Aspectos da Globalização, sua Repercussão na Sociedade, na Economia e na Política

Agamenon Pereira Alves
Flávio Luís Antonio
Sandra Regina A. R. Rigoti

Monografia apresentada no curso de Organização, Sistemas e Métodos das Faculdades Integradas Campos Salles, sob orientação do Professor Mauro M. Laruccia

(Disponível na rede desde novembro de 2000) 


Introdução

O novo milênio promete mudanças radicais, principalmente no comportamento social e profissional. Pense em cinco anos atrás: no que você fazia, quais eram suas expectativas para o futuro e o que era feito para tornar seus ideais uma realidade. Possivelmente, todos os seus projetos não eram muito diferentes do que possa estar vivendo agora, no entanto, se prestar atenção nas mudanças externas que ocorreram dentro desse período, se atentar para as descobertas tecnológicas e científicas que o envolveram nesse curto intervalo de tempo, nas facilidades advindas dessa transformação, irá perceber o quanto o mundo mudou.

Se pudéssemos tirar uma fotografia desse exato momento em todas as suas variações, daqui há mais cinco anos veríamos a intensidade das transformações que certamente ocorrerão e que passarão quase que despercebidas; vistas por nós com naturalidade mas que chocariam qualquer um que acordasse de um longo sono.

As mudanças não ocorrerão uniformemente, mas de maneira gradativa e acelerada. O que quer dizer que dentro dos próximos anos não teremos um mundo completamente diferente mas com recursos inimagináveis.

Se colocarmos um sapo numa panela com água quente ele saltará imediatamente para fora, no entanto, se este mesmo sapo for colocado numa panela com água fria e esquentarmos gradativamente, ele morrerá cozido. É difícil percebemos as mudanças quando estamos fazendo parte delas e, o que se espera para os próximos anos, não é um milagre tecnológico, mas uma revolução em nosso método de vida, de trabalho, de comportamento social e de visão do mundo!

Tudo isso se deve a um fator que teve seu início desde a pré história, no decorrer dos primeiros contatos sociais; das primeiras trocas, quando os homens que habitavam este planeta resolveram tentar se comunicar com os outros. Dessa forma, ainda que não intencionalmente, acabaram por influenciar hábitos, absorver novas informações, criar e mudar conceitos. Desde a pré história o homem vem modelando um processo irreversível chamado na atualidade de GLOBALIZAÇÃO.

O que é Globalização

Fundamentalmente, o intuito desse processo é derrubar as fronteiras que limitam países, pessoas, sociedades...! Globalizar é reduzir o tempo burocrático, trabalhar de forma participativa, com parcerias, não importando a localização geográfica de cada parceiro, mas sim a sua contribuição para a afirmação do novo modo de fazer as coisas. Tudo quanto conhecemos, todos os métodos de trabalho, de comércio, de ideologias está sendo transformado (positiva ou negativamente) por esse processo.

Pode-se dizer que, dentre os muitos fatores influentes, os que mais se destacam são o nascimento da Internet e os sofisticados meios de comunicação da atualidade (A tecnologia da informática aliou-se a das telecomunicações), que intensificaram as relações internacionais, aproximou interesses que norteiam a sociedade tanto nos campos político, econômico, tecnológico como social (com a queda das barreiras comerciais).

Globalização também pode ser descrita como condição atual de participação de qualquer país, nas profundas mudanças que vêm ocorrendo mundialmente na produção e consumo de bens e serviços.

Este fenômeno pode ser visto por dois pontos de vista: como um grande propulsor no crescimento da economia mundial, ou como um grande limitador entre países ricos e pobres, acentuando suas diferenças, considerando as tendências de formação de Blocos Econômicos regionais e o fim das barreiras alfandegárias.

Estas duas tendências transformam radicalmente o ambiente econômico, aumentando intensamente o comércio internacional de produtos e obrigando alguns países a serem ágeis e competentes para se enquadrarem ao desafio da competitividade global.

Um dos elementos primordiais para as empresas serem competitivas dentro do mercado mundial é a automação industrial. Este elemento leva a muitos pensarem na globalização como uma grande causadora do desemprego e da conseqüente queda do consumo, quando no entanto, a automação gera sim a necessidade de mão de obra tecnicamente qualificada e elimina setores e/ou funções que não tenham as capacitações para atender a essas necessidades, afinal, a disputa acirrada no mercado por espaço é desencadeada por empresas multinacionais detentoras de tecnologia de ponta e com excelentes planejamentos de marketing.

