à conexão humana com as máquinas, especialmente, o ingresso humano em um ciberespaço fechado em si mesmo, com um desfecho sinistro para o homem.

O ciberespaço, para Lévy, designa o universo das redes digitais como lugar de encontros e de aventuras, terreno de conflitos mundiais, nova fronteira econômica e cultural. Ciberespaço designa menos os novos suportes de informação do que os modos originais de criação. Constitui um campo vasto, aberto, ainda parcialmente indeterminado, que não se deve reduzir a um só de seus componentes. Ele tem vocação para interconectar-se e combinar-se com todos os dispositivos de criação, gravação, comunicação e simulação. "Para avaliar as "nova tecnologias", temos que nos concentrar em evocar as enfovias, o trabalho à distância, os compact discs interativos e os jogos em realidade virtual".

Para guiar a construção do ciberespaço, para ajudar a escolher entre as diferentes orientações possíveis, Lévy propõe um critério de escolha ético-politico, uma visão organizadora. Deveriam ser encorajados os dispositivos que contribuem para a produção de uma inteligência ou de uma imaginação coletiva: os instrumentos que favorecem o desenvolvimento ao laço social pelo aprendizado e pela troca de saberes; os agenciamentos de comunicação capazes de escutar, integrar e restituir a diversidade; os sistemas que visão o surgimento de seres autônomos e as engenharias semióticas que permitem explorar e valorizar, os jazigos de dados o capital de competência e a potência simbólica acumulada pela humanidade.

Finalizando gostaríamos de citar que o termo ciberespaço foi inventado por Gibson, mas foi Bush e Engelbart quem projetou as primeiras ferramentas ciberespaciais como o Memex, o hipertexto, tela com múltiplas janelas o mouse e especialmente as redes de computadores, que é a principal porta do ciberespaço.

E, subitamente, estamos nós perante a máquina... e pela máquina, perante a Internet, que não é nem a oralidade, nem a escrita, nem a televisão ou o rádio, nem o simples resultado do complemento destes suportes de comunicação. Sons, palavras e imagens num universo virtual. Ciberespaço, espaço cibernético, espaço virtual, espaço sideral.

Virtualização

Virtualizar, segundo Pierre Lévy, citado por Monteiro constitui-se em "estender" um determinado processo, uma ação, além dos seus sujeitos, relativizando suas questões no tempo e no espaço. Está intimamente associada à busca da hominização. As mudanças desestabilizantes nas técnicas, na economia, nos costumes e nas formas de existir seriam simplesmente mais uma etapa da aventura humana onde o virtual aponta seus vetores com mais intensidade. Diante das tendências de encarar o processo de virtualização com um olhar apocalíptico ou como uma salvação aos males do mundo, Pierre Lévy propõe uma terceira via sugerindo a compreensão da virtualização em toda sua amplitude como processo inseparável do ser humano.

O senso comum sobre o virtual, já está permeado por possíveis respostas a esta questão. Alguns vêem o virtual como uma desmaterialização, perdendo a noção do verdadeiro mundo. Outros acreditam que o virtual é a verdadeira panacéia.

Para o autor o mais importante, antes de predizer o apocalipse ou a redenção pelo virtual, é buscar a compreensão, é pensar acerca, é problematizar o virtual. O virtual seria a dúvida, o ponto de tensão, a hipótese.

Mas Lévy inicia seus argumentos identificando o arquivo digital como um vetor do processo irreversível de virtualização. Diz que até mesmo é possível que se atribua um endereço a um arquivo digital. Porém, esse endereço seria transitório ou com pouquíssima importância nesta era de Internet onde tudo parece tão longe e tão perto.

Fala também que o abandono à presença física na humanidade é muito anterior às redes digitais e à realidade virtual. Menciona que "a imaginação, a memória, o conhecimento, a religião são vetores de virtualização que nos fizeram abandonar a presença muito antes da informatização...". (p.20).

Mesmo que a noção de existência pareça contrapor o que é virtual, pode-se pensar esta existência a partir da etimologia da palavra. Existir viria do termo latino sistere (estar colocado) e do sufixo ex (fora de), assim poderia haver uma idéia de existir como estar colocado fora de algo, fora de uma presença, fora de uma existência física.

Lévy argumenta esta idéia quando diz que o "aumento da comunicação e generalização do transporte rápido participam do mesmo movimento de virtualização da sociedade, da mesma tensão em sair de uma presença." (p.23)

No espaço cibernético, onde há a multiplicação desenfreada de espaços e sites, tornamo-nos migrantes de um nó ao outro, de uma rede a outra, não mais migrantes de espaços geográficos, mas de espaços virtuais. Tais espaços virtuais "se metamorfoseiam e se bifurcam a nossos pés, forçando-nos à heterogênese." (Lévy, 1996:23)

Lévy aponta para a problemática sobre a questão da identidade: "A virtualização não é uma desrealização (a transformação de um real em um conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do objeto considerado: em vez de se definir principalmente por sua atualidade (uma "solução"), a entidade passa a encontrar a sua consistência essencial num campo problemático. Virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mutar a entidade em direção a essa interrogação e em redefinir a atualidade da partida como resposta a uma questão particular." (Lévy, 1996:18)

Mas a virtualização, não é um fenômeno restrito ao espaço informático. Desde as cirurgias plásticas, até os transplantes, os implantes de próteses, ultra-sonografia para identificação do sexo do bebê, tudo faz parte de uma nova etapa e sensação da virtualização do corpo Virtualizamos ainda as percepções, desde as auditivas (telefone), as visuais (tele-presença, TV) bem como as táteis (feedback, joystick dos vídeos game).

Outra noção existente na argumentação de Pierre Lévy diz respeito ao hipertexto enquanto virtualização do texto. A leitura do texto seria uma atualização, enfim um ato criativo de construção de sentidos. Para o autor "ler um texto é reencontrar os gestos têxteis que lhe deram seu nome" (p.36), ou seja, encontrar a problemática do texto. O trabalho da leitura seria recosturar o texto onde possa se estabelecer um sentido. Somente com a entrada da subjetividade humana, que há a virtualização.

O hipertexto é virtual, pois a subjetividade humana entra em processo ao acrescentar ou modificar links. Enfim, a partir do hipertexto, conforme anuncia Lévy, toda leitura tornou-se um ato de escrita.

Sugere ainda que a escrita pode ser vista como processo de virtualização, ou seja, a separação parcial de algo de um corpo vivo, colocação em comum. Pierre Lévy argumenta que "Virtualizante, a escrita dessincroniza e deslocaliza. Ela fez surgir um dispositivo de comunicação no qual as mensagens muito freqüentemente estão separadas no tempo e no espaço de sua fonte de emissão..." (p.38)

Falando agora sobre virtualização do mercado on line, já não conhece distâncias geográficas ou contingências temporais. Produtores e consumidores parecem estar tão próximos. Assim como a virtualização do texto mistura a noção de leitor à noção de autor, a virtualização do mercado mistura a noção clássica de produtor e consumidor.

Para Lévy, a virtualização da ação na multiplicação das técnicas aparece quando o autor menciona o homem pré-histórico que vê um galho de árvore, "reconhece-o pelo que é (...) Ele envesga os olhos sobre o galho e o imagina como bastão. O galho significa bastão. O galho é um bastão virtual. Substituição. Toda a técnica está fundada nessa capacidade de torção, de desdobramento ou de heterogênese do real." (p.92)

Vislumbramos uma nova relação com o mundo, com a cultura, com o conhecimento. O virtual, como escreve Lévy (1996), "Não se presta como contraponto ao real, de onde se conclui que o virtual não significa fora da realidade, como muitos apregoam. O virtual, por outro lado, se contrapõe ao atual, sendo que este não mantém uma relação de determinação com aquele. Isso quer dizer que uma atualização não nos leva de volta à virtualização que a gerou, ao contrário da relação do real com seu contraponto, o possível, que mantém uma relação de causa e efeito perfeitamente reversível, num processo linear (... ), por isso, previsível."

A atualização é sempre inédita, inventiva e se constitui como território, em termos de uma resposta a um problema anterior. Virtualizar significa potencializar esta atualização, no sentido de inscrevê-la em um todo maior, colocar nela uma interrogação que a faça tornar-se parte de um complexo problemático superior, o que levará, num espiral infinito, a novas atualizações e novas virtualizações.

Segundo Monteiro (1997): "O primeiro indício da virtualização - é a sensação de desassossego que sentimos frente às constantes mudanças. A velocidade do sistema online torna o tempo para tudo mais estreito. A rapidez com que uma idéia se atualiza e é substituída por outra, parece ser a mesma que faz com que tenhamos que nos reconstruir dia a dia. Se virtualizar-se é sair da presença, a velocidade é, então, um ingrediente efetivamente importante. Reflete claramente a descartabilidade das coisas no mundo atual. E o hipertexto subjetiva a sensação do Ser descartável que não pode agarrar-se à algo pelo risco de ser deletado a qualquer momento." (p.27).

Lévy (1996), citado na tese de Rogério Antonio Monteiro conclui: (...) "a virtualização da sociedade nas novas tecnologias da comunicação, do transporte, da medicina, da economia e da política, repercutindo em uma subjetividade que prima pela mobilidade, que transita pelo diferente. A Internet, o enorme mercado do turismo, os transplantes de órgãos, as plásticas estéticas, o esporte em alta, o mercado do conhecimento e da informação... reflexos de uma virtualização que ainda entra em choque com um tipo de subjetividade que reluta, hesitante, em deixar o velho território, uma subjetividade às vezes saudosista, que teme correr riscos, uma subjetividade da propriedade privada. A subjetividade virtualizada se desprende da identidade, pois apesar de se atualizar &emdash; que significa exatamente construir território, o que também é essencial &emdash; não mais se satisfaz em agarrar-se a ele. Está o tempo todo se deixando tocar pelo fluxo de forças que vibram constantemente em todos os sentidos. Uma subjetividade ativa, atuante, participativa, móvel, que ama a tempestade, a deseja e a provoca. O ciberespaço é o habitat do desejante." (p.28 ).

"A informática é a mais virtualizante das técnicas por ser também mais gramatizante" (Lévy, 1996:88)

A Metáfora da Ciberpédia

O surgimento de novas técnicas de produção de linguagem, desde o alfabeto, até os dispositivos informáticos contemporâneos, indica que alguma habilidade humana se amplifica, se modifica e se expande. Cada nova técnica, ou meio de produção de linguagem, afeta de modo singular o pensamento humano.

Na cultura oral, o conhecimento é estocado, na memória das pessoas. Quase todo o edifício cultural está fundado sobre as lembranças dos indivíduos, que dependem completamente da memória para a preservação e transmissão de saberes. O conhecimento é preservado através de rituais e tradições, memorizando os mitos e histórias, transmitindo-o de geração a geração.