"O conceito de globalização inspira-se numa interpretação oportunista, primária e generalizadora da teoria da ´aldeia globalª exposta pelo professor e sociólogo canadiano Marshall McLuan. Segundo essa teoria, o desenvolvimento acelerado dos meios de comunicação social e das tecnologias de telecomunicação transformam o mundo numa ´aldeia globalª onde todos sabemos de todos praticamente em tempo real - em direto e ao vivo.

Se recuarmos alguns anos concluiremos que a insistência na palavra globalização começou a notar-se por alturas da Guerra do Golfo, quando todos fomos prendados com essa maravilha da nossa existência que foi ´a guerra em diretoª. A punição exemplar de Saddam Hussein feita pelos justiceiros da chamada ´comunidade internacionalª teria sido testemunhada pelos cidadãos do mundo através da pioneira e benemérita CNN. Uma guerra muito bem explicada pelos assessores de imprensa do Pentágono, praticamente sem mortos nem destruição, animada por feéricas habilidades e, quando necessário, por efeitos artificiais conseguidos pela arte dos computadores de última geração.

O resultado deste primeiro teste da ´aldeia globalª foi um desastre informativo. Nunca o homem dispôs de tão sofisticados meios técnicos para cobrir um acontecimento e raramente terá ficado a conhecer tão pouco de um conflito de grande envergadura.

A ´guerra em diretoª foi uma grande ação de propaganda integrada no arranque da ´nova ordem internacionalª, explicada pelo presidente dos Estados Unidos da América, George Bush, no discurso proferido a seguir à rendição do Iraque no Koweit. Foi em 7 de Março de 1991."(José Gulão)

As maiores corporações mundiais estão concentradas nos Estados Unidos, atingindo a marca dos 70%, enquanto a Europa concentra 26% e o Japão 4%. Desde 96, as multinacionais norte-americanas estão adquirindo um grande número de empresas japonesas, coreanas e tailandesas, entre outras, aumentando seu império, dia a dia.

Desta forma, podemos notar claramente o papel dos EUA no processo globalizante e a sua importância econômica em relação ao mundo, ou seja, absorvendo e influenciando a economia japonesa, européia, asiática e sul americana, os EUA acabam manipulando o desenvolvimento, que deveria caminhar em direção ao livre mercado, ao seu favor mesmo que seja as custas de intervenções políticas ou militares. Como conseqüência desse jogo econômico podemos citar os abalos na economia brasileira e da Ásia.

Até o advento da primeira Revolução Industrial do século XVIII, o mundo era constituído de realidades regionais as mais diversas, as sociedades se distribuíam na sua infinita diversidade. O advento da tecnologia industrial passa a unificar os espaços área a área, de modo que o espaço vai se padronizando em prejuízo da diversidade da natureza e do homem, suprimindo a bio homodiversidade. Com a Segunda Revolução Industrial da virada dos séculos XIX-XX esta uniformização atinge a escala planetária.

Em menos de um século, o mundo é então a globalização da produção, dos mercados e das culturas que suprime as antigas regionalidades e a identidade cultural das suas civilizações, acarretando a desarrumação sócio-ambiental conhecida.

Luiz Roberto Lopes (Prof. Do IFCH/UFRG) descreve a Globalização da seguinte forma: "...implica uniformização de padrões econômicos e culturais em âmbito mundial. Historicamente, ela tem sido indissociável de conceitos como hegemonia e dominação, da qual foi, sempre, a inevitável e previsível conseqüência. O termo globalização e os que o antecederam, no correr dos tempos, definem-se a partir de uma verdade mais profunda, isto é, a apropriação de riquezas do mundo com a decorrente implantação de sistemas de poder. A tendência histórica à globalização - fiquemos com o termo atual - é um fenômeno que, no Ocidente moderno, tem suas raízes na era do Renascimento e das Grandes Navegações, quando a Europa emergiu de seus casulos feudais. Paralelamente no início da globalização, traduzida na europeização da América, tivemos a criação da imprensa (1455).