À medida que começamos a registrar nossas imagens e impressões de mundo em memória artificial ou à medida que passamos da ideografia ao alfabeto e da caligrafia à impressão, o acúmulo dos registros, isto é, o aumento do corpus transmissível, conforme Lévy (1993:94), "distendem o círculo da oralidade até quebrá-lo."

Desse modo, as impressões humanas começaram a se encarnar em dispositivos para durar. Daí, então, a memória se separa do sujeito e da comunidade e os registros se tornam estocados, disponíveis e consultáveis, de modo que não fica mais restrito á situação de co-presença, mas ocorre uma extensão de acessibilidade das informações no tempo e espaço. Entretanto, com o avanço das técnicas de comunicação e registro, ampliou-se notavelmente o alcance do estoque compartilháveis de conhecimentos.

A preocupação em armazenar e organizar o conhecimento provém de milênios. Com a propagação da escrita seria possível perpetuar ações, feitos e realizações para as gerações futuras. Desta forma, foram criadas as instituições-memórias: arquivos, bibliotecas e museus. As bibliotecas marcam etapas importantes na aventura intelectual humana. Sua participação na vida dos povos e sua evolução no transcorrer dos séculos indicam a importância e o poder desta instituição na organização do conhecimento e na preservação de nossa memória cultural.

O termo biblioteca conota uma instituição para a coleção, organização e manutenção de conhecimentos. As bibliotecas coletam informações do passado e as preservam para o futuro. Atribuímos ás bibliotecas a quase sagrada responsabilidade de também disseminar o conhecimento. Elas podem ser verdadeiros laboratórios para ajudar a responder sobre questões tecnológicas e, especialmente, o que imaginamos ser o ciberespaço: uma instituição-memória, onde rolam objetos de saber.

O mais importante, a partir de Bush e Licklider, autores citados em Monteiro (1997) seria o nascente ciberespaço como memória coletiva; isto é, foi exatamente na biblioteca onde ocorreram suas imaginações: ações e direções para a tecnologia da informação. De fato, ambos inventaram ferramentas para navegar no espaço do conhecimento. E também construíram uma direção para a tecnologia da informação e ainda contribuíram na constituição de um tipo de ciberespaço nascente: a "Digital Library" (Biblioteca Digital).

As pessoas familiarizadas com as bibliotecas devem descrevê-las como um objeto que, além de mantenedora de conhecimento, são uma estrutura composta de tijolo, pedra cimento, vidro, madeira, portas, janelas, fileiras de arquivos e conjuntos de estantes recheadas de cartões, jornais, revistas, periódicos e livros; e que suas atividades estão concentradas dentro do limite da estrutura física. A codificação digital e a proliferação das redes de computadores propiciaram o começo da idéia de biblioteca digital.

A origem da biblioteca digital, remonta a pesquisadores como Bush e Licklider, que desenvolveram esforços, a fim de construir ferramentas para a constituição de novos modos para registrar, organizar, indexar, recuperar, visualizar informação, especialmente nas bibliotecas. Bush, diz que o conhecimento humano está crescendo em uma prodigiosa extensão e excedia enormemente a habilidade da sociedade em fazer uso dele. Para ele, o valor do conhecimento não está exatamente na sua raridade, mas em nossa habilidade para encontrá-lo e organizá-lo.

O futuro próximo imaginado por Licklider era uma biblioteca para o ano 2000. A equipe concordava com Bush que o conhecimento produzido pela humanidade estava sendo criado e ampliado para além da habilidade da sociedade em fazer uso dele. Assim, considerou que os computadores poderiam ser projetados para atender aos crescentes problemas, envolvendo a informação.

Licklider e sua equipe anteciparam o futuro, projetando tendências na tecnologia. Licklider foi um dos mais influentes pesquisadores da informação inventou a biblioteca digital, ao projetar, interpretar e utilizar as inovações tecnológicas que estavam emergindo. A tecnologia está agora suficientemente desenvolvida para implementar muitas das sugestões de Licklider, tanto que, agora, temos atualizações concretas de suas visões, na forma do computador pessoal e da Internet. Com a biblioteca do futuro, temos a oportunidade de perceber como uma tecnologia particular pode ser deliberadamente direcionada e orientada.

Licklider recomendou que futuras bibliotecas deveriam ter iniciativa em disseminar o conhecimento recentemente adquirido, atuando não como uma organizadora de coleção de documentos "passivos", mas como uma potente e pró-ativa fonte de informação.

Portanto, muitas bibliotecas construídas são apenas estoques dentro do computador: os bancos de dados eletrônicos. Entretanto, a função básica de todas as bibliotecas é a mesma: elas existem para coletar conhecimentos, organizá-los, preservá-los e torná-los disponíveis à comunidade. A biblioteca digital pode ser considerada exatamente uma instituição memória da sociedade, uma instituição mantenedora de conhecimentos, que pode enriquecer nossas intuições sobre a nova estrutura ciberespacial em formação.

Não obstante o fato de que a biblioteca digital, como instituição memória, possa ser uma interessante metáfora do ciberespaço, contudo, muitos diferentes tipos de registros podem ser gravados a partir do digital Esses registros podem ser não apenas textos e ilustrações, mas também músicas, animações, filmes e jogos.

Tal como a biblioteca, os museus podem ser excelentes laboratórios para ajudar a discutir as questões tecnológicas, e também ajudar a construir um termo para designar o que imaginamos ser o ciberespaço.

Embora as instituições-memórias, como a biblioteca e o museu, vêm influenciando as imaginações sobre o ciberespaço, a metáfora da biblioteca digital e do museu digital, no entanto, pode nos conduzir a determinados mal entendidos se, entretanto, negligenciarmos o que há de diferente no ciberespaço. Embora a biblioteca e o museu sejam instituições referências para o devir do ciberespaço, de modo que o caracteriza como espaço de saber, no entanto, ao inventar um significado para o ciberespaço, nós não podemos pegar simplesmente a imagem de uma biblioteca, ou museu, digitalizá-la e assumir que a imagem resultante reflita o que o ciberespaço é ou pode ser.

O ciberespaço favorece as conexões entre as instituições memória da sociedade (bibliotecas, museus, videotecas), porém, ao associá-lo a uma instituição especifica, perderemos o que ele tem de mais interessante: acolher os diversos objetos coletivos de saber.

"Hoje, a informação disponível on-line ou no ciberespaço em geral compreende não apenas o estoque" desterritorializado de textos, de imagens e de sons habituais, mas igualmente pontos de vista hipertextuais sobre esse estoque, bases de conhecimentos com capacidades de inferência autônomas e modelos digitais disponíveis para todas as simulações. Além dessas massas de documentos estáticos ou dinâmicos, paisagens de significações compartilhadas coordenam as estruturações subjetivas variadas do oceano informacional." (Lévy, 1996:115).

Além da biblioteca e do museu, o ciberespaço também acolhe, através de "electronic mail" (correio eletrônico) e vídeo-conferência, discussões compartilhadas da comunidade eletrônica. Os grupos de discussão podem ser organizados em uma comunidade local ou global, para discutir vários assuntos.

Uma comunidade virtual se constrói através de afinidades de interesses ou de conhecimentos, através da comunhão de projetos, num processo de cooperação e de troca. Independentemente das proximidades geográficas ou de seus vínculos institucionais. Ela não é irreal, imaginária ou ilusória. Trata-se de uma coletividade mais ou menos permanente, que se constrói e se organiza através do novo correio eletrônico mundial.

Acreditamos que o desejo da cibercultura emergente não se baseia nem em vínculos territoriais, nem em laços de poder, mas em torno de interesses comuns, na comunhão do saber.

Este novo espaço de saber pode ser denominado de ciberpédia. Essa expressão seria, no fundo, muito mais própria para descrever os fenômenos de comunicação coletiva e da memória coletiva posta em ato no ciberespaço: colaborativa dinâmica e reorganizada em tempo real por interpretações. O termo ciberpédia foi inventado para combinar os termos cibernéticos e enciclopédia. A palavra cibernética origina-se da palavra grega kybernytiky, ou seja, a arte de governar navios, que seria um atributo do timoneiro. É o timoneiro quem controla o curso da embarcação, cuida da manutenção da rota, estabelece relações entre as mensagens do capitão e as obtidas no ambiente; isso implica capacidade para enfrentar as correntes marítimas ventos, ondas, redemoinhos. A cibernética é reinventada sobre trabalhos como os de Wiener (1948), tendo como palavras-chave "comunicação" e "controle", nos organismos ou nas máquinas, nos seres vivos ou grupos sociais.

A cibernética surgiu predestinada a estabelecer relações entre as várias ciências, no sentido de preencher tanto os espaços vazios interdisciplinares não pesquisados por nenhuma ciência, quanto permitir que cada uma utilizasse para o seu desenvolvimento cinco conhecimentos elaborados pelas demais ciências. A cibernética começou assim, como uma ciência interdisciplinar, isto é, uma ciência de conexão entre as outras ciências.

Quanto à enciclopédia, os gregos ao que parece, entenderam o termo enciclopédia como instrução num sistema completo ou círculo (enkyklo) de aprendizagem (paideia). A expressão corresponde a educação geral ou completa. Enciclopédia é o nome que se dá a um ou mais livros contendo informações sobre pessoas, lugares, acontecimentos e coisas. A enciclopédia refere-se ao conjunto de conhecimentos sobre todas as artes, e ciências, ou relativas a um ramo das mesmas. Desde a Idade Antiga, o homem preocupou-se em publicar uma obra que transmitisse o conjunto dos conhecimentos humanos sobre todas as matérias. Sempre consistiu um problema do homem a formação de uma obra que contivesse a reunião dos saberes da ciência e da arte, conforme podemos verificar nas citações a seguir:

"Propondo-se transmitir os conhecimentos que todo honnête homme (homem de bem) deveria ter no séc. XVIII, a Encyclopédie abriga as ciências, a poesia, às belas-artes, às artes liberais e as artes mecânicas É notável a racionalidade com que os autores procuram interligar as justificativas dos diferentes assuntos valendo-se de remissivas. Observa-se ainda uma preocupação pioneira com o sentido da especialização intelectual, critério que reuniu em torno do empreendimento alguns dos maiores nomes da época. (...) O objetivo de uma enciclopédia é o de reunir os conhecimentos esparsos na superfície da Terra, expor o seu sistema geral aos homens com que vivemos, a fim de que nossos descendentes, tornando-se mais instruídos, tornem-se ao mesmo tempo mais virtuosos e mais felizes."