À tecnologia que permitiu ao europeu expandir a sua civilização, correspondeu a tecnologia que lhe possibilitou expandir a informação. Até a Revolução Industrial, no entanto, o processo de globalização foi acanhado - pouco afetou Ásia e África. Resultava mecanismos predatórios e ainda incipientes da apropriação. Com a Revolução Industrial e a liberação do Capitalismo para suas plenas possibilidades de expansão, a globalização deu um salto qualitativo e significativo."

O Capitalismo tem como características fundamentais a apropriação e a expansão. A ampliação dos espaços de lucro conduziu à globalização. O mundo passou a ser visto como uma referência para obtenção de mercados, locais de investimento e fontes de matérias-primas. A globalização foi também o espaço para o exercício de rivalidades inter-capitalistas, gerando enormes conflitos, como por exemplo as duas guerras mundiais. A miséria social continua à margem do planejamento estrutural, pois não existe abordagens racionais ou projetos alternativos para ela. Quanto a classe trabalhadora, ou está excluída do processo ou foi absorvida pelo setor de serviços em uma economia fluida que não permite a formação de uma consciência de classe. A Nova Ordem gera insegurança. Temos uma forte tendência ao isolamento. A exclusão social reforça a idéia da humanidade descartável, manipulada por informações lançadas no intuito de favorecer aos que controlam a economia global.

Se na teoria, globalização representaria a interação; a troca; a parceria, na prática ocorre a imposição sutil da hegemonia ideológica das elites criando uma imagem de mundo heterogêneo, controlando a economia, os negócios, criando regras que permitam ou viabilizem a expansão do império capitalista.

A imagem é de um planeta altamente desenvolvido, com imensos recursos tecnológicos e uma tendência a tornar-se uma "aldeia global". Na verdade o que temos é a exclusão da maioria, tratando-se de países ou pessoas, grupos ou sociedades inteiras. Muitos tem confundido o processo Globalização com alguns mecanismos deste processo. O fato de se ter um micro computador em casa ligado à Internet e fazer compras On line ou ter as últimas notícias do mundo bem "fresquinhas" não significa que estamos decidindo pelo futuro mundial, estamos participando do processo, mas na maioria das vezes de forma passiva. Portanto, não adianta exaltar as conquistas tecnológicas crescentes - importa questionar a que, a quem e de que maneira elas servem.

Além da exclusão social, temos uma forte tendência ao isolamento, ao individualismo narcisístico, a idéia da humanidade descartável, que reforça ainda mais a idéia do transitório, do modismo. A manipulação das informações para favorecer aos que controlam a economia global não tem limites.

A globalização da informação a serviço do interesse de minorias, difundindo e beneficiando modas e o consumo rápido do em que, ao consumo de massas, sucedeu a ênfase no consumo seletivo de bens descartáveis, impondo padrões uniformes de cultura, valores e comportamentos.

Alguns fatos cruciais que acabaram por influenciar de forma decisiva no processo de globalização foram:

  1. A queda do Muro de Berlim em 1989;
  2. Fim da Guerra Fria;
  3. Fim do socialismo real;
  4. A desintegração da União Soviética, em dezembro de 1991, e seu desdobramento em novos Estados Soberanos;
  5. A formação de blocos econômicos regionais (União Européia, Nafta, Mercosul, etc.);
  6. Grande crescimento econômico de alguns países asiáticos (Japão, Taiwan, China, HongKong, Cingapura);
  7. Fortalecimento do capitalismo (neoliberalismo);
  8. Grande desenvolvimento científicos e tecnológico ou Terceira Revolução Industrial ou Tecnológica.

A Globalização sob o ponto de vista político:

Por muito tempo, acreditou-se que os fenômenos sociais de intercâmbio (relações de comércio e trocas) entre países eram estabelecidos e regidos por uma poderosa origem conspiratória chamada "teoria da conspiração", no sentido de que algumas (duas ou três) pessoas estariam se reunindo em algum lugar, decidindo os rumos e definições políticas, econômicas e financeiras do mundo.

No entanto, o processo do sistema capitalista internacional independe de uma vontade localizada ou individual, pois trata-se de um processo evolutivo, onde os avanços são gradativos e a qualidade dessas relações estreitam cada vez mais o mercado entre países.