"Nas sociedades anteriores a escrita, o saber prático, mítico e ritual é encarnado pela comunidade viva. Quando um ancião morre, é uma biblioteca que arde. Com o advento da escrita, o saber é sustentado pelo livro. O livro - único, infinitamente interpretável, transcendente, que supostamente tudo contém: a Bíblia, o Alcorão, os textos sagrados, os clássicos! Confúcio, Aristóteles. Aqui é o intérprete que domina o conhecimento." (Mirador,p.38)

Um terceiro tipo de conhecimento é perseguido pela figura do sábio, do cientista. O saber não é mais sustentado pelo Livro, mas pela biblioteca. O saber é estruturado por uma rede de alusões, perseguida desde sempre pelo hipertexto. Assim, o conceito, a abstração ou o sistema serve para condensar a memória e garantir um domínio intelectual que a inflação de conhecimento já põe em perigo.

"A desterritorialização da biblioteca a que assistimos hoje talvez seja apenas um prelúdio à aparição de um quarto tipo de relação cognitiva. Por uma espécie de retorno em espiral à oralidade das origens o saber poderia ser novamente sustentado pelas coletividades humanas vivas e não pelos suportes separados, fornecidos por intérpretes ou sábios. Só que, desta vez, ao contrário da oralidade arcaica, o depositário direto do saber não seria mais a comunidade física e a sua memória carnal, mas o ciberespaço, a região dos mundos virtuais por intermédio da qual as comunidades descobrem e constroem seus objetos e reconhecem a si mesmas como coletividades inteligentes." (Lévy, Folha de São Paulo/Mais 22.02 98)

Portanto, concluímos que a palavra-chave na qual designamos este espaço de saber do ciberespaço, é a ciberpédia. Nesta nova organização do conhecimento, vinculamos o "ciber" á informática de comunicação e a "pédia", á imagem da "totalidade" do conhecimento. No entanto, a ciberpédia, onde um novo coletivo está sendo organizado, vai além da imagem e do texto característicos da enciclopédia comum.

Sendo assim, podemos citar algumas características da ciberpédia: nela encontramos ampla possibilidade de acesso ao conhecimento, devido à informática, telecomunicações e ao seu suporte telemático, que acelera e amplifica a geração, o processamento, o armazenamento e a transmissão de conhecimentos (hardware e software). A ciberpédia contém muitos estilos de representação, de forma tão ampla como existe no mundo. Em vez de um texto unidimensional ou até uma rede de hipertexto, agora temos um espaço dinâmico, interativo e multidimensional de representação. Ela amplifica todas as formas de expressão, combinando um largo número de diferentes tipos: imagens estáticas, vídeo, som, simulação interativa, sistemas experts, realidade virtual, vida artificial. A ciberpédia favorece as conexões entre os conhecimentos, a navegação nos saberes e a criação de aprendizagem colaborativa. Além de ser um novo dispositivo de gestão e transmissão de informação, contudo, a característica importante da ciberpédia está relacionada a modos originais de criação e navegação no conhecimento e as relações de colaboração que ela conduz. Cada comunidade, cada grupo de interesse, é efetivamente capaz de construir sua própria ciberpédia, em função de afinidades de interesses ou de conhecimentos, através da comunhão de projetos, num processo de cooperação e de troca, independentemente das proximidades geográficas ou de seus vínculos institucionais. Diante da velocidade de aparição e de renovação dos saberes, o conhecimento torna-se um continuum, uma espécie de ampla rede hípertextual - colcha de retalhos - sempre retrabalhada, na qual cada ponto pode ser lincado ou entrelaçado em um outro. A ciberpédia desmaterializa os limites entre os diferentes tipos de conhecimentos. Ela dissolve as diferenças entre as especializações. Em vez da organização do conhecimento de forma fixa, os membros da comunidade virtual buscam, conectam, consultam e exploram saberes perpetuamente em metamorfose.

Diante da perspectiva do ciberespaço como instituição-memória da sociedade, que foi um dos fios condutores para descrevê-lo, no caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que perguntamos se a própria noção de memória ainda é relevante.

Contudo, é oportuno pensar a memória no ciberespaço como memória coletiva posta em ato dinâmica, em fluxo, colaborativa, retrabalhada em tempo real por interpretações, diferente da tradicional transmissão de conhecimentos como a biblioteca comum.

A Aprendizagem Colaborativo no Ciberespaço

A imagem de um cientista trabalhando solitariamente em seu laboratório, não reflete, atualmente, como se produz conhecimento. A produção de conhecimento, na verdade, é fruto da ação coletiva de atores humanos e não humanos.

O ponto essencial da discussão aqui reside no argumento de que o ideal mobilizador da informática contemporânea é a constituição de inteligência coletiva, isto é, elaborar a sinergia das competências e das imaginações, qualquer que seja sua diversidade e onde quer que elas se encontrem, favorecendo a aprendizagem colaborativa em rede. Desta forma, a intenção deste trabalho é avaliar o ciberespaço enquanto um espaço propício à produção de aprendizagem colaborativa.

Dentro de um contexto global com resoluções tecnológicas, aqui o que mais nos interessa é certamente a dinâmica do conhecimento.

É certo que são muitas as mudanças que estão se operando no mundo do conhecimento sob impacto da irrupção tecnológica. As inovações técnicas nos anos 90 estão tornando possível melhorar a qualidade da Internet. Habilidade para transmitir imagens digitais e a subseqüente habilidade para comprimir as informações, a vasta expansão da freqüência efetivada por transmissão sem cabos, inovações em tecnologias de circuitos e números de outros avanços, tem ampliado a quantidade de informação e conhecimento que podem tão logo se tornar transmitidas.

Por conseguinte, damos ênfase nas técnicas ciberespaciais - na junção da informática com as telecomunicações - é porque elas dizem respeito ao potencial atual para tradução, armazenamento e difusão do conhecimento.

Durante centenas de anos, a produção de informação aumentou por pequenos acréscimos. No entanto, nos anos recentes, o processo de inovação e renovação de informação e conhecimento acelerou-se devido os meios de difusão de conhecimentos científicos que crescem em números, fornecendo-nos um montante de artigos, que abastecera inumeráveis bancos de dados. Os sistemas de transportes, que permitem que os livros, periódicos e correspondência em geral vençam fáceis e rapidamente o espaço; o advento da tecnologia (redes de comunicações/telecomunicações) tornou possível a difusão instantânea da informação; as atividades econômicas geradoras de dinamismos nos intercâmbios e uma necessidade crescente de comunicação e de informação e a dimensão social e cultural que alfabetiza maciçamente as sociedades e, por conseguinte, amplia espetacularmente o número de receptores de informação.

Seabra (1994:75) citado em Monteiro a esse respeito fornece uma série de indicações contundentes, tendo em vista a espantosa aceleração no ritmo das renovações cientificas.

"Estima-se que o volume de informações produzido pela humanidade dobra a cada 20 anos. Somente na área da física nuclear são publicadas cerca de 57.000 páginas por ano."

No Brasil, até os anos 80, na escala de uma vida humana, a maior parte dos saberes era relativamente estável. Hoje, a situação mudou consideravelmente, já que de agora em diante a maioria dos saberes adquiridos no inicio de uma carreira serão outros no final de um percurso profissional. A transmissão e a produção de conhecimento, a relação intensa com a aprendizagem, não está mais reservada a uma minoria privilegiada, mas diz respeito de agora em diante a todas as pessoas em sua vida cotidiana e em seu trabalho.

Por exemplo, do ponto de vista do trabalho, é importante destacar que as inovações tecnológicas e organizacionais estão demandando um modelo de trabalho baseado na perspectiva de trabalhador qualificado, polivalente e colaborativo. Os mercados demandam aqueles que mostram capacidade de inovação, de colaboração e aprendizagem.

Bastam ler os anúncios de empregos nos jornais, para se perceber as novas qualificações (conhecimentos e habilidades) que vêm sendo demandadas no trabalho, como: conhecimento de informática, formação técnica e superior, domínio de línguas, ser dinâmico, criativo: trabalhar em grupo e estar sintonizado com a aprendizagem contínua. O saber, a aprendizagem não é algo que requer um tempo fora do engajamento da atividade produtiva na verdade, a aprendizagem é o coração da atividade produtiva. A aprendizagem é a nova forma de trabalhar. Esta é uma das razões porque conhecimento domina as outras dimensões da vida social. O conhecimento transformou-se na força motriz de nossa vida.

"Quando as técnicas e as habilidades se mantinham quase as mesmas durante a vida de um homem, o papel do saber permanecia despercebido, a capacidade de aprendizagem permanente dos indivíduos e dos grupos não aparecia como uma qualidade determinante. Contudo, hoje, os conhecimentos não apenas evoluem muito rapidamente, mas, sobretudo, comandam a transformação das outras esferas da vida coletiva; como conseqüência, o que ficava "invisível" , porque era imóvel, passa bruscamente para o primeiro plano. A partir desse momento, é sobre o espaço do saber que se investem prioritariamente as estratégias dos atores sociais, enquanto que antes o faziam sobre a terra ou o espaço industrial. Claro, a terra e o capital continuam a existir, mas agora sua valorização depende dos processos que se desenrolam em um outro espaço! o do conhecimento". (Lévy, 1995:104)

Hoje, o conhecimento não está mais fechado e confinado como se fosse algo precioso e exclusivo para uma minoria. Ele se difunde, está em todo lugar. Precisamos ir em sua busca, pois não temos dúvidas sobre a importância da informação e do conhecimento para nossa formação pessoal, profissional e social.

Precisamos aprender novos conceitos e relações, principalmente em como estabelecer novas formas de aquisição dos conhecimentos. Neste Mundo Novo marcado pela inovação e valorização dos saberes, salientamos mais uma vez a indispensável aprendizagem colaborativa no ciberespaço.

A idéia de um único humano ser capaz de compreender e controlar a totalidade dos conhecimentos, já está ultrapassada. Atualmente, o conhecimento é fundamentalmente coletivo, impossível de ser reunido e organizado por uma só pessoa.

Lembramos agora de Lévy (1996) onde chama de "inteligência": o conjunto canônico das aptidões cognitivas: as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar e de raciocinar. Para ele a medida que possuem essas aptidões, os seres humanos são todos inteligentes. No entanto, o exercício das capacidades cognitivas implica uma parte coletiva ou social, geralmente subestimada.

A propósito de ações coletivas podemos exemplificar um grupo de pesquisadores com vários interesses e competências, que identificam conjuntamente um tema comum de pesquisa ou problema científico e conduzem ações coordenadas, visando criar um novo conhecimento. Esse ideal da inteligência colaborativa passa evidentemente pela disposição em comum da memória, da imaginação, da experiência e da prática cotidiana de troca de conhecimentos. O ciberespaço e as comunidades virtuais podem ser imaginados como mediadores das práticas de inteligência colaborativa.

O Conhecimento Colaborativo no Ciberespaço

O que a colaboração tem de importante é que as pessoas nada podem fazer independentemente; não vivem sozinhas; necessitam de sistemas de linguagem, técnicas, comentários, questões e idéias de outros. São os sistemas que tornam possível a troca e a interseção de saberes.