Surgem os blocos econômicos, unindo esforços de vários países marcando a Nova Ordem Mundial, encerrando de uma vez a bipolarização preexistente (de um lado a União Soviética, do outro os EUA) e consolidando a multipolarização &endash; divisão do poder entre alguns grandes blocos econômicos (União Européia, NAFTA e o Mercosul), tendo como efeito colateral a marginalização dos países pobres.

A abertura comercial é um fato gerador do desemprego, pois a penetração das importações extinguem os mercados cativos criados pelo protecionismo. As atividades econômicas dos próximos anos estão condicionadas ao desempenho dos comportamentos macroeconômicos.

A década de 90 foi marcada pela crescente hegemonia do ideário neoliberal como modelo de ajuste estrutural das economias e pela afirmação do domínio político e militar dos EUA, com o fim da guerra fria e o colapso do chamado socialismo.

Esse movimento foi acompanhado pela evolução de novos conceitos no mundo do trabalho (qualidade, produtividade, terceirização, reengenharia, etc.), como resultado do desenvolvimento e da introdução de novas tecnologias na produção e na administração empresarial, com agravamento da exclusão social e crescimento da apropriação de riquezas.

"Para cada vantagem da globalização se encontra associado um possível risco, define que o processo globalizante tem custos definidos, que se distribuem de forma desequilibrada , e que estes processos convivem e interagem de forma ambígua, tendo seu lado positivo e suas faces escuras. No mesmo artigo, argumenta que promovem-se hoje a expansão dos fluxos financeiros, a internacionalização da produção, o estabelecimento de novas estruturas produtivas com apreciáveis ganhos de produtividade, a revisão das vantagens comparativas entre as nações, a descoberta de novos horizontes de comércio e consumo, a mudança do papel do Estado etc. Constitui-se, pois, uma nova ordem econômica e, até certo ponto, política." (Sardenberg, artigo Globalização Verdadeira ou Falsa?, Jornal Correio Brasiliense, 26/04/96).

A globalização surgiu de forma inesperada e descontrolada. Tem causado desemprego em certos países, desafia o poder tradicional dos governos e passa para as pessoas a sensação de que o mundo se transformou num ambiente selvagem, do dia para a noite. Por mais que os estudiosos apresentem argumentos favoráveis a essa mutação econômica, a imagem que ela tem é a dos saques da Indonésia, dos desempregados na Europa e das empresas fechadas na Argentina. A pergunta bastante razoável que se pode fazer é: para que serve esse processo se ele sacrifica pessoas e subtrai poder de governos que são eleitos pelo povo?

A ampliação do poder das multinacionais tem promovido uma concorrência perversa entre os Estados. A globalização financeira tem limitado a capacidade dos Estados nacionais de promoverem políticas expansionistas sob o risco de serem submetidos à exclusão do mercado mundial de capitais e aos ataques especulativos de suas moedas, com graves conseqüências para a estabilização.

Essa forma de globalização favorece os países que concentram maior poder econômico e diminui a autonomia política e decisória dos Estados, que, adotando uma inserção subordinada à lógica da "Nova Ordem Mundial" passam a reduzir impostos de importação, atacar conquistas sociais e sindicais e submeter suas políticas e legislações aos interesses dos países centrais.

"Um Estado desses torna-se muito dependente dos investimentos privados e começa a fazer o que as empresas quiserem para não perder força econômica. Vira uma relação desigual , em que o mercado tem todas as fichas na mão. Em última instância, isso acaba afetando a confiança na democracia. As pessoas se perguntam então para que serve a democracia se as decisões estão sendo tomadas onde não temos influência ." Claus Offe, sociólogo alemão

Embora os impactos sociais sejam semelhantes em escala mundial, são os países da África, América Latina e do Leste europeu que sofrem de forma aguda e acelerada as conseqüências dos programas de ajustamento econômicos neoliberais do FMI e do Banco Mundial, agravando a pobreza e levando a miséria e o desespero para extensas camadas sociais

A Repercussão Na Economia

As repercussões no nível mercantil dentro do Mercosul trazem efeitos a economia que atingem indistintamente tanto a empresa que pretende internacionalizar-se, quanto aquela que opta por uma ação doméstica, trazendo vantagens e benefícios inquestionáveis: maior poder de negociação com os demais blocos ou países; níveis de produção que permitem economias de escala; maior oferta de bens e serviços para a sociedade em geral; aprimoramento da qualidade dos produtos e serviços; redução considerável de custos de transportes e comunicações, além do aval das relações políticas, comerciais, científicas, acadêmicas, culturais e sociais dos países-membros.

Afirma Trevisan que "por mais que as fronteiras dos mercados tenham ruído, os norte-americanos não hesitaram em taxar os produtos chineses, ao primeiro sinal de ameaça à sua economia doméstica".

Podemos perceber que o processo de Globalização não é um caminho de mão-dupla como os Estados Unidos, Japão e CEE querem demonstrar. Caso os benefícios sigam em direção contrária à planejada, medidas antiglobalizantes são tomadas, com a justificativa de não explorar o trabalho de crianças, de agressões aos direitos humanos, de devastação das reservas florestais, ou qualquer outro com apelo popular forte o bastante para disfarçar as reais intenções. Sandenberg afirma que "a Globalização não permite expectativas de automatismo ou o inquietismo político", Trevisan diz "A Globalização provocou um surto de técnicas de gestão empresarial que fizeram mais mal do que bem numa cultura como a nossa. O brasileiro é emotivo, trabalha com o coração, desenvolve laços com seus companheiros e admira seu chefe. Na ânsia de corresponder ao novo perfil de empresa preconizado pelas relações do novo mercado, mais frias e impessoais, a empresa nacional perdeu sua alma. Na sua linha de produção, ela tem a passista da escola de samba, o presidente do time de futebol do bairro, o chefe da liga dos Vicentinos. Demita-se um deles e estar-se-á destruindo uma cadeia de organização informal que é o lastro da empresa brasileira" (Trevisan, artigo O lado amargo da globalização, sem referência ao órgão de publicação, 20/06/96).

A globalização excludente (forma atual do sistema capitalista como o conhecemos) arrisca-se a cair em um buraco negro por ela própria criado, qual seja: a plena saturação da demanda nas áreas de riqueza e de inexistência de demanda no mundo excluído (pobre). A coexistência da abundância e da miséria globais não é uma coisa atraente, merecendo análises aprofundadas da humanidade como um todo, visando evitar guerras e conflitos de proporções mundiais.

Para a criação desta ética da solidariedade, serão necessários inúmeros e amplos programas e esforços concentrados em busca da mudança de mentalidades e da obtenção de resultados, demandando um longo tempo; porém, cabe a nós mesmos iniciar e promover estes programas e esforços, reafirmando a máxima chinesa que diz que as mais longas caminhadas começam sempre com o primeiro passo.

Há um grande risco de uma derrocada financeira em todo o mundo, principalmente em virtude da ausência de uma regulamentação pública eficaz sobre as instituições financeiras e as principais bolsas de valores. A nova ordem financeira sobrevive de baixos salários e da pilhagem do meio ambiente.

Um dos maiores riscos da passividade (destacado também por Chossudovsky) é a insolvência do Estado, a falta de liquidez e a falta de perspectiva de adequação entre os gastos públicos e sua arrecadação.

Com exemplos claros e lógicos, esse autor destaca que as empresas de grande porte (normalmente multinacionais ou transnacionais) exigem isenções fiscais de grande monta para se instalarem em determinadas regiões do globo, alegando que sua instalação gerará empregos e impostos futuros, minimizando os problemas de falta de empregos. O Estado, pobre iludido, oferece incentivos astronômicos, realizando verdadeiros leilões para angariar o desenvolvimento para sua região. Ao pesar o resultado, verifica-se que a quantidade de empregos gerada não supre a ausência de impostos e a necessidade de investimentos de infra-estrutura, tanto para a empresa quanto para os operários desta, tem que sair de algum lugar. Normalmente este lugar é o Banco Mundial, que aumenta ainda mais o déficit do Estado, formando um ciclo vicioso praticamente impossível de combater.

Sardenberg, que diz: Diante dos fatos econômicos, torna-se insustentável o estilo autárquico de desenvolvimento. Esta circunstância, porém, não esgota a ação estratégica do Estado ou a participação internacional do País. Cabe adotar políticas próprias, inclusive no nível regional, para conter ou compensar os efeitos desorganizadores que advêm do processo de globalização. Bastaria lembrar, a propósito, a avassaladora importância que vai tomando o tratamento dos problemas de emprego e de exclusão social. A esta altura, marginalizar-se seria erro incompreensível e doloroso. Para atrair novos investimentos, é necessário manter um ambiente político, jurídico e econômico estável, que garanta condições de viabilidade e previsibilidade nos negócios. Na luta pela prosperidade, a inserção eficiente do Governo e a sociedade deverão acelerar a formulação de um projeto nacional capaz de responder aos desafios de longo prazo da nova etapa da evolução do sistema capitalista mundial e da organização da sociedade internacional (Sardenberg, artigo Globalização Verdadeira ou Falsa?, Jornal Correio Brasiliense, 26/04/96).