A inteligência artificial, ou seja, a idéia de uma máquina ser mais capaz que o intelecto humano persistiu durante muito tempo. Podemos citar como exemplo, o filme "2001 Uma Odisséia do Espaço"; onde numa exagerada produção máquinas de computação se tornam em um alienígena independente e poderoso contra o homem. Sabemos que a máquina nunca foi mais sábia que o homem, só mesmo em obras fictícias.

Entretanto, com o surgimento das empresas como a Netscape ou Yahoo, podemos perguntar: " O que aconteceu com os computadores inteligentes?" As expectativas da informática tornaram-se, gradualmente, mais modestas concentrando-se no desenvolvimento de agentes inteligentes, no intuito de auxiliar as pessoas a interagir com sistemas de computadores.

O uso real dos computadores se trata de uma amplificação das funções cognitivas das pessoas, dos grupos, das equipes. É o que chamamos de Groupware. Concluímos que há cada vez mais instrumentos para melhorar o trabalho em grupo.

Zuboff (1988) citado em Monteiro fala, por exemplo, dos desafios advindos pela introdução do texto eletrônico nas organizações. Mas essas informações integradas no texto não podiam mais ser compreendidas, em todo o seu alcance, por um único indivíduo, pois haviam passado a reunir dados correspondentes a conhecimentos detidos por especialistas distintos. Isso exigiu uma interação colaborativa para se traduzir o texto.

Segundo Zuboff, o compartilhamento do conhecimento não pode se restringir ao conhecimento dos equipamentos e seu funcionamento. Aqui, o importante é considerar a filosofia da organização, seus critérios e objetivos referentes a utilização da tecnologia de informação.

As linguagens devem ser vistas mais que um meio para se trocar informação. Devem categorizar e perceber o mundo, para criar significado e entendimento participativo. Como a imprensa transformou a palavra escrita e a televisão transformou a imagem, a emergência do ciberespaço poderá transformar a aprendizagem.

A rede hipertextual nos oferece uma oportunidade para repensar nossa visão de conhecimento colaborativo. A colaboração é o processo de criação participativa, de duas ou mais pessoas interagem para criar um novo conhecimento.

Aliás, o papel do Groupware, constituído por Engelbart é de não somente reunir textos, mas também unir idéias, posições, opiniões dos grupos, favorecendo o trabalho colaborativo.

O "Collaboratory"

Embora seja comum a imagem de um pesquisador excêntrico, trabalhando solitariamente em seu laboratório, não deixa de ser uma idéia já ultrapassada. Hoje, esses pesquisadores trabalham em equipes e instituições, em projetos e experimentos múltiplos e também trocam informações entre si.

A visão de Wulf (1996) citado em Monteiro começa a indagar se todos os membros da equipe necessitam estar no mesmo lugar ao realizar seus trabalhos. "Há algum modo de habilitá-los a trabalhar juntos sem estar na mesma instituição? Há algum modo deles utilizarem equipamentos/laboratórios (sem a necessidade de deslocamento físico) para o desenvolvimento de experimentos, quando os equipamentos estão localizados em outras cidades ou países?"

Para Wulf, também explicitado em Monteiro: "estamos vivendo numa era em que não será mais necessário um "centro de saber" fixado em uma única localização geográfica." Segundo o autor a informática está possibilitando aos pesquisadores a interagirem idéias, propósitos e experimentos mesmo distantes geograficamente.

Para ser possível colocar em sinergia as imaginações, competências e idéias desses ilustres conhecedores, Wulf criou o "collaboratory".

O "collaboratory" eletrônico (esta palavra combina collaboration e laboratory) é um "centro de saber sem muros", onde pesquisadores podem desenvolver suas pesquisas sem considerar a questão geográfica, interagindo com outros colegas, participando de dados e informações em bibliotecas digitais.

O "collaboratory" é uma ciberpédia, um espaço de saber no ciberespaço. É um fenômeno recente, mas ao mesmo tempo original e eficaz. Suas relações não se baseiam em laços de poder, mas em torno de interesses comuns, na comunhão do saber entre grupos onde a memória pode ser compartilhada, na construção da aprendizagem colaborativa.

Segundo Wulf (1996) mais uma vez citado em Monteiro: com a pesquisa colaborativa, o "collaboratory" poderá proporcionar resultados como a produtividade dos pesquisadores ampliada devido ao acesso mútuo à informação e a instrumentação; o exercício de "aproximação" para estimular colegas; o collaboratory ampliará o número de mentes em contato e fornecerá diferentes perspectivas bem além daquelas disponíveis aos pesquisadores fixados em instituições específicas; o collaboratory permitirá um estilo de pesquisa inter e intradisciplinar (esse modo de pesquisar não está sendo realizado agora, por que a escala ou a duração do projeto não justifica um megacentro., nem a exaustiva remoção de pessoas; collaboratory ampliará o pool de pesquisadores disponíveis para investigar determinado fenômeno e acelerará a transmissão de novas idéias e ampliará a relevância da pesquisa para atender metas econômicas e sociais.

O collaboratory poderá também contribuir para a conexão entre acadêmicos e empreendedores da indústria, formando assim um mesmo collaboratory, cujo sentido seria a "agitação intelectual".

O conhecimento coletivo é materializado em um imenso espaço eletrônico multimensional, em constante metamorfose: o ciberespaço. Por conseguinte, o objetivo do collaboratory é despertar do ser humano, outras formas de perceber o mundo, através dos instrumentos ciberespaciais.

Como os campos de estudo poderão ser conectados, a ciberpédia contribuirá para romper os limites entre diferentes tipos de conhecimentos. Ela dissolverá as diferenças entre especializações. Podemos dizer que uma pessoa poderá se interessar por determinado assunto, fazer conexões com outras informações e construir trajetos a seu próprio modo.

Não há dúvidas que o coração do trabalho hoje é a aprendizagem. Não podemos mais suportar regras e estilos rígidos de formação de indivíduos. Precisamos escolher nossa aprendizagem de acordo com nossas reais necessidades. Segundo Monteiro: "As práticas de aprendizagem no seio do ciberespaço permitem um acesso ao saber que é ao mesmo tempo maciço, diversificado, personalizado e colaborativo." (p. 56)

Conclusão

Temos a nítida impressão que tudo acontece rápido demais. Com a tecnologia da informação, o mundo está rapidamente se transformando, invadindo nosso cotidiano. Vale ressaltar o quanto a qualificação em informática é valorizada atualmente.

Esta rapidez com que uma idéia se atualiza e é substituída por outra; estes reflexos de uma virtualização ainda entram em choque com uma subjetividade que reluta e se assusta com este mundo novo: O Ciberespaço.

Mas porque o espanto? A Virtualização não está restrita ao espaço informático. Uma simples ultra-sonografia, uma cirurgia plástica, até mesmo atender uma chamada telefônica ou assistir a TV, ou próprio ato de leitura, a maneira como interpretado o texto, a escrita quando há separação de algo de um corpo vivo: todos são prenúncios da virtualização. Antes de temer, precisamos buscar a compreensão do que é o virtual.

Não há dúvidas de que precisamos de tamanha tecnologia para evoluir enquanto sociedade. Não vivemos sem nossos remédios, nossas máquinas, nossas bactérias. Contudo, não será apenas com ela que combateremos a crise.

Bem, e neste mundo virtual, o que queremos ressaltar é a importância do conhecimento. Sempre existiu a preocupação em armazena-lo, organiza-lo, torna-los disponíveis à comunidade, com o objetivo da preservação de nossa memória cultural. Exemplo: bibliotecas e museus.

Este novo espaço de saber - o ciberespaço - nos possibilita, por exemplo, através do correio eletrônico mundial, a criação da comunidade virtual, que poderá com a afinidade de interesses união de projetos, cooperação e troca dos usuários, produzir conhecimento, independente dos vínculos geográficos, E é através do conceito da ciberpédia, que teremos um conhecimento dinâmico, colaborativo e reorganizado em tempo real por interpretações diferentes da biblioteca comum. A ciberpédia poderá se tornar a infra-estrutura para a constituição do cérebro coletivo.

A rede permite aos aprendizados a trabalharem juntos, interagirem suas idéias, resolverem problemas e participarem na construção e intersecção do conhecimento. Sabemos que este conhecimento não esta mais limitado a uma memória, precisamos ir a sua busca. Hoje ele é coletivo, impossível de ser reunido e organizado por uma só pessoa. Ninguém possui, sozinho, a totalidade do conhecimento.

Contudo, precisamos também estar atentos a alguns riscos que corremos com o ciberespaço: a população de dados, o anônimo exercício de poder por "debaixo da rede", a aniquilação da memória e a "infomania", que é o deslumbramento cego por dados sem interesse na aprendizagem. Precisamos tomar cuidado com o "lixo internáutico".

Sabemos que o ciberespaço é matéria de interesse e especulação para alguns poderosos. Embora a internet esteja cada vez mais em evidência da sociedade contemporânea, é importante observar que esse ambiente ainda não se encontra estabilizado. É campo aberto e digno de conflitos.

Precisamos alimentar o lado positivo da WEB: compartilhar saberes. As pessoas não vivem sozinhas, necessitam de idéias e sugestões de outros. O trabalho em grupo é indispensável para nossa aprendizagem.

Se, como vimos, a ciberpédia é o espaço pluralístico do conhecimento, o "collaboratory" é o próprio trabalho em equipe. Aqui, pesquisadores, sem necessitar estar juntos no mesmo local físico, compartilham saberes e experiências. É um "centro de saber sem muros"; e devemos isto a informática. Este projeto amplia o número de mentes em contato, provoca no ser humano outras formas de conhecer o mundo e torna o conhecimento puramente coletivo.

Concluímos que o ciberespaço está caminhando para revolucionar e transformar a aprendizagem, hoje esta última crucial em nossas vidas. O ciberespaço já é um indício de que a humanidade está crescendo junta, mentalmente, podendo se transformar num cérebro global. Como diz Monteiro: "Devemos buscar uma aprendizagem que abranja os corações - mentes, alimentada pela rede global; talvez assim nos ajude a globalizar não apenas a economia e a tecnologia, mas também a solidariedade e o amor." (p.250)

Lévy finaliza: O saber não se trata apenas do conhecimento científico &emdash; recente, raro e limitado, mas daquele que qualifica a espécie. O saber é co-extensivo à vida.

Bibliografia

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LEMOS, André L.M. Ciber-Sociedade: Tecnologia e a Vida Social na Cultura Contemporânea. Online. Internet. <http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/cibersoc.html>

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

LÉVY, Pierre. O que é o Virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.

LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva. São Paulo: Loyola, 1999.

MONTEIRO, Rogério Antonio. O Ciberespaço: A Dinâmica da Informática e a Aprendizagem Colaborativa. São Paulo, 1997. TESE (Doutorado em Comunicação e Semiótica) - Pontifícia Universidade Católica