A realidade do processo de globalização é a característica excludente. Tal fato gerará repercussões no mínimo preocupantes, posto que os excluídos reagirão com as armas de que dispõem para reverter o quadro imposto pelas economias estruturadas.

O processo é preocupante devido ao fato de participar ou não participar. As perspectivas de não-participação causam dúvidas sobre possibilidade de ingresso futuro ou de exclusão total e irreversível.

Com tal cenário, pode-se concluir que é necessária a participação no processo, porém, de forma a equacionar os benefícios gerados com os custos decorridos. Essa alternativa também é excludente, mas minimiza as distorções geradas com a liberalização integral e irrestrita proposta pelos países mais estruturados economicamente e pelas instituições transnacionais de grande porte.

Deixadas ao livre sabor dos movimentos econômicos de capital, as alternativas de desenvolvimento serão sempre concentradoras em níveis alarmantes, gerando uma predisposição ao conflito armado, seja entre nações ou internamente, desestruturando completamente qualquer Estado ou tentativa de unificação. Simplificando, seria o caos. O fator tempo, neste caso, seria um determinante para a eclosão destes conflitos e a total segregação entre pessoas com altíssimo nível de vida e pessoas desprovidas de perspectivas de sobrevivência a médio prazo, eliminando as chamadas "classes médias".

"Tudo indica que esgotou-se o tempo das grandes simplificações políticas e econômicas. Surge uma visão mais complexa e mais rica de articulação de Estado, empresa e sociedade civil, em torno de objetivos simultaneamente sociais, econômicos e ambientais. Enfrentamos uma modernidade tecnológica revolucionária em todos os aspectos, mas continuamos presos a um lastro de barbárie política e econômica que tudo deforma." (1999, Revista Unicsul, pág. 69)

Um volume crescente de capital acumulado é destinado à especulação propiciada pela desregulamentação dos mercados financeiros. Nos últimos quinze anos o crescimento da esfera financeira foi superior aos índices de crescimento dos investimentos, do PIB e do comércio exterior dos países desenvolvidos. Isto significa que, num contexto de desemprego crescente, miséria e exclusão social, um volume cada vez maior do capital produtivo é destinado à especulação.

O setor financeiro passou a gozar de grande autonomia em relação aos bancos centrais e instituições oficiais, ampliando o seu controle sobre o setor produtivo. Fundos de pensão e de seguros passaram a operar nesses mercados sem a intermediação das instituições financeiras oficiais. O avanço das telecomunicações e da informática aumentou a capacidade dos investidores realizarem transações em nível global. Cerca de 1,5 trilhão de dólares percorre as principais praças financeiras do planeta nas 24 horas do dia. Isso corresponde ao volume do comércio internacional em um ano.

Da noite para o dia esses capitais voláteis podem fugir de um país para outro, produzindo imensos desequilíbrios financeiros e instabilidade política. A crise mexicana de 94/95 revelou as conseqüências da desregulamentação financeira para os chamados mercados emergentes. Foram necessários empréstimos da ordem de 38 bilhões de dólares para que os EUA e o FMI evitassem a falência do Estado mexicano e o início de uma crise em cadeia do sistema financeiro internacional.

Ao sair em socorro dos especuladores, o governo dos Estados Unidos demonstrou quem são os seus verdadeiros parceiros no Nafta. Sob a forma da recessão, do desemprego e do arrocho dos salários, os trabalhadores mexicanos prosseguem pagando a conta dessa aventura. Nos períodos "normais" a transferência de riquezas para o setor financeiro se dá por meio do serviço da dívida pública, através da qual uma parte substancial dos orçamentos públicos são destinados para o pagamento das dívidas contraídas junto aos especuladores. O governo FHC destinou para o pagamento de juros da dívida pública um pouco mais de 20 bilhões de dólares em 96.

